PMs de São Paulo acionam câmeras após disparos e deixam mortes sem registro

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Levantamento de 25 boletins de ocorrência encontrou cinco casos em que policiais disseram ter ligado os equipamentos somente depois dos disparos; falhas de bateria e do sistema também aparecem nos registros

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Policiais militares de São Paulo deixaram de registrar com câmeras corporais o momento inicial de pelo menos cinco ocorrências com mortes no último mês, segundo análise de 25 boletins de ocorrência de mortes decorrentes de intervenção policial na capital. Nos cinco casos, os próprios agentes informaram que os equipamentos foram acionados somente depois dos disparos. A prática contraria as regras estabelecidas pela Polícia Militar (PM) para o uso das Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) e pode dificultar a apuração sobre a legalidade das ações policiais.

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A ausência das imagens não significa, por si só, que tenha ocorrido uma irregularidade na ação policial ou que os relatos dos agentes sejam falsos. O problema é que, sem a gravação do início da ocorrência, investigadores deixam de contar com uma das principais ferramentas disponíveis para confrontar as diferentes versões sobre o que aconteceu. Em maio, dados da Corregedoria da PM mostravam 310 procedimentos disciplinares abertos no segundo semestre de 2025 por uso inadequado das câmeras, uma média de aproximadamente 50 apurações por mês.

Um dos casos ocorreu em 27 de julho, em Parelheiros, na zona sul da capital. Segundo o boletim, Fábio Augusto da Silva Martins, de 49 anos, teria atirado contra policiais e acabou morto durante a reação dos agentes. Os PMs informaram que as câmeras somente foram acionadas depois do confronto, deixando sem registro audiovisual o momento inicial da ocorrência.

Três dias depois, no bairro da Pedreira, também na zona sul, policiais da Rota cumpriam um mandado em apoio à Polícia Federal quando, segundo a versão registrada, Eduardo Silva Cezar, de 39 anos, teria reagido a tiros e sido atingido.

Uma testemunha relatou ter ouvido Cezar gritar “não me mata” antes dos disparos. As imagens foram solicitadas pela Polícia Civil. Inicialmente, um tenente informou que elas seriam encaminhadas mediante ofício. Após insistência do delegado, mostrou pelo celular uma gravação feita depois do confronto, quando o homem já estava baleado e caído.

No próprio boletim, o policial civil responsável pelo registro fez uma observação sobre o procedimento. “Registro que não é a primeira ocorrência realizada por este subscritor em que policiais militares acionam as câmeras corporais após o confronto”, escreveu.

A afirmação é relevante para a investigação porque indica que o problema não estaria restrito a uma ocorrência isolada. Cabe à Corregedoria verificar se houve descumprimento das normas e se o acionamento tardio ocorreu por falha operacional, circunstância excepcional ou decisão deliberada.

Bateria e falhas técnicas

Outras ocorrências apresentaram justificativas diferentes para a ausência de imagens. Na madrugada de 10 de julho, dois homens foram mortos por policiais da Força Tática no Jardim Augusto. Segundo os agentes, as câmeras estavam sem bateria.

Em 16 de julho, um homem morreu durante uma ação do Baep na zona oeste. Segundo o boletim, nenhum dos policiais envolvidos portava câmera operacional em funcionamento. A justificativa apresentada foi uma falha no sistema da Motorola. Na ocasião, a Secretaria da Segurança Pública confirmou a existência de uma instabilidade no sistema, enquanto a fabricante informou que a oscilação havia sido rapidamente restabelecida.

No dia 13 de julho, o pastor José Carlos da Rocha Sobrinho, de 42 anos, foi morto no Jardim São Rafael, na zona leste. Conforme a versão apresentada pelos policiais do Caep Sudeste, um motorista teria sacado uma arma e apontado contra a equipe, provocando a reação dos agentes. Um dos policiais afirmou formalmente que a câmera só foi acionada depois dos disparos.

A morte provocou protestos e questionamentos de familiares, que cobraram a divulgação das imagens.

Mudança no modelo

O sistema de câmeras corporais utilizado atualmente pela PM paulista passou por uma mudança durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O modelo anterior fazia gravação contínua durante o turno policial. No sistema atual, o equipamento pode ser acionado pelo próprio policial, remotamente pelo Centro de Operações da PM ou automaticamente por proximidade, por meio de tecnologia Bluetooth.

