nquérito autorizado pelo ministro André Mendonça apura possível participação do candidato do PL à Presidência na captação de recursos para filme sobre Jair Bolsonaro; investigação se conecta ao caso Banco Master e a novas diligências da PF sobre emendas parlamentares
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou em julho a abertura de um inquérito para investigar a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no financiamento do filme “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A apuração, solicitada pela Polícia Federal e com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis delitos relacionados à origem e à circulação dos recursos destinados à produção. A existência do procedimento veio a público após o STF retirar o sigilo de parte da investigação do Banco Master. O inquérito específico envolvendo Flávio Bolsonaro, entretanto, permanece sob sigilo em razão de diligências ainda em andamento.
A investigação sobre o filme é um dos desdobramentos do caso Banco Master e envolve a apuração de possíveis relações financeiras entre o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, estruturas financeiras no exterior e pessoas ligadas à produção de “Dark Horse”. O foco da Polícia Federal é determinar a origem dos recursos, a forma como foram transferidos e o destino final dos valores. Até o momento, a existência do inquérito demonstra que os fatos estão sendo investigados, mas não significa que Flávio Bolsonaro tenha sido denunciado ou condenado pelos crimes apurados.
Segundo o despacho de Mendonça reproduzido no material da investigação, a Polícia Federal pediu a instauração de um procedimento sigiloso vinculado ao inquérito principal do Banco Master para apurar “a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos”. O documento aponta Flávio Nantes Bolsonaro como pessoa investigada no contexto do financiamento da obra cinematográfica “Dark Horse”. Mendonça autorizou a abertura do procedimento com base no artigo 21, inciso XV, do Regimento Interno do STF.
Um dos principais pontos sob investigação é a movimentação de recursos atribuída a Daniel Vorcaro. Reportagens publicadas nesta semana apontam que valores destinados ao projeto cinematográfico passaram por estruturas financeiras no exterior, incluindo o fundo Havengate Development Fund, utilizado na captação de recursos para o filme. A Polícia Federal busca esclarecer se as operações tiveram finalidade exclusivamente relacionada à produção cinematográfica ou se os recursos foram utilizados também para outras despesas e interesses de pessoas ligadas ao grupo político de Jair Bolsonaro.
A investigação ganhou novo elemento com a colaboração premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, homologada por André Mendonça. Segundo informações divulgadas pela imprensa, Freixo é apontado como operador financeiro ligado a Vorcaro e relatou operações envolvendo a empresa Entre Investimentos e Participações. Entre os repasses investigados estão transferências para o fundo norte-americano Havengate, relacionadas à produção de “Dark Horse”. Segundo a Folha, a investigação trabalha com a informação de que aproximadamente R$ 63,7 milhões já teriam sido destinados à produção, dentro de um valor total negociado de cerca de R$ 134 milhões.
A colaboração é considerada relevante porque pode ajudar a Polícia Federal a reconstruir a chamada rota do dinheiro. O objetivo é identificar quem solicitou cada operação, de onde vieram os recursos, quais empresas ou fundos participaram das transferências e quem efetivamente recebeu os valores. A análise dessas etapas será determinante para estabelecer se houve apenas financiamento privado de uma produção cinematográfica ou se as operações podem configurar crimes financeiros.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades. Durante agenda de campanha em Roraima, o senador afirmou que não houve utilização de dinheiro público no financiamento do filme. “Não há um centavo de dinheiro público. Pode revirar do avesso”, declarou o candidato, segundo o material divulgado sobre o caso.
A apuração do STF ganhou uma segunda frente nesta semana com a operação da Polícia Federal que atingiu o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a empresária Karina Gama, ligada à produtora Go Up Entertainment, responsável pela obra. A operação autorizada pelo ministro Flávio Dino investiga suspeitas de desvio de emendas parlamentares que teriam sido direcionadas, por meio de organizações e empresas, para o financiamento do filme. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em diferentes estados.
De acordo com a PF, a investigação sobre as emendas encontrou coincidências entre o período das transferências de recursos e o período de gravações de “Dark Horse”. As gravações ocorreram entre outubro e dezembro de 2025. No mesmo período, a produtora Go Up teria movimentado aproximadamente R$ 19 milhões de maneira considerada atípica pelos investigadores. Parte dos recursos teria passado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), que recebeu emendas parlamentares.
