
O Jornal Local preparou uma entrevista exclusiva com o cientista político e professor da Unicamp, Wagner Romão para desenhar possíveis cenários para as eleições de 2022.
Na última eleição, o Tribunal Superior Eleitoral foi pego de surpresa pelas enxurradas de fake news que nortearam todo o processo eleitoral.
Com a colaboração do Facebook, Instagran, Twitter, Youtube e Google, as postagens serão filtradas e os usuários podem ter suas contas canceladas.
Sem contar que propagar notícias falsas é crime e a pessoa pode ter problemas com a justiça. A Lei também vale para o mundo digital.
Diante das últimas pesquisas que aponta Lula na frente da corrida presidencial, você acredita que esse resultado vai se manter até as eleições?
Penso que a dualidade entre Lula e Bolsonaro vai se manter até o momento das eleições. Lula vem firme, com ótima aceitação e deve se manter pelo menos na casa dos 40% de intenção de votos nos próximos meses.
O que esperar de Bolsonaro depois do ataque ao TSE e as urnas eletrônicas?
Há muito tempo Bolsonaro utiliza a tática de falar uma coisa de manhã e outra de noite. Acumula versões e posicionamentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que vai concorrer às eleições comandadas pelo TSE, vai seguir dando declarações contra Facchin e Alexandre de Moraes, o atual e o próximo presidente do TSE. Mas, não tenho dúvidas de que Bolsonaro questionará o resultado das eleições, se Lula vencer.
Bolsonaro precisa manter o foro privilegiado para não ser preso, você acha que ele pode sair candidato ao Senado?
Não acho. Ele vai ser candidato à reeleição. Tem sustentação política para isso ainda e vai até o fim.
O que a guerra da Rússia e da Ucrânia pode afetar as eleições no Brasil?
Isso depende das possíveis consequências econômicas que a guerra poderá trazer para o mundo e para o Brasil nos próximos meses. Se o Ocidente mantiver sanções à Rússia, certamente haverá algum abalo na economia mundial, com inflação e alta no preço do petróleo, o que pode agravar a popularidade de Bolsonaro. Além disso, ele demonstra novamente uma enorme incapacidade de se posicionar com firmeza no conflito, o que passa uma imagem de fraqueza e confusão.
E sobre a chapa Lula X Alckmin? Vai se concretizar?
Há um desejo de Lula em praticar um governo de “salvação nacional”, de todos contra Bolsonaro. Alckmin na vice ajuda Haddad em São Paulo a se firmar como forte candidato e, de quebra, dá a Lula o trunfo de um diálogo mais direto com setores da direita não-bolsonarista. Ocorre que mesmo com a vitória de Lula, as forças neoliberais e conservadoras do país seguirão com muito poder. A pergunta a ser feita a Alckmin é a seguinte: “o senhor renuncia às práticas neoliberais de seus governos?” Mesmo se a resposta for positiva, tê-lo na vice seguirá sendo uma ameaça constante à permanência de Lula no poder, sobretudo se ele avançar numa agenda mais ousada de ataque às desigualdades, de taxação de grandes fortunas, de confronto com o grande capital.
As redes sociais mostram alguns grupos da esquerda no Brasil divididos em assuntos polêmicos. Você acha que essa tendência vai prejudicar o resultado nas urnas?
Talvez você esteja se referindo ao apoio ou não à Rússia, por exemplo. Isso não terá impactos no apoio da esquerda a Lula. Há mais coesão do que em outras eleições. Bolsonaro provocou isso. Ninguém na esquerda aceita a hipótese de ter mais quatro anos de Bolsonaro no poder.
O TSE está preparado para combater as fake news nestas eleições? Como o eleitor deve se proteger contra a desinformação?
Penso que não. Será pior do que em 2018. É algo muito difícil de controlar e agora a fábrica de fake news opera de dentro do Palácio do Planalto. Mas, por outro lado, o eleitor me parece um pouco mais desconfiado. Acho que é fundamental que as pessoas mais “espertas” façam o trabalho de formiguinha com seus amigos e familiares contra as fake news.
A direita fala em uma 3ª via para as eleições, mas a realidade tem mostrado que não há candidato preparado para ser ou se tornar essa opção. Como você vê essa questão?
Não há espaço para uma terceira via. Lula dominou o campo de esquerda. Ciro não passa confiança, é um sujeito errático. Na direita, Bolsonaro é o dono do orçamento federal e não tem adversários. Moro é um embusteiro e Doria é tão marqueteiro que o povo desconfia, e com razão.
Nas eleições de 2018, 31.371.704 (21,30%) não foram votar; voto branco: 2.486.593 (2,14%) e os que anularam foram 8.608.105 (7,43%), você acha que esse quadro deve permanecer? Qual a importância do voto em uma democracia? O que o voto representa no dia a dia do eleitor? Deixar de votar pode eleger o pior candidato? Votar exige compromisso e responsabilidade?
Penso que a taxa de abstenções deve permanecer semelhante, pois há pelo menos duas questões estruturais importantes aí: as pesquisas mostram que cerca de 60% das pessoas com mais de 70 anos se abstém de votar e além disso, muita gente não transfere seu título o que configura abstensão. Mas, vejo que a rejeição a Bolsonaro pode levar a uma diminuição dos brancos e nulos nas eleições presidenciais. O que me parece fundamental chamar a atenção das pessoas é para a eleição para a Câmara Federal, Senado e Assembleias Legislativas. Eleger bons parlamentares é crucial para melhorar a qualidade da política e para melhorar a vida nos estados e no Brasil.




