Cerimedo, ligado a Milei e Flávio Bolsonaro e operador de redes de robôs, agora é alvo de investigação por possível ligação com o narcotráfico

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Polícia apura possível proteção a voos ligados ao tráfico de substâncias controladas; polícia também encontrou dinheiro e uma estrutura apontada como possível “fazenda de bots”

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O caso envolvendo o consultor político argentino Fernando Cerimedo ganhou uma nova dimensão na Bolívia. Depois de ser preso sob suspeita de envolvimento na tentativa de assassinato de sua ex-companheira, a advogada e analista política Nadia Beller, Cerimedo passou a ser alvo de uma nova investigação da Fiscalía de Beni por supostos vínculos com voos irregulares relacionados ao tráfico de substâncias controladas.

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A nova apuração foi confirmada pelo fiscal departamental de Beni, Alexander Mendoza. Segundo ele, a investigação busca esclarecer se havia uma estrutura de proteção ou cobertura para aeronaves que poderiam estar relacionadas ao tráfico de drogas na região de Santa Ana de Yacuma. Caso novos indícios sejam encontrados, outros particulares e funcionários públicos poderão ser incluídos no processo.

De operador político a alvo de múltiplas investigações

A prisão de Cerimedo, em 18 de agosto, aconteceu depois que Nadia Beller foi baleada em La Paz. A polícia boliviana passou a investigar a possibilidade de que o consultor tenha participado intelectualmente da tentativa de assassinato. Cerimedo nega as acusações. Sua defesa sustenta que o atentado teria sido simulado por Beller e contesta a versão apresentada pela investigação.

O caso, entretanto, rapidamente deixou de ser apenas uma investigação sobre o ataque contra a ex-companheira.

A Fiscalía boliviana passou a investigar também o patrimônio do consultor. Mais de US$ 40 mil foram encontrados em propriedades relacionadas a Cerimedo, o que levou à abertura de uma investigação por possível enriquecimento ilícito.

Agora, uma terceira frente envolve suspeitas relacionadas ao narcotráfico.

Segundo a Fiscalía de Beni, a investigação busca esclarecer se Cerimedo teria oferecido algum tipo de cobertura a aeronaves que realizavam voos irregulares e que poderiam estar relacionadas ao transporte de substâncias controladas. O Ministério Público também não descarta a participação de outras pessoas na estrutura.

A estrutura digital que colocou o Brasil no centro do caso

Além das investigações criminais, o nome de Cerimedo voltou a aparecer no Brasil por causa de sua atuação no ambiente digital e de suas relações com setores da direita latino-americana.

O argentino ficou conhecido por estratégias de comunicação política, uso de redes sociais e disseminação de conteúdos políticos. Ele manteve relações com grupos ligados ao presidente argentino Javier Milei e à família Bolsonaro.

A Folha informou que a ex-companheira de Cerimedo afirmou que ele operava estruturas de robôs na Bolívia e na Argentina e que teria declarado que iria trabalhar pela candidatura de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026. Cerimedo também participou de atividades políticas relacionadas à família Bolsonaro.

O consultor já havia se tornado conhecido no Brasil durante as eleições de 2022, quando ajudou a divulgar alegações falsas sobre o sistema eletrônico de votação brasileiro. Naquele ano, Cerimedo transmitiu pelo portal argentino La Derecha Diario uma live intitulada “Brazil Was Stolen”, na qual apresentou alegações sem comprovação sobre supostas irregularidades nas urnas eletrônicas. As afirmações foram posteriormente contestadas pelas autoridades eleitorais brasileiras.

A atuação de Cerimedo no episódio fez com que ele entrasse no radar das investigações brasileiras sobre a disseminação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.

A ligação com Bolsonaro e Milei

A trajetória de Cerimedo ajuda a explicar por que sua prisão na Bolívia provocou repercussão no Brasil e na Argentina. O consultor atuou no ambiente político da direita latino-americana e teve relações com nomes próximos a Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Javier Milei.

Em julho de 2026, Cerimedo participou inclusive de uma transmissão com Eduardo Bolsonaro, na qual voltou a questionar o sistema eleitoral brasileiro e apresentou argumentos semelhantes aos utilizados durante a campanha de 2022.

A própria Folha informou que Cerimedo teria dito à ex-companheira que pretendia “lutar” pela candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026. Esse fato coloca uma questão importante para as autoridades brasileiras: qual era exatamente o papel de Cerimedo na estratégia digital que pretendia influenciar o debate eleitoral brasileiro? E, principalmente, quem financiava essas estruturas?

A “fazenda de bots” precisa ser investigada com cuidado

Durante as buscas realizadas pela polícia boliviana em endereços relacionados a Cerimedo, surgiram informações sobre uma possível estrutura de automação e manipulação de redes sociais.

