Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões; crise expõe pressão sobre caixa e credores

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Grupo Gennius, controlador do Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, tenta reorganizar passivo após fracasso de negociação com credores; recuperação protege operação, mas não elimina dívidas

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O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial na segunda-feira (24), em São Paulo, com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. O pedido foi aceito pela Justiça no dia seguinte, 25 de agosto, e envolve 178 pessoas jurídicas ligadas ao conglomerado. A medida ocorre depois de uma tentativa anterior de negociar o passivo com credores sem recorrer formalmente à recuperação judicial.

A empresa atribui a deterioração financeira principalmente aos efeitos da pandemia de Covid-19, à mudança no comportamento dos consumidores, ao avanço das plataformas de delivery e ao aumento dos juros. Segundo o grupo, a redução do fluxo de consumidores em shoppings e centros urbanos atingiu as lojas físicas justamente quando o setor de alimentação passou por uma transformação acelerada no modelo de consumo.

Mas os documentos que antecederam a recuperação judicial mostram que o problema não se limitava à queda de movimento. Em julho, o Gennius havia recorrido à Justiça para obter proteção contra cobranças enquanto tentava renegociar um passivo de aproximadamente R$ 312,4 milhões. Na ocasião, a empresa conseguiu uma tutela cautelar que suspendeu determinadas cobranças e execuções por 60 dias, mas não obteve autorização para liberar recebíveis que estavam vinculados como garantia a instituições financeiras.

A sequência dos acontecimentos é relevante para entender a crise. Primeiro, o grupo tentou negociar diretamente com os credores; depois, buscou proteção judicial temporária; e, diante da dificuldade de solucionar o passivo, avançou para a recuperação judicial. A diferença entre os aproximadamente R$ 312 milhões mencionados na fase cautelar e os R$ 265,2 milhões declarados no processo de recuperação também é um ponto que deverá ser acompanhado na análise dos documentos apresentados à Justiça.

COMO A DÍVIDA ESTÁ DISTRIBUÍDA

Do total declarado na recuperação judicial, aproximadamente R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas. Outros R$ 241,7 milhões estão classificados como créditos quirografários, categoria que reúne obrigações sem garantia real. A recuperação reúne 119 lojas próprias do Habib’s, 26 unidades do Ragazzo, seis churrascarias Tendall, além de franqueadoras, holdings e sociedades operacionais.

A dimensão do processo mostra que não se trata de uma dificuldade isolada de uma determinada loja ou marca. O pedido alcança uma estrutura empresarial composta por dezenas de sociedades, o que permite ao grupo buscar uma negociação coordenada do passivo enquanto mantém as atividades comerciais.

A Justiça nomeou a KPMG como administradora judicial. A consultoria terá 15 dias para apresentar informações sobre a situação das empresas. Os credores também poderão questionar os valores apresentados, pedir habilitação de créditos e apresentar objeções durante o processo.

A RECUPERAÇÃO NÃO ELIMINA A DÍVIDA

A recuperação judicial não representa perdão da dívida. O principal benefício imediato é criar uma proteção jurídica para que a empresa consiga continuar funcionando enquanto negocia coletivamente com os credores.

Com a suspensão das ações e execuções abrangidas pela decisão judicial, o grupo ganha tempo para organizar as contas e elaborar um plano de recuperação. Sem esse mecanismo, uma série de credores poderia tentar receber individualmente, pressionando o caixa e aumentando o risco de interrupção das operações.

É justamente essa proteção que pode ser decisiva para uma rede de alimentação. Uma paralisação generalizada reduziria o faturamento, comprometeria contratos, poderia provocar perda de fornecedores e afetaria o valor econômico das próprias marcas. Manter as lojas abertas preserva a possibilidade de geração de caixa durante a negociação.

A Justiça, entretanto, impôs limites. O pedido para liberar recebíveis bancários utilizados como garantia foi negado. Na prática, isso significa que o grupo não recebeu autorização para transformar imediatamente esses recursos vinculados em caixa disponível para financiar a operação.

O QUE OS CREDORES PODEM PERDER

A recuperação judicial também transfere parte do risco para os credores. Se o plano apresentado pela empresa propuser descontos, prazos maiores ou outras condições para pagamento, os credores poderão ter de aceitar receber em condições diferentes das originalmente contratadas, conforme as regras do processo e as deliberações previstas na legislação.