O governo paulista afirma que o novo modelo foi desenvolvido com mecanismos destinados a impedir o desligamento proposital dos equipamentos e que o acionamento remoto permite preservar registros mesmo quando o policial não ativa a câmera manualmente. O programa chegou a 15 mil equipamentos em operação.

A mudança, porém, criou uma diferença importante em relação ao sistema anterior: quando o equipamento não é acionado no momento adequado, pode não existir registro da abordagem ou dos primeiros segundos de uma ocorrência.

Investigação fica prejudicada

A falta de imagens é especialmente sensível nos casos que terminam com morte porque a gravação pode ajudar a estabelecer a sequência dos acontecimentos: abordagem, reação do suspeito, eventual disparo, resposta policial e atendimento posterior. Quando o equipamento começa a gravar somente depois do confronto, essa cadeia fica incompleta.

A Defensoria Pública já encaminhou ofícios aos órgãos responsáveis relatando problemas relacionados às câmeras, incluindo acionamento tardio, ausência de gravações e dificuldades para obter registros. O Ministério Público também informou que recebe mensalmente informações sobre processos administrativos relacionados ao uso incorreto dos equipamentos.

A própria estrutura do programa prevê mecanismos de fiscalização. O portal oficial do governo informa que os dados armazenados pelas câmeras são criptografados e possuem mecanismos destinados a impedir acesso ou manipulação não autorizados.

O que diz o governo

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirma que a análise isolada de um boletim de ocorrência não permite concluir se houve falha no acionamento das câmeras, porque é necessário cruzar as informações do registro com os dados operacionais e os protocolos utilizados em cada atendimento. A pasta também afirma que eventuais descumprimentos das regras são encaminhados para apuração pela Corregedoria da Polícia Militar. A Motorola, responsável pelo sistema utilizado atualmente, afirma que os equipamentos atendem aos requisitos estabelecidos no edital e que a empresa cumpre integralmente as obrigações previstas no contrato.

Fiscalização permanece em debate

Os números oficiais mostram que a letalidade policial apresentou redução no primeiro semestre de 2026. Policiais militares em serviço mataram 277 pessoas entre janeiro e junho, contra 301 no mesmo período anterior. Considerando todas as forças de segurança e diferentes situações envolvendo policiais, foram 356 mortes no período.

A redução, entretanto, não elimina a necessidade de fiscalização sobre cada ocorrência. O próprio histórico do programa de câmeras mostra que a tecnologia passou a ser considerada uma ferramenta importante para controle da atividade policial.

O coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha, afirmou que os episódios relatados deveriam ser analisados pela Corregedoria e criticou a mudança no modelo de gravação.

“São tantos casos desses [de problemas], a maioria inclusive do mês passado, que eu não sei se a Corregedoria tem perna para investigar tudo isso. O projeto de câmeras está sendo desidratado, sim”, declarou.

Segundo Rocha, a política de câmeras contribuiu para a redução da letalidade policial desde sua implementação. A avaliação, contudo, é contestada pelo debate sobre o modelo atual, que combina acionamento manual, remoto e automático.

O ponto que a investigação precisa esclarecer

O principal questionamento não é apenas quantas câmeras deixaram de registrar uma ocorrência, mas por que os equipamentos não estavam gravando no momento em que começaram as abordagens e os confrontos.

Em casos de morte provocada por intervenção policial, a ausência do registro inicial pode impedir a confirmação independente da versão apresentada pelos agentes. Por isso, cada ocorrência precisa ser analisada individualmente, com cruzamento entre boletim de ocorrência, registros do sistema das câmeras, comunicação via rádio, localização das viaturas, perícia, depoimentos de testemunhas e demais provas.

A existência de cinco casos com acionamento posterior aos disparos entre os 25 boletins analisados não permite concluir que exista uma orientação institucional para impedir gravações. Também não permite afirmar que as mortes foram ilegais. Mas o padrão é suficientemente relevante para justificar apuração administrativa e, quando houver indícios de crime, investigação pelas autoridades competentes.

Em São Paulo, onde o governo ampliou o sistema para 15 mil equipamentos, o desafio agora é garantir que a tecnologia destinada a aumentar a transparência não se transforme em um registro parcial das ocorrências justamente nos momentos em que a fiscalização é mais necessária.

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