A existência de uma estrutura descrita pelas autoridades como uma possível “minifazenda de robôs” foi noticiada por veículos de imprensa. A Folha também relatou que policiais encontraram evidências relacionadas a uma estrutura de disseminação digital no celular do consultor.

O que a investigação brasileira precisa esclarecer

A conexão com o Brasil é especialmente relevante porque Cerimedo não apareceu apenas como um comentarista político estrangeiro. Ele participou da construção e disseminação de narrativas destinadas a colocar em dúvida a confiabilidade das eleições brasileiras de 2022. Agora, diante das novas informações surgidas na Bolívia, surge uma série de perguntas que podem ser encaminhadas às autoridades brasileiras:

  • Quem financiava as estruturas digitais utilizadas por Cerimedo?
  • Quais empresas ou pessoas pagavam pelos serviços?
  • Havia contratos com políticos brasileiros?
  • Existia uma estrutura de robôs destinada especificamente a influenciar eleitores brasileiros?
  • Quais contas e perfis eram administrados ou impulsionados por essa estrutura?
  • Houve atuação durante as eleições de 2022?
  • A estrutura voltou a operar em 2026?
  • Existem brasileiros envolvidos na operação?
  • Houve transferência de dinheiro entre Brasil, Argentina e Bolívia?

Essas perguntas são relevantes porque a eventual utilização coordenada de estruturas automatizadas para manipular o alcance de conteúdos políticos pode ultrapassar a esfera de uma simples estratégia de marketing eleitoral.

O pedido de cooperação com a Bolívia

A repercussão do caso chegou ao Congresso brasileiro. O deputado federal Rui Falcão pediu ao Supremo Tribunal Federal cooperação jurídica com a Bolívia para preservar provas apreendidas em endereços ligados a Cerimedo e investigar possíveis conexões com candidaturas brasileiras. A iniciativa aumenta a possibilidade de que informações recolhidas pela polícia boliviana possam ser compartilhadas com autoridades brasileiras. Isso é particularmente importante porque celulares, computadores, documentos, registros financeiros e equipamentos encontrados durante as buscas podem ajudar a identificar quem contratou, financiou ou se beneficiou das estruturas operadas pelo consultor.

E agora aparece a investigação sobre narcotráfico

A nova investigação da Fiscalía de Beni acrescenta uma dimensão ainda mais grave ao caso. O Ministério Público boliviano está tentando descobrir se Cerimedo tinha algum tipo de participação ou influência na autorização ou proteção de voos irregulares em Santa Ana de Yacuma. A região já é conhecida pelas autoridades bolivianas por ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas.

Segundo as informações divulgadas pela Fiscalía, a investigação envolve a possibilidade de que determinadas aeronaves recebessem cobertura para operar irregularmente e que essas operações estivessem relacionadas ao transporte de substâncias controladas. A apuração também pode alcançar funcionários públicos e outras pessoas caso sejam encontrados elementos que indiquem participação no esquema.

Um caso que atravessa três países

O que torna o caso Cerimedo particularmente relevante é a dimensão internacional. As investigações e denúncias já alcançam Bolívia, Argentina e Brasil.

Na Bolívia, ele é investigado por suspeitas relacionadas ao ataque contra Nadia Beller, por questões patrimoniais e agora por possíveis vínculos com voos associados ao tráfico de substâncias controladas. Na Argentina, sua atuação política e digital o colocou no centro das disputas da direita e de estruturas relacionadas ao governo de Javier Milei. No Brasil, seu nome está ligado à disseminação de alegações falsas contra as urnas em 2022 e às relações políticas mantidas com integrantes da família Bolsonaro.

A eleição brasileira de 2026 entra no radar

O Brasil está entrando em um novo ciclo eleitoral e Cerimedo teria demonstrado interesse em atuar politicamente no país em 2026. A revelação de que ele teria dito que trabalharia pela candidatura de Flávio Bolsonaro, somada às informações sobre estruturas digitais atribuídas a sua atuação, torna necessário investigar se houve ou ainda existe uma operação organizada para interferir no debate eleitoral brasileiro.

O caso está longe de terminar

A prisão de Fernando Cerimedo abriu uma investigação que inicialmente parecia restrita a uma tentativa de assassinato contra sua ex-companheira. Em poucos dias, porém, surgiram outras frentes: patrimônio, possível estrutura de automação digital, relações políticas internacionais e, agora, uma investigação por possível proteção a voos ligados ao narcotráfico. No Brasil, a principal questão é saber se parte das estruturas descobertas na Bolívia tinha alguma conexão com operações políticas brasileiras.

Se os equipamentos, documentos, celulares e registros financeiros apreendidos comprovarem uma ligação entre a estrutura boliviana e operações eleitorais no Brasil, o caso poderá ganhar uma dimensão inédita.

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