A investigação de Dino é diferente do inquérito conduzido por Mendonça, mas os dois procedimentos convergem para um mesmo ponto: a necessidade de esclarecer como o filme foi financiado e qual foi a origem dos recursos utilizados em sua produção. Enquanto Mendonça investiga principalmente a conexão financeira envolvendo Vorcaro, o Banco Master e estruturas no exterior, a investigação de Dino concentra-se na possível utilização irregular de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares.
No caso das emendas, a Polícia Federal investiga suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e possíveis fraudes relacionadas à contratação e subcontratação de empresas. Segundo a corporação, foram identificadas movimentações financeiras de grande volume entre empresas que fariam parte do esquema investigado.
Mário Frias nega as acusações e classificou a operação como uma tentativa de criar uma “cortina de fumaça”. O deputado também está relacionado à produção do filme, tendo participado de sua estrutura de produção e da captação de recursos.
A PF também identificou movimentações financeiras consideradas incompatíveis com os rendimentos declarados em determinadas operações relacionadas ao projeto. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, a produtora teria recebido R$ 645,4 mil diretamente de Frias, enquanto outras transferências teriam ocorrido por meio de organizações e empresas relacionadas à produtora.
A existência de duas investigações distintas aumenta a importância da análise da origem e do destino dos recursos. No primeiro eixo, a Polícia Federal procura esclarecer a relação entre Vorcaro e o financiamento privado do filme. No segundo, investiga se dinheiro proveniente de emendas parlamentares foi desviado ou utilizado de maneira irregular para beneficiar a produção.
O caso também tem forte impacto eleitoral. Flávio Bolsonaro é candidato do PL à Presidência da República e aparece no centro de uma investigação criminal relacionada justamente a uma produção cinematográfica dedicada à trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. A investigação ocorre semanas antes das eleições e em meio à crise institucional envolvendo o STF e às disputas políticas em torno do caso Banco Master. A coincidência temporal, entretanto, não permite concluir que a investigação tenha motivação eleitoral. Essa eventual relação precisa ser demonstrada por fatos e documentos.
O cenário ganhou ainda mais complexidade depois que o presidente do STF, ministro Edson Fachin, determinou a retirada do sigilo de milhares de páginas relacionadas à investigação do Banco Master. A medida ampliou o acesso público a informações que antes estavam restritas às partes e permitiu que novos vínculos financeiros e políticos fossem examinados pela imprensa e pelos investigadores.
A investigação sobre “Dark Horse” passou, assim, a ocupar uma posição estratégica dentro do caso Banco Master. De um lado, aparecem recursos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro e operações financeiras envolvendo estruturas no exterior. De outro, surgem suspeitas relacionadas à utilização de emendas parlamentares e organizações privadas. No meio dessas duas linhas está uma produção cinematográfica politicamente ligada ao grupo Bolsonaro.
O ponto central para a investigação será estabelecer se existe uma conexão documental entre essas diferentes fontes de recursos. Para isso, a PF deverá rastrear contratos, transferências bancárias, notas fiscais, documentos societários, movimentações internacionais e comunicações entre os envolvidos. Também será necessário verificar se os serviços pagos foram efetivamente prestados e se os valores declarados correspondem às despesas reais da produção.
Até o momento, não há conclusão definitiva de que Flávio Bolsonaro tenha cometido os crimes investigados. O senador é alvo de uma investigação, e a Polícia Federal ainda precisa reunir elementos para determinar se houve prática criminosa. O mesmo princípio se aplica aos demais investigados no caso.
A apuração também coloca sob escrutínio o modelo de financiamento de produções cinematográficas de grande porte vinculadas a figuras políticas. Se forem confirmadas irregularidades, o caso poderá ultrapassar a discussão sobre o filme e atingir mecanismos de financiamento privado, utilização de recursos públicos, operações internacionais e relações entre empresários e agentes políticos.
O caso “Dark Horse”, portanto, deixou de ser apenas uma disputa política em torno de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. Com as investigações conduzidas no STF e as novas diligências da Polícia Federal, tornou-se uma frente dentro de uma investigação financeira muito maior, que busca esclarecer a circulação de recursos envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro, empresas, fundos no exterior, emendas parlamentares e pessoas ligadas ao núcleo político bolsonarista.
As investigações continuam sob sigilo em parte dos procedimentos, e novas diligências poderão alterar o quadro atualmente conhecido. A eventual responsabilização criminal dependerá da produção de provas e das conclusões da Polícia Federal, da manifestação da PGR e das decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal.




