Levantamento mostra repasses para 22 candidaturas de vereadores de Campinas, deputados da região e alguns nomes que concorrem a uma vaga nessas eleições. As 22 candidaturas e expõem contradições entre o discurso de verba pública
As campanhas de 21 candidatos ligados a Campinas e região que disputam vagas de deputado estadual e federal receberam, juntas, R$ R$ 13.350.018,74 em recursos públicos, segundo levantamento do Jornal Local com base nos dados de prestação de contas eleitoral de 2026. O valor coloca uma questão que costuma desaparecer no debate político: enquanto o eleitor decide o voto nas urnas, são os diretórios que definem quem terá estrutura financeira robusta e quem fará campanha com orçamento reduzido.
O montante de R$ 14 milhões não representa doações feitas voluntariamente por empresas ou cidadãos às campanhas. São recursos públicos distribuídos por meio do sistema de financiamento eleitoral e partidário. Em outras palavras, o Estado arrecada recursos, inclui despesas eleitorais no orçamento e transfere dinheiro às estruturas partidárias, que posteriormente fazem os repasses às candidaturas. O eleitor paga a conta por meio do orçamento público, independentemente de votar ou não nos candidatos beneficiados.
Um levantamento realizado pela reportagem, com base em dados de prestação de contas da Justiça Eleitoral referentes ao pleito de 2026, revela que 21 candidatos a deputado estadual e federal com atuação em Campinas e região já receberam R$ R$ 13.350.018,74. O montante, proveniente do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), escancara o papel das cúpulas partidárias na distribuição dos recursos públicos.
Entre os 21 candidatos analisados, a distribuição do dinheiro apresenta diferenças expressivas. Carlos Sampaio (PSD) aparece na primeira colocação, com R$ 1,7 milhão. Guida Calixto (PT) recebeu R$ 1,508 milhão, enquanto os outros candidatos aparecem com R$ 1,5 milhão. Somados, os candidatos concentram aproximadamente 30,5% dos R$ R$ 13.350.018,74 identificados pelo levantamento.
Como é distribuído as verbas aos candidatos
A disparidade no repasse do dinheiro prioriza nomes consolidados ou alinhados às lideranças das legendas. Enquanto uma minoria concentra aportes milionários para investimento em propaganda e contratação de equipes, candidatos emergentes enfrentam escassez de caixa. A alocação da verba atende a critérios internos das siglas, respeitadas as cotas obrigatórias, e influencia diretamente o alcance e a visibilidade dos concorrentes às vagas na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e na Câmara dos Deputados.
Esse ponto é particularmente importante porque o financiamento público não atende apenas partidos de esquerda. Recursos do Fundo Eleitoral são distribuídos a legendas de diferentes campos políticos, incluindo partidos e candidatos identificados com posições conservadoras, liberais, de centro, de esquerda e de direita.
Candidato era contra o uso de dinheiro público
Entre os casos mapeados na região, destaca-se o do deputado federal Carlos Sampaio (PSD-SP). O parlamentar construiu histórico de críticas públicas ao uso do dinheiro público em pleitos eleitorais. Em entrevista publicada pelo Correio Popular/RAC em 2017, Sampaio declarou ter votado contra a criação do Fundo Eleitoral e afirmou jamais ter recebido recursos daquele mecanismo. Em dezembro de 2021, voltou a condenar o aumento da verba aprovado pelo Congresso Nacional, classificando o valor como um “escárnio”.
Nas eleições de 2026, contudo, a prestação de contas de Sampaio registra o recebimento de R$ 1,5 milhão em recursos públicos para a sua campanha. A destinação da verba cumpre as exigências da legislação eleitoral e não indica irregularidades. No entanto, a adesão ao repasse traz ao debate a coerência do posicionamento político do candidato, que passa a financiar sua postulação com o mesmo sistema orçamentário que combateu publicamente em anos anteriores.
Para o eleitor que defende a redução do Estado, a pergunta é especialmente relevante: o candidato que promete diminuir impostos e combater gastos públicos também considera legítimo utilizar dinheiro do orçamento da União para financiar a própria campanha?
E existe uma segunda pergunta, igualmente necessária para quem defende maior participação do Estado nas políticas sociais: é razoável destinar bilhões de reais do orçamento público à disputa eleitoral enquanto governos enfrentam demandas permanentes por saúde, educação, moradia, transporte e assistência social?
Não cabe a reportagem responder essas perguntas pelo eleitor. Cabe mostrar os números e cobrar coerência dos candidatos.
Prestação de contas
A prestação de contas eleitoral permite acompanhar o destino dos recursos depois que eles chegam às campanhas. É possível identificar gráficas, agências de publicidade, produtoras, empresas de eventos, locadoras, fornecedores, prestadores de serviços e outros beneficiários dos pagamentos.
Aí cabe ao eleitor pesquisar como o dinheiro foi distribuído, quem recebeu, quanto recebeu, quais serviços foram contratados e se aquilo que foi declarado corresponde ao que efetivamente ocorreu.
