Pesquisadores combinam dados de satélites, boias oceânicas e registros preservados em cavernas para tentar antecipar os impactos do fenômeno, cujo auge é esperado para dezembro
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Um possível “Super El Niño” está sendo acompanhado por cientistas diante da perspectiva de que o fenômeno alcance intensidade excepcional no fim de 2026. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera a circulação atmosférica e pode provocar extremos de chuva, seca, calor e tempestades em diferentes regiões do planeta. Pesquisadores utilizam dados coletados em tempo real e registros naturais preservados durante milhares de anos para compreender a evolução do fenômeno e tentar antecipar seus impactos.
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Em condições normais, os ventos alísios deslocam as águas superficiais mais quentes do Pacífico em direção à Indonésia, enquanto águas frias e profundas sobem próximo à costa do Peru, trazendo nutrientes para a superfície. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem e permitem que a água quente avance para o leste. A mudança interfere na circulação atmosférica e pode produzir efeitos climáticos a milhares de quilômetros do Pacífico.
As lições do El Niño de 1982 e 1983
Um dos episódios que mais surpreenderam a comunidade científica ocorreu entre 1982 e 1983. Na época, a intensidade do fenômeno provocou impactos significativos em diferentes partes do mundo e revelou as limitações dos sistemas de previsão disponíveis naquele período.
No Brasil, regiões do Nordeste enfrentaram uma forte estiagem, com prejuízos para a agricultura. Em Santa Catarina, chuvas intensas provocaram enchentes em diversos municípios, deixando mortos e causando danos à infraestrutura.
A dimensão daquele episódio contribuiu para ampliar o monitoramento do Pacífico. Uma das iniciativas foi a implantação de uma extensa rede de boias oceânicas, capaz de transmitir informações sobre temperatura da água, ventos e outras condições do oceano.
O pesquisador Michael McPhaden, que participou da expansão desse sistema de monitoramento, destacou a importância dos equipamentos para a previsão climática. “Elas transmitem informações em tempo real, via satélite. São usadas para pesquisa e previsão. Foi um sucesso”, afirmou.
O monitoramento permitiu que os pesquisadores passassem a identificar mudanças no oceano com maior antecedência. Hoje, informações coletadas por boias, satélites e outros equipamentos são utilizadas em modelos matemáticos para estimar a evolução do fenômeno.
Cavernas funcionam como arquivos naturais
A tecnologia, entretanto, não é a única fonte utilizada pelos cientistas. Para compreender como o El Niño se comportou antes da existência dos instrumentos modernos, pesquisadores recorrem a registros naturais encontrados em cavernas.
As estalagmites são especialmente importantes nesse tipo de investigação. Elas se formam lentamente quando a água atravessa as rochas e deposita minerais, criando novas camadas ao longo do tempo.
Cada camada pode preservar informações sobre as condições ambientais existentes no período em que foi formada. Em algumas cavernas, os pesquisadores também encontram marcas deixadas por grandes enchentes.
Barragens naturais construídas pela deposição de carbonato de cálcio formam pequenas piscinas subterrâneas. Durante períodos de chuva intensa, a água e os sedimentos podem se acumular nesses locais. Quando o nível baixa, parte do material permanece depositada sobre as rochas.
Ao analisar essas camadas, os pesquisadores conseguem identificar períodos de precipitação excepcional ocorridos antes da existência de registros meteorológicos instrumentais.
Uma das estalagmites analisadas em estudos climáticos preserva aproximadamente 2.300 anos de informações. Outros trabalhos realizados a partir de registros semelhantes conseguiram identificar centenas de episódios de eventos extremos em períodos superiores a sete mil anos.
Esses registros são importantes porque permitem comparar os episódios atuais com períodos anteriores e investigar como o clima respondeu a diferentes condições.
O desafio de prever um fenômeno mais intenso
As informações históricas são combinadas com os dados coletados atualmente para melhorar os modelos de previsão. A expectativa apresentada pelos pesquisadores é de que o El Niño alcance seu auge em dezembro, permanecendo forte ou muito forte durante parte do primeiro semestre de 2027.
O fenômeno preocupa porque ocorre em um planeta que já apresenta temperaturas médias elevadas em razão do aquecimento provocado pelas mudanças climáticas.
Para Michael McPhaden, os próximos meses podem registrar temperaturas excepcionais. O pesquisador avalia que 2026 pode terminar como o ano mais quente já observado e, caso isso não aconteça, 2027 poderá assumir essa posição.
No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista (SP), vem ampliando a capacidade computacional utilizada para previsões meteorológicas e climáticas. O objetivo é processar volumes cada vez maiores de dados e aperfeiçoar as simulações.
O pesquisador Gilvan Sampaio, do Inpe, explica que o período de maior intensidade não necessariamente coincide com o fim dos efeitos do fenômeno. “O auge desse fenômeno vai ser nesse período, mas ele deve perdurar com intensidade forte ou muito forte no primeiro semestre de 2027”, afirmou.
Por que os registros antigos são importantes
A reconstrução de El Niños ocorridos há centenas ou milhares de anos também ajuda os cientistas a identificar padrões que não podem ser observados apenas com os registros modernos.
A comparação entre esses dados e as medições atuais permite investigar a frequência dos eventos extremos, sua intensidade e a maneira como o sistema climático responde às alterações no Oceano Pacífico.
Existe, porém, uma dificuldade adicional: o aquecimento global modifica as condições nas quais esses fenômenos acontecem. Por isso, padrões observados no passado não necessariamente se repetirão da mesma maneira no cenário climático atual.
Os modelos precisam ser constantemente atualizados para incorporar essas mudanças. Quanto maior a capacidade de monitoramento, maior também a possibilidade de antecipar alterações e preparar setores vulneráveis, como agricultura, abastecimento de água, infraestrutura e defesa civil.
A previsão de um El Niño muito intenso não significa que todos os impactos estejam determinados. A intensidade e a distribuição dos efeitos dependem da evolução do fenômeno e da interação entre o oceano e a atmosfera.
O que os pesquisadores já conseguem fazer é acompanhar essas mudanças com meses de antecedência. A combinação entre tecnologia e registros naturais de milhares de anos amplia a capacidade de compreender um fenômeno que, embora tenha origem no Pacífico, pode alterar o clima em diversas regiões do planeta.



