Especialistas apontam que acordos regionais, mas não garantem engajamento de lideranças locais na disputa presidencial

<OUÇA A REPORTAGEM>
A estratégia do senador Flávio Bolsonaro (PL) para ampliar sua presença política no Nordeste tem esbarrado em um desafio histórico enfrentado por candidaturas ligadas ao bolsonarismo na região: transformar alianças partidárias em apoio eleitoral efetivo. Embora o PL tenha avançado na construção de acordos com lideranças estaduais e partidos de centro e direita, cientistas políticos avaliam que muitos desses aliados evitam vincular suas campanhas locais diretamente ao projeto presidencial do senador.
O cenário é considerado estratégico para qualquer candidatura ao Palácio do Planalto. Em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu em todos os estados nordestinos e obteve mais de 69% dos votos válidos na região. Pesquisas recentes mantêm essa vantagem. Levantamento da Quaest divulgado em junho aponta Lula com 54% das intenções de voto no Nordeste, contra 25% de Flávio Bolsonaro em um eventual primeiro turno. Em um cenário de segundo turno, a diferença se amplia para 61% contra 27%.
Para analistas, o principal obstáculo não está apenas na preferência histórica do eleitorado nordestino, mas também no cálculo político das lideranças regionais. Muitos governadores, prefeitos e candidatos competitivos buscam preservar relações institucionais com o governo federal e evitar desgastes junto a um eleitorado majoritariamente favorável ao presidente.
Um dos exemplos apontados é o do ex-ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), que articula uma aliança estadual com partidos que incluem o PL. Apesar da aproximação eleitoral local, Ciro tem defendido autonomia dos partidos na disputa presidencial e evitado declarar apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
PALANQUES FRAGILIZADOS E DISPUTA REGIONAL
Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD), apontada como favorita à reeleição em pesquisas recentes, também mantém distância política do bolsonarismo. Embora tenha recebido apoio de setores ligados ao PL em eleições anteriores, a governadora construiu uma relação institucional próxima ao governo federal e frequentemente destaca a parceria administrativa com o presidente Lula.
Na Bahia, outro estado considerado decisivo na região, o cenário também é desafiador para o PL. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) já sinalizou preferência por uma aliança nacional com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), reduzindo as possibilidades de fortalecimento de um palanque robusto para Flávio Bolsonaro no estado.
Situação semelhante é observada no Piauí e no Maranhão, onde lideranças locais ligadas ao centro e à direita demonstram cautela em relação à disputa presidencial. No Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) aparece como favorito para a reeleição, enquanto aliados do PL evitam assumir compromisso antecipado com a campanha nacional do senador.
Além das dificuldades eleitorais, o debate político nacional tem sido impactado por investigações envolvendo personagens próximos ao partido. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, ao comentar questionamentos envolvendo Flávio Bolsonaro, afirmou recentemente que eventuais acusações devem ser apuradas pelas autoridades competentes, sem antecipar julgamentos.
Apesar das dificuldades na corrida presidencial, especialistas avaliam que o PL mantém potencial competitivo nas eleições proporcionais. Em diversos estados nordestinos, o partido possui bases eleitorais consolidadas para a disputa por vagas nas assembleias legislativas e na Câmara dos Deputados, cenário que pode garantir influência política regional mesmo sem reproduzir o mesmo desempenho na eleição para presidente.
No Rio Grande do Norte, dirigentes partidários afirmam que a direita conseguiu construir uma frente mais ampla envolvendo legendas como Podemos, Novo e PSDB, movimento que pode ampliar a presença eleitoral do campo conservador no estado. Ainda assim, analistas observam que o desempenho das alianças estaduais não necessariamente se traduz em transferência automática de votos para a disputa nacional.
Com pouco mais de três meses para o início oficial da campanha eleitoral, a capacidade de transformar alianças institucionais em apoio popular será considerada um dos principais testes para a candidatura de Flávio Bolsonaro na região que historicamente apresenta os maiores índices de apoio ao presidente Lula.




