Sigilo absoluto imposto pelo ministro isola processo até de outros gabinetes do STF e reacende dúvidas sobre relação com evento financiado por instituição ligada ao empresário investigado
O ministro Dias Toffoli elevou ao nível máximo o sigilo da reclamação apresentada por Daniel Vorcaro — medida considerada rara no Supremo e que impede qualquer forma de acompanhamento público do caso. A decisão, tomada logo após a apreensão de um contrato que menciona o deputado João Carlos Bacelar, restringe o acesso aos autos ao próprio gabinete do ministro.
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A defesa de Vorcaro acionou o Supremo na quinta-feira (27) alegando que a Justiça Federal de Brasília não teria competência para investigar o CEO do Banco Master. O pedido tenta levar o caso ao STF com base na menção ao deputado Bacelar em um contrato imobiliário recolhido pelos investigadores — elemento que, segundo os advogados, justificaria foro privilegiado.

Até então, partes básicas do processo — iniciais do autor, lista de advogados, movimentações — eram consultáveis no sistema do tribunal. Com a mudança determinada por Toffoli, toda e qualquer informação desapareceu do portal público. O processo deixou de ser “segredo de Justiça” — que ainda permite consulta interna — e passou a ser “sigiloso”, o grau mais alto de restrição.
Servidores relatam que esse tipo de bloqueio costuma ser aplicado apenas a delações e ações sensíveis de segurança institucional. Na prática, somente os advogados, o Ministério Público após intimação e um grupo reduzido de assessores designados por Toffoli sabem o que acontece dentro do caso.
O movimento causou estranhamento no próprio Supremo pela combinação de fatores: a menção a um parlamentar, a súbita blindagem total e o contexto político envolvendo o Banco Master.
Sigilo ponto sensível para o ministro
A elevação do sigilo coincide com um ponto sensível para o ministro: sua participação, no ano passado, no luxuoso I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, patrocinado pelo Banco Master — instituição ligada a Vorcaro. O evento ocorreu no hotel The Peninsula, com diárias próximas a R$ 6 mil, e até hoje Toffoli não detalhou quem pagou passagens, hospedagem e custos anexos.
A ausência dessa explicação volta a gerar desconforto entre ministros da Corte e abre brecha para questionamentos de conflito de interesse. A operação que prendeu Vorcaro mira fluxos financeiros complexos e contratos atípicos, alguns apontados como estrutura para blindagem patrimonial. A apreensão do documento que cita João Carlos Bacelar acendeu alerta: investigações envolvendo parlamentares costumam ser rapidamente deslocadas ao STF — mas o sigilo absoluto impede avaliar se esse deslocamento está sendo debatido ou travado.
Outra frente ainda pouco explorada é o papel do Banco Master em financiamentos políticos e jurídicos. A instituição ganhou visibilidade após patrocinar eventos com presença de ministros e parlamentares de diferentes espectros, ao mesmo tempo em que ampliou sua atuação em operações estruturadas e fundos de litígio. A ausência de transparência sobre essas conexões amplia suspeitas nos bastidores.
A reportagem identificou ainda que a blindagem total impede o acompanhamento de possíveis petições de terceiros interessados, como o próprio Bacelar — cuja menção em documento apreendido pode ter repercussões penais e eleitorais. Com sigilo absoluto, não é possível saber se o parlamentar já se manifestou, se pediu vista dos autos ou se há tratativas internas para fatiamento das investigações.




