Deputado quer cooperação jurídica com a Bolívia para preservar equipamentos e dados apreendidos em endereços ligados ao argentino; investigação deverá apurar quem operava, financiava e poderia se beneficiar da estrutura digital
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O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a adoção urgente de medidas de cooperação jurídica internacional com a Bolívia para preservar e obter provas relacionadas a uma suposta “fazenda de bots” encontrada em endereços ligados ao argentino Fernando Cerimedo.
O parlamentar também quer que as autoridades brasileiras investiguem se a estrutura identificada pela polícia boliviana possui alguma relação com as eleições brasileiras de 2026.
A iniciativa coloca novamente o nome de Cerimedo no centro das investigações brasileiras sobre desinformação, manipulação digital e possíveis tentativas de interferência no processo eleitoral.
O pedido busca evitar que equipamentos, arquivos digitais, registros financeiros, celulares, computadores e outros elementos apreendidos na Bolívia sejam perdidos, alterados ou deixem de ser disponibilizados às autoridades brasileiras.
Cerimedo é um consultor político argentino que ganhou projeção por sua atuação nas redes sociais e por sua proximidade com setores da direita latino-americana. Seu nome ficou conhecido no Brasil durante as eleições de 2022. Naquele período, Cerimedo utilizou seus canais de comunicação para questionar o resultado eleitoral brasileiro e disseminar conteúdos que colocavam em dúvida a segurança das urnas. A atuação acabou entrando no radar da Polícia Federal. O argentino foi posteriormente indiciado pela PF no contexto das investigações relacionadas à disseminação de informações falsas sobre o sistema eleitoral.
O que Rui Falcão quer descobrir
Na petição encaminhada ao STF, Rui Falcão pede que o Brasil obtenha acesso às provas encontradas pelas autoridades bolivianas. O objetivo é identificar a dimensão da estrutura digital e, principalmente, descobrir quem estava por trás dela.
Entre as informações que podem ser relevantes para a investigação estão:
- quem operava os equipamentos;
- quais contas de redes sociais eram administradas;
- quais perfis eram impulsionados artificialmente;
- quem financiava a estrutura;
- quais empresas ou pessoas contratavam os serviços;
- quais países eram alvo das operações;
- quais políticos ou grupos poderiam ter sido beneficiados;
- quais pagamentos foram realizados;
- e se houve atuação específica relacionada às eleições brasileiras de 2026.
A obtenção desses dados poderá permitir que investigadores reconstruam a cadeia de comando da estrutura.
A preocupação agora é com 2026
O pedido de Rui Falcão ocorre justamente durante o novo ciclo eleitoral brasileiro. A preocupação é saber se uma estrutura utilizada anteriormente para amplificar conteúdos políticos poderia estar sendo preparada para atuar novamente no Brasil.
A eventual utilização de robôs para aumentar artificialmente o alcance de determinadas mensagens não significa, por si só, crime eleitoral. A investigação precisa determinar como os equipamentos eram utilizados, quem os controlava, quem pagava e qual era a finalidade da operação. É justamente essa cadeia que o pedido de cooperação internacional pretende ajudar a esclarecer.
Provas podem estar na Bolívia
Um dos pontos mais importantes da solicitação é a necessidade de preservar as provas antes que elas desapareçam. Equipamentos eletrônicos podem conter informações capazes de revelar toda a estrutura de uma operação digital: conversas, contratos, pagamentos, senhas, listas de clientes, contas utilizadas, endereços de IP, arquivos e registros de acesso.
Caso existam dados relacionados ao Brasil, eles poderão ajudar a estabelecer quando a operação começou, quem participava dela e quais campanhas ou grupos políticos poderiam estar relacionados à estrutura. A cooperação internacional também poderá permitir o cruzamento desses dados com informações existentes no Brasil.
Cerimedo e o ambiente político de Milei e Bolsonaro
A importância do caso aumenta devido às relações políticas mantidas por Cerimedo na América Latina. O argentino esteve próximo do ambiente político de Javier Milei, na Argentina, e também manteve relações com integrantes da família Bolsonaro no Brasil. Cerimedo participou de transmissões e atividades relacionadas ao debate político brasileiro e voltou a abordar questões eleitorais em 2026.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, sua ex-companheira também relatou que ele teria manifestado intenção de atuar politicamente em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro. Essas relações, entretanto, não significam que Milei, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro político citado tenha participado da estrutura de robôs. Essa eventual conexão é justamente uma das questões que precisam ser comprovadas por documentos, registros financeiros e dados eletrônicos.
O que aconteceu em 2022
Durante a eleição presidencial de 2022, Cerimedo ganhou notoriedade no Brasil depois de divulgar alegações sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas. O material produzido por ele circulou amplamente nas redes sociais e ajudou a alimentar questionamentos sobre o resultado da eleição. As alegações não apresentaram provas capazes de demonstrar fraude no sistema eleitoral brasileiro.
A atuação de Cerimedo passou posteriormente a ser considerada nas investigações conduzidas pelas autoridades brasileiras. Agora, com a descoberta de uma estrutura de automação digital na Bolívia, surge uma nova oportunidade para esclarecer como aquela operação funcionava e se havia uma conexão organizada com o Brasil.
STF poderá ser fundamental para preservar as provas
O pedido de Rui Falcão coloca o STF diante de uma questão de cooperação internacional. Caso o pedido avance, autoridades brasileiras poderão solicitar formalmente às autoridades bolivianas a preservação e o compartilhamento de elementos obtidos durante as investigações. A medida é relevante porque provas digitais podem ser extremamente voláteis.
Um celular, computador ou servidor pode conter informações sobre centenas ou milhares de contas, mas também pode revelar conexões financeiras e comunicação entre operadores. O cruzamento dessas informações pode ser mais importante do que a simples existência dos equipamentos.
Quem era o alvo dos robôs?
Outra questão fundamental será descobrir quais redes sociais eram movimentadas pelos equipamentos. Uma fazenda de bots pode ser utilizada para diferentes finalidades: aumentar artificialmente o alcance de uma publicação, criar tendências artificiais, amplificar determinadas narrativas, atacar adversários políticos ou disseminar conteúdo coordenadamente. É necessário estabelecer o que esses equipamentos faziam. A análise forense dos dispositivos poderá mostrar quais contas eram acessadas, quais comandos eram utilizados e quais conteúdos eram impulsionados.
E a investigação eleitoral?
Caso sejam encontradas evidências de atuação direcionada às eleições brasileiras de 2026, o material poderá interessar não apenas às autoridades criminais, mas também à Justiça Eleitoral. A identificação de uma operação estrangeira voltada à manipulação artificial do debate eleitoral poderia gerar investigações específicas sobre eventual violação da legislação eleitoral. Por isso, o pedido de Rui Falcão prevê que as informações eventualmente relacionadas ao processo eleitoral brasileiro sejam encaminhadas às instituições competentes.
O caso ganhou uma dimensão internacional
O caso Cerimedo já ultrapassou as fronteiras da política argentina. Na Bolívia, o argentino está envolvido em investigações criminais que incluem a suspeita de participação em um ataque contra sua ex-companheira e uma apuração patrimonial. Agora, as autoridades bolivianas também abriram uma nova frente para investigar possíveis vínculos com operações relacionadas ao narcotráfico. No Brasil, seu nome aparece relacionado às investigações sobre a disseminação de informações falsas contra o sistema eleitoral.
E, com o pedido de Rui Falcão, a estrutura encontrada na Bolívia passa a ser examinada sob a perspectiva de uma possível atuação nas eleições brasileiras de 2026.



