Brasil e China rejeitam ingerência em eleições e defendem produção nacional de minerais críticos

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Segundo o governo brasileiro, o documento destaca a importância estratégica da relação bilateral, a convergência entre os dois países e as possibilidades de cooperação em projetos nacionais de desenvolvimento.. Foto Ricardo Stuckert/PR

Celso Amorim se reuniu em Pequim com o chanceler Wang Yi e entregou carta de Lula a Xi Jinping; minerais estratégicos entram no centro da disputa geopolítica entre China, Estados Unidos e Brasil

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Brasil e China reafirmaram nesta quarta-feira (16), em Pequim, a defesa da soberania nacional e o repúdio a tentativas de interferência em assuntos internos, incluindo processos eleitorais. O tema foi tratado pelo assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, em reunião com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi.

O encontro ocorre a menos de um mês das eleições brasileiras e em meio às tensões diplomáticas entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a administração de Donald Trump. Segundo o ICL Notícias, a questão da interferência eleitoral foi um dos pontos de convergência entre Amorim e Wang Yi. O governo brasileiro vem defendendo publicamente a soberania nacional e a autonomia das instituições brasileiras.

Durante a reunião, Amorim entregou a Wang Yi uma carta de Lula destinada ao presidente chinês, Xi Jinping. Segundo o governo brasileiro, o documento destaca a importância estratégica da relação bilateral, a convergência entre os dois países e as possibilidades de cooperação em projetos nacionais de desenvolvimento.

Minerais críticos entram no centro da agenda

Outro tema central da conversa foi a exploração de minerais críticos e terras raras, considerados estratégicos para setores como tecnologia, defesa, eletrificação, baterias, equipamentos eletrônicos e transição energética.

Brasil e China defenderam o desenvolvimento de capacidades produtivas e tecnológicas que permitam ao Brasil não apenas extrair os minerais, mas também agregar valor à produção dentro do país.

A Agência Nacional de Mineração destaca que minerais críticos podem ser essenciais para a economia, segurança e transição energética e que o risco estratégico não está necessariamente na escassez geológica, mas também na concentração do processamento e das cadeias de fornecimento.

A China ocupa posição particularmente relevante nesse cenário. Segundo informações da ANM baseadas em dados da Agência Internacional de Energia (IEA), o país concentra cerca de 70% da capacidade mundial de refino de minerais críticos, principalmente nas etapas intermediárias e finais das cadeias produtivas.

Brasil tenta evitar papel de mero exportador

A discussão ocorre justamente no dia em que o governo brasileiro sanciona a nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação cria instrumentos de financiamento e incentivos para estimular projetos de mineração, beneficiamento e transformação desses recursos no Brasil. O novo marco também prevê um conselho com participação majoritária do governo federal para analisar determinadas