Por isso, a recuperação judicial funciona como uma tentativa de preservar dois interesses simultaneamente: evitar a quebra imediata da empresa e criar condições para que os credores tenham uma possibilidade de receber seus créditos no futuro.

O grupo terá 60 dias para apresentar o plano de recuperação. Se não cumprir o prazo, o processo poderá sofrer consequências previstas na legislação, inclusive a conversão em falência.

A ESTRATÉGIA DE RETOMADA

O Gennius afirma que pretende promover uma reorganização societária, ampliar a atuação no delivery e abrir novas unidades em mercados considerados promissores. A estratégia indica que a empresa não pretende simplesmente reduzir operações para pagar dívidas, mas tentar modificar a estrutura do negócio para recuperar geração de caixa.

O problema é que abrir novas unidades exige investimento justamente em um momento em que o grupo enfrenta forte pressão financeira. Por isso, o plano que será apresentado aos credores será fundamental para verificar de onde virão os recursos necessários para financiar a expansão, quanto será destinado ao pagamento das dívidas e quais empresas do conglomerado serão responsáveis pela geração de caixa.

A questão central, portanto, não será apenas quanto o Gennius deve, mas quanto consegue gerar de caixa, quais ativos possui, quais recebíveis estão comprometidos com bancos, quais empresas são rentáveis e quais operações estão consumindo recursos.

O QUE A KPMG TERÁ DE REVELAR

A atuação da administradora judicial deverá permitir uma visão mais precisa da situação financeira do conglomerado. Entre os pontos que merecem atenção estão a relação completa de credores, a composição das dívidas, os contratos de financiamento, as garantias oferecidas aos bancos, o patrimônio das empresas envolvidas e a capacidade operacional de cada uma delas.

Também será necessário acompanhar a relação entre as diferentes empresas que integram o grupo. Como a recuperação envolve dezenas de pessoas jurídicas, a análise da movimentação financeira entre as sociedades poderá ser importante para compreender como o caixa circula dentro do conglomerado.

Outro ponto de interesse será verificar quais empresas concentram ativos e quais concentram dívidas. Essa estrutura pode ajudar a explicar por que a recuperação judicial foi apresentada envolvendo tantas sociedades ao mesmo tempo.

UMA MARCA FORTE, MAS UM MODELO SOB PRESSÃO

Fundado em 1987, o Habib’s construiu sua expansão apostando em preços competitivos, grande volume de vendas e capilaridade. O grupo posteriormente ampliou sua atuação com marcas como Ragazzo e Tendall Grill.

O modelo, entretanto, passou a enfrentar uma transformação importante no mercado de alimentação. O consumidor passou a utilizar mais o delivery, enquanto os custos de ocupação, mão de obra, insumos e crédito continuaram pressionando os restaurantes físicos.

A própria empresa sustenta que a mudança de comportamento acelerada pela pandemia e a elevação dos juros contribuíram para o agravamento da situação.

A recuperação judicial será, portanto, um teste não apenas para a capacidade financeira do Gennius, mas para a capacidade de adaptação de um modelo de negócio que cresceu durante décadas baseado na presença física e no alto volume de consumidores.

O processo entra agora em uma fase decisiva. A KPMG deverá analisar a documentação apresentada pelo grupo, os credores poderão contestar a relação de dívidas e o Gennius terá de apresentar seu plano de recuperação dentro do prazo judicial.

A empresa afirma que as operações continuam normalmente. “As operações do Grupo seguem funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes, a rotina e a qualidade de suas unidades”, informou o Gennius em nota.

O discurso de normalidade, porém, terá de ser confrontado com os números do processo. A questão que permanece é se a recuperação judicial será suficiente para transformar uma empresa fortemente pressionada pelo endividamento em um grupo capaz de gerar caixa, pagar seus credores e financiar uma nova etapa de crescimento.

No curto prazo, a recuperação oferece ao Gennius aquilo que a negociação extrajudicial não conseguiu garantir: tempo, proteção judicial e a possibilidade de reorganizar o passivo sem interromper imediatamente as operações. O benefício, entretanto, não é gratuito. O futuro das marcas dependerá do plano apresentado aos credores e da capacidade de provar que o negócio continua economicamente viável.

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