Polícia investigou elo entre empresa de Dark Horse e instituto que recebeu R$ 69 milhões, mas não pediu dados da produtora ao Coaf

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Documentos indicam que investigadores apontaram possível falta de separação estrutural entre o Instituto Conhecer Brasil e a produtora do filme sobre Bolsonaro, mas solicitaram dados financeiros apenas do instituto e de sua presidente

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A Polícia Civil de São Paulo identificou uma possível conexão entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), que recebeu R$ 69 milhões da Prefeitura de São Paulo para implantação e manutenção de pontos de Wi-Fi gratuito, e a Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, mas não incluiu a empresa no pedido de informações financeiras encaminhado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A decisão chama atenção porque os próprios documentos da investigação registram que as duas estruturas funcionam no mesmo endereço e apontam uma “aparente inexistência de separação estrutural e operacional”.

A presidente do ICB, Karina Ferreira da Gama, também é responsável pela Go Up Entertainment. Diante dessa coincidência societária e operacional, a investigação levantou a possibilidade de que recursos recebidos pelo instituto pudessem ter chegado à empresária ou a empresas relacionadas a ela. Até o momento, porém, os documentos apresentados não comprovam que recursos do contrato de Wi-Fi tenham sido utilizados na produção de Dark Horse.

Em 22 de maio, a Polícia Civil pediu autorização judicial para obter relatórios do Coaf. As buscas realizadas em 1º de junho resultaram na apreensão de celulares, computadores e documentos. Entretanto, na delimitação do pedido financeiro, a Go Up não foi incluída.

A exclusão aparece de forma expressa em manifestação do delegado responsável pelo caso. Segundo o documento, a polícia “não pretende […] a obtenção de dados do Coaf da Go Up Entertainment Ltda., mas sim, e tão somente, do Instituto Conhecer Brasil e de sua representante legal”.

A questão ganhou importância em 28 de agosto, quando o juiz Nelson Augusto Bernardes de Souza analisou o pedido e solicitou que a Polícia Civil apresentasse elementos capazes de sustentar as suspeitas, além de esclarecimentos sobre a relação entre os recursos recebidos pelo instituto e a produtora de Dark Horse.

O episódio abre uma pergunta objetiva para a investigação: se a Polícia Civil identificou uma possível sobreposição entre o instituto beneficiário do contrato público e a empresa responsável pelo filme, por que os dados financeiros da produtora não foram incluídos na solicitação ao Coaf?

Essa pergunta não significa, por si só, que tenha havido desaparecimento ou ocultação de provas. Os documentos disponíveis não permitem afirmar que informações tenham sido destruídas, retiradas ou deliberadamente escondidas. O que pode ser constatado é que uma fonte de informação financeira potencialmente relevante para esclarecer a relação entre as duas estruturas não foi requisitada naquele momento.

A investigação também registrou que as referências a projetos audiovisuais e relações políticas não constituíam, naquele estágio, objeto específico da apuração. A Polícia Civil abriu inicialmente o procedimento para investigar questões relacionadas ao contrato de conectividade, e o alcance da apuração foi posteriormente ampliado por decisões judiciais.

Em agosto, o ministro Flávio Dino autorizou o compartilhamento das provas produzidas pela Polícia Civil com a Polícia Federal. Em 10 de setembro, Dino determinou a transferência da supervisão do caso para a esfera federal e a remessa dos autos ao Supremo Tribunal Federal.

O ponto mais sensível agora é saber o que os documentos, aparelhos eletrônicos e eventuais dados financeiros já obtidos pela investigação revelam sobre a circulação dos R$ 69 milhões. Também será necessário esclarecer se houve transferência de recursos do ICB para Karina Ferreira da Gama, para a Go Up ou para empresas relacionadas à produtora.

Até o momento, não há comprovação, no material analisado, de que dinheiro público destinado ao programa de Wi-Fi tenha financiado Dark Horse. A conexão entre o instituto e a produtora permanece como uma hipótese investigada, e não como fato comprovado.

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