Presidente da Corte eleitoral nega favorecimento, enquanto ministros e técnicos questionam decisões sobre pesquisa eleitoral, inteligência artificial e condução institucional do tribunal
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O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, passou a enfrentar questionamentos internos sobre sua condução da Corte após decisões e declarações recentes que, segundo ministros e técnicos ouvidos pela imprensa, convergiriam com argumentos apresentados pela campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência. O magistrado nega favorecimento e afirma que pretende manter neutralidade em relação a todos os candidatos.
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Um dos episódios centrais é a decisão de Nunes Marques que suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel registrada no TSE sob o número BR-06939/2026. O pedido foi apresentado pelo PL, que alegou que o questionário poderia induzir respostas desfavoráveis a Flávio. Em decisão liminar, o ministro apontou indícios de possível comprometimento metodológico e determinou a suspensão do levantamento.
A decisão, entretanto, não significa que a Justiça Eleitoral tenha reconhecido que a pesquisa era fraudulenta ou que seus resultados fossem falsos. O próprio TSE informou que a medida era provisória e deveria ser submetida ao plenário. A AtlasIntel afirmou que respeitaria a decisão e sustentou que o levantamento havia seguido critérios técnicos, dizendo confiar na análise colegiada da Corte.
Inteligência artificial coloca TSE diante de novo teste
Outro ponto de tensão envolve um vídeo produzido com inteligência artificial no qual Jair Bolsonaro aparece manifestando apoio à candidatura do filho. O conteúdo foi apresentado durante uma convenção do PL e acabou levado à Justiça Eleitoral.
O TSE se prepara para analisar o caso, que poderá estabelecer parâmetros importantes para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. A resolução eleitoral atualmente restringe o uso de deepfakes, enquanto o debate entre os ministros envolve até que ponto conteúdos sintéticos podem ser utilizados quando não apresentam, em tese, intenção de enganar o eleitor.
Informações divulgadas nesta semana indicam que o julgamento poderá resultar em multa para Flávio Bolsonaro e estabelecer um precedente para situações semelhantes durante a campanha. O caso, portanto, ultrapassa a disputa específica entre o candidato e a Justiça Eleitoral e pode definir os limites da utilização de IA por outras candidaturas.
A questão das pesquisas
A atuação de Nunes Marques em relação às pesquisas também provocou debate dentro do próprio tribunal. Depois da decisão envolvendo a AtlasIntel, o ministro promoveu reunião com representantes de 16 institutos para discutir metodologias, transparência e segurança jurídica.
Oficialmente, o TSE afirmou que o encontro não teve como objetivo interferir na autonomia técnica das empresas, mas fortalecer o diálogo institucional e aumentar a confiança pública nos levantamentos eleitorais.
O episódio, porém, abriu uma discussão maior: até que ponto a Justiça Eleitoral pode intervir na metodologia de pesquisas sem produzir um efeito de desconfiança generalizada sobre os institutos. Esse é um dos pontos utilizados por críticos de Nunes Marques para questionar sua gestão.
Há, ao mesmo tempo, uma justificativa jurídica para a atuação do ministro. Na decisão sobre a AtlasIntel, Nunes Marques afirmou que a autonomia metodológica dos institutos não impediria a Justiça Eleitoral de atuar quando houvesse indícios de desvirtuamento capazes de induzir o eleitorado a erro.
Flávio Bolsonaro e a relação com o ministro
Nunes Marques foi indicado ao Supremo Tribunal Federal em 2020 pelo então presidente Jair Bolsonaro. A proximidade institucional com o grupo político que o indicou passou a ser novamente mencionada diante das decisões envolvendo Flávio Bolsonaro.
O próprio ministro, segundo relatos publicados pela imprensa, rejeita a possibilidade de favorecer o senador e afirma que adotaria os mesmos critérios independentemente do candidato beneficiado ou prejudicado. Essa versão encontra respaldo no fato de que algumas solicitações da campanha de Flávio também foram rejeitadas.
A coordenadora jurídica da campanha, Maria Claudia Bucchianeri, defende que o comportamento recente do TSE tem sido aplicado de maneira uniforme aos candidatos. O debate, portanto, não se resume a saber se uma decisão favoreceu objetivamente Flávio Bolsonaro, mas se os critérios utilizados pela Corte são consistentes e podem ser aplicados igualmente a Lula (PT) e aos demais concorrentes.
O ponto que exige apuração
O principal elemento jornalístico da controvérsia está justamente na diferença entre favorecimento comprovado e percepção de alinhamento político. Até o momento, as informações disponíveis não comprovam que Nunes Marques tenha tomado decisões para beneficiar deliberadamente Flávio Bolsonaro.
Por outro lado, a sequência de decisões envolvendo temas sensíveis para a campanha — especialmente pesquisa eleitoral e inteligência artificial — criou um ambiente de desconfiança entre parte dos integrantes do TSE e do STF, segundo relatos publicados pela imprensa.
Para uma apuração independente, três pontos merecem acompanhamento: os fundamentos do julgamento colegiado sobre a pesquisa AtlasIntel; o resultado do processo envolvendo o deepfake de Jair Bolsonaro; e a eventual adoção pelo TSE de novas regras para pesquisas e conteúdos produzidos por inteligência artificial.
O resultado desses processos poderá indicar se as decisões questionadas representam uma mudança geral na jurisprudência eleitoral ou se produziram efeitos particularmente relevantes para a campanha de Flávio Bolsonaro. Essa distinção será fundamental para avaliar as acusações de alinhamento político sem transformar suspeitas em fatos não comprovados.



