Durigan atribui alta da dívida aos juros, mas dados fiscais mostram que a conta tem mais de um componente

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Ministro da Fazenda afirma que o endividamento cresce principalmente pelo custo dos juros e pela rolagem de títulos, enquanto dados oficiais mostram que o governo também registra déficit primário

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em entrevista à GloboNews na quinta-feira (6) que o aumento da dívida pública brasileira está sendo provocado principalmente pelo elevado custo dos juros e pela necessidade de refinanciar títulos que vencem, e não pelo aumento dos gastos do governo. A declaração ocorre em um momento em que a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,268 trilhões em junho, enquanto o Banco Central registrou juros nominais de R$ 110,7 bilhões para o setor público consolidado apenas naquele mês.

A explicação de Durigan parte de um mecanismo real das contas públicas: quando títulos da dívida vencem, o Tesouro precisa resgatá-los e pode emitir novos títulos para financiar esses pagamentos. Quando os juros estão elevados, o custo dessa rolagem aumenta. Em junho, o Tesouro informou que a Dívida Pública Federal cresceu R$ 236 bilhões em relação a maio. Desse aumento, R$ 142,25 bilhões vieram de emissão líquida e R$ 93,48 bilhões da apropriação de juros.

O problema é que atribuir o crescimento da dívida exclusivamente aos juros simplifica uma equação que possui outros componentes. O próprio Ministério da Fazenda registrou déficit primário de R$ 48,2 bilhões no Governo Central em junho. No primeiro semestre, o déficit primário acumulado chegou a R$ 92,2 bilhões. O resultado significa que, antes mesmo de considerar os juros da dívida, as contas do Governo Central apresentaram resultado negativo no período.

Isso não invalida a afirmação do ministro de que os juros têm peso decisivo. Pelo contrário: os números do Banco Central mostram que os juros nominais do setor público consolidado chegaram a R$ 1,1605 trilhão nos 12 meses encerrados em junho, equivalentes a 8,80% do PIB. Um ano antes, eram R$ 912,3 bilhões, ou 7,41% do PIB.

A diferença está na interpretação. O resultado primário mede a diferença entre receitas e despesas antes dos juros. Já a dívida pública é afetada pelo resultado primário, pelos juros nominais e por outros fatores, como variações cambiais e ajustes de estoque. Portanto, juros elevados podem acelerar fortemente o endividamento, mas o resultado fiscal também influencia a trajetória da dívida.

Durigan reconheceu que existe relação entre a situação fiscal e os juros, mas defendeu que outros fatores também determinam o nível das taxas brasileiras. Segundo ele, o governo não estaria aumentando a dívida por gastar mais do que arrecada. “O que acontece é que estamos pagando dívidas antigas com títulos novos. É, portanto, na gestão da dívida que estamos aumentando a dívida. É na rolagem da dívida, e não nos gastos”, afirmou.

A declaração ocorre um dia depois de o Banco Central reduzir a Selic de 14,25% para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo da taxa. Mesmo com a redução, o custo do dinheiro permanece elevado e continua tendo impacto sobre o custo de financiamento do governo, das empresas e das famílias.

Há ainda um dado que ajuda a colocar o debate em perspectiva. Em junho, a receita líquida do Governo Central cresceu 10,3% em termos reais em relação ao mesmo mês de 2025, mas as despesas totais também avançaram 9%. O resultado foi um déficit primário de R$ 48,2 bilhões. No acumulado do semestre, o déficit chegou a R$ 92,2 bilhões.

A própria Fazenda, portanto, reconhece que existe um problema fiscal que precisa ser enfrentado. O Prisma Fiscal de agosto, elaborado com projeções de mercado, estima déficit primário de R$ 59,145 bilhões para o Governo Central em 2026. Para a dívida bruta do governo geral, a mediana das projeções anteriores apontava 83% do PIB em 2026.

O desafio político e econômico está justamente na combinação desses fatores. Se o governo melhora o resultado primário, reduz a necessidade de financiamento novo. Se, ao mesmo tempo, os juros caem, o custo da dívida diminui. Mas, se a dívida continua crescendo e o mercado exige taxas elevadas para financiar títulos públicos de prazo mais longo, o custo da rolagem permanece pressionado.

Durigan afirmou que pretende continuar atuando para melhorar o resultado fiscal e reduzir o peso dos juros sobre o endividamento. “Claro que vamos continuar atuando para melhorar o resultado fiscal do país”, disse.

Os dados oficiais indicam que as duas questões estão presentes. O custo dos juros é gigantesco e teve participação direta no aumento da dívida. Mas o Governo Central também registra déficit primário. Assim, a discussão não pode ser reduzida a “juros contra gastos”: a trajetória do endividamento depende da combinação entre resultado fiscal, custo dos juros, crescimento econômico e condições de financiamento.

A questão que permanece para o governo é como reduzir simultaneamente o déficit primário e o custo da dívida sem provocar uma desaceleração econômica significativa. Para o mercado, o ponto central será a capacidade de o governo produzir resultados fiscais suficientemente consistentes para estabilizar a relação entre dívida e PIB. Para a população, a consequência aparece de outra forma: juros elevados encarecem o financiamento público e privado, pressionam o crédito e reduzem o espaço para políticas econômicas.

Durigan afirmou que o Brasil não enfrenta risco de deixar de pagar sua dívida e reconheceu, ao mesmo tempo, que o tamanho do endividamento é uma preocupação. Segundo ele, o objetivo é combinar esforço fiscal e redução dos juros para diminuir ou estabilizar a dívida no médio e longo prazo.

A conta, portanto, não é apenas de quem está gastando mais. É também de quanto custa financiar o que o Estado já deve. E os números do próprio governo mostram que, enquanto os juros representam uma parcela enorme da pressão sobre a dívida, o resultado primário continua sendo uma variável que não pode ser retirada da equação.

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