Valor negociado para “Dark Horse” supera orçamentos de produções como “Parasita”, “Moonlight”, “Anora” e “A forma da água”; investigação da PF agora apura também recursos públicos relacionados ao projeto
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O filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), foi projetado com um orçamento de até US$ 24 milhões, valor que, na cotação utilizada nas reportagens sobre a negociação, equivalia a aproximadamente R$ 134 milhões. A cifra coloca a produção em uma faixa incomum para um filme brasileiro e supera o orçamento de pelo menos 15 vencedores do Oscar de Melhor Filme, entre eles “Moonlight”, “Nomadland”, “Anora”, “Parasita”, “Birdman” e “A forma da água”.
O valor ganhou novo peso depois que a Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up, que investiga suspeitas de desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares relacionadas a entidades que aparecem na estrutura do projeto. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados, por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
É importante separar duas cifras que passaram a aparecer nas investigações. Os US$ 24 milhões correspondem ao valor solicitado ou negociado para financiar a produção. Já uma delação premiada homologada pelo STF revelou que cerca de R$ 61 milhões, aproximadamente US$ 12 milhões, teriam sido efetivamente transferidos para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, destinado ao financiamento do filme.
Um orçamento maior que o de filmes consagrados
A comparação internacional ajuda a dimensionar o tamanho do projeto.
“Moonlight”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2017, teve orçamento estimado em US$ 1,5 milhão. “Nomadland”, vencedor em 2021, custou cerca de US$ 5 milhões. “Anora”, vencedor em 2025, teve orçamento próximo de US$ 6 milhões.
Outros vencedores também ficaram abaixo da cifra projetada para “Dark Horse”: “Parasita”, US$ 11,4 milhões; “O artista”, US$ 15 milhões; “O discurso do rei”, US$ 15 milhões; “Guerra ao terror”, US$ 15 milhões; “Birdman”, US$ 18 milhões; “A forma da água”, US$ 19,5 milhões; “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”, US$ 20 milhões; “Spotlight”, US$ 20 milhões; “12 anos de escravidão”, US$ 22 milhões; e “Green Book”, US$ 23 milhões.
Ou seja: considerando os US$ 24 milhões como orçamento projetado, “Dark Horse” ultrapassaria individualmente o custo de todas essas produções vencedoras do Oscar.
Portanto, os US$ 24 milhões de “Dark Horse” não colocam o filme entre as superproduções de Hollywood. Mas representam uma cifra muito elevada quando comparada à tradição de filmes independentes e de orçamento médio que conquistaram o principal prêmio da Academia.
A diferença fica ainda mais evidente quando se compara o valor com produções de grande reconhecimento feitas com orçamentos muito menores. “Parasita”, por exemplo, venceu quatro Oscars, incluindo Melhor Filme, com orçamento estimado em US$ 11,4 milhões.
O dinheiro que efetivamente chegou ao projeto
A investigação financeira acrescenta outro elemento à história. Segundo a delação homologada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, cerca de R$ 61 milhões foram transferidos para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, destinado ao financiamento de “Dark Horse”. O empresário afirmou que os repasses foram realizados a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, após solicitações de Flávio Bolsonaro.
O valor efetivamente transferido, portanto, é inferior aos US$ 24 milhões inicialmente negociados. Essa diferença ainda é relevante para a apuração: quanto foi efetivamente captado, quanto foi gasto na produção e onde está o restante do dinheiro previsto no orçamento?
Um filme político no ano eleitoral
“Dark Horse” também tem uma característica que o diferencia de grande parte dos filmes utilizados nas comparações: seu protagonista é um personagem político brasileiro contemporâneo e o lançamento está previsto para setembro de 2026, em pleno ano eleitoral.
A produção é dirigida por Cyrus Nowrasteh e tem Jim Caviezel no papel de Bolsonaro. Mário Frias (PL-SP), deputado federal e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, participou do projeto como produtor-executivo e roteirista.
A proximidade entre o lançamento e as eleições, entretanto, não permite concluir isoladamente que exista finalidade eleitoral irregular. Essa eventual conclusão dependeria da análise de conteúdo, financiamento, distribuição, público alcançado e eventual utilização política da obra.