Também é possível pesquisar se determinados fornecedores possuem vínculos societários ou políticos com candidatos, dirigentes partidários, familiares ou grupos empresariais. Essas relações, quando existentes e comprovadas, ajudam a revelar como funciona a engrenagem financeira das campanhas.
O eleitor pode acompanhar esse caminho pelos registros oficiais da Justiça Eleitoral. O dinheiro entra por uma porta e precisa sair por outra, deixando documentos, contratos, notas fiscais e registros de pagamento.
Veja onde você pode acompanhar a prestação de contas https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/home
Quem vai se eleger como toda essa dinheirama?
Os partidos não distribuem milhões de reais aleatoriamente. A concentração dos recursos revela quais candidaturas receberam maior prioridade das estruturas partidárias. Depois da eleição, será possível comparar o dinheiro investido com os votos obtidos.
Será possível calcular quanto cada candidato recebeu de recursos públicos, quanto gastou, quantos votos conquistou em Campinas e região e qual foi o custo aproximado de cada voto.
Essa conta poderá revelar quais partidos fizeram apostas bem-sucedidas e quais candidaturas receberam grandes volumes de dinheiro sem transformar o investimento em votação proporcional.
O eleitor, portanto, não precisa olhar apenas para o santinho, o vídeo de campanha ou a promessa feita no palanque. Precisa olhar para a origem do dinheiro que colocou aquela candidatura diante dele.
Fundo partidário e Fundo Financiamento de Campanha
O sistema brasileiro possui dois mecanismos diferentes. O Fundo Partidário financia principalmente a manutenção e o funcionamento das legendas, enquanto o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado Fundo Eleitoral ou FEFC, foi criado especificamente para financiar campanhas eleitorais. Em 2026, o Fundo Eleitoral foi fixado em aproximadamente R$ 4,9 bilhões. São bilhões de reais que deixam de permanecer disponíveis para outras prioridades orçamentárias e passam a financiar a disputa eleitoral, conforme as regras aprovadas pelo Congresso Nacional e executadas pelo governo federal.
Há ainda uma diferença importante: além do Fundo Eleitoral, os partidos recebem recursos do Fundo Partidário, também abastecido principalmente por dotações orçamentárias da União. Em 2025, segundo os dados reunidos, R$ 1,126 bilhão em dotações orçamentárias foram distribuídos aos diretórios nacionais de 19 partidos. Ou seja, o financiamento público da política não se resume aos bilhões destinados especificamente às campanhas a cada eleição.
Como esse dinheiro pode ser gasto
O dinheiro pode ser utilizado para despesas autorizadas pela legislação eleitoral, como produção de material de campanha, publicidade, impulsionamento de conteúdo na internet, produção de vídeos, contratação de serviços de comunicação, impressão de santinhos e adesivos, eventos, transporte, aluguel de equipamentos, contratação de pessoal e outras despesas diretamente relacionadas à campanha. A outra à estrutura necessária para levar o candidato às ruas e às redes sociais.
A campanha precisa declarar receitas e despesas à Justiça Eleitoral, apresentar documentos e prestar contas posteriormente. Eventuais irregularidades podem resultar em questionamentos e, dependendo do caso, na necessidade de devolução de recursos.
| Nº | Candidato | Partido | Valor |
| 1 | Carlos Sampaio | PSD | R$ 1.700.000,00 |
| 2 | Guida Calixto | PT | R$ 1.508.000,00 |
| 3 | Pedro Tourinho | PT | R$ 1.160.000,00 |
| 4 | Baleia Rossi | MDB | R$ 1.150.000,00 |
| 5 | Jonas Donizette | PSB | R$ 1.000.000,00 |
| 6 | João Galassi | Republicanos | R$ 890.000,00 |
| 7 | Higor Diego | Republicanos | R$ 665.000,00 |
| 8 | Gustavo Petta | PCdoB | R$ 660.578,17 |
| 9 | Rafa Zimbaldi | União Brasil | R$ 503.407,59 |
| 10 | Dalben | PSD | R$ 503.000,00 |
| 11 | Fernanda Souto | PSOL | R$ 491.000,00 |
| 12 | Debora Palermo | PL | R$ 470.000,00 |
| 13 | Marcelo Silva | PSD | R$ 400.000,00 |
| 14 | Ana Perugini | PT | R$ 375.999,98 |
| 15 | Luiz Dalben | PSD | R$ 238.833,00 |
| 16 | Edilene Santos | PSOL | R$ 205.800,00 |
| 17 | Gustavo Reis | PSD | R$ 201.000,00 |
| 18 | Nelson Hossri | PSD | R$ 200.000,00 |
| 19 | Luiz Henrique Cirilo | Podemos | R$ 180.000,00 |
| 20 | Terezinha de Carvalho | Republicanos | R$ 100.000,00 |
| 21 | Ailton da Farmácia | PSB | R$ 60.000,00 |
Total dos 21 candidatos listados: R$ 13.350.018,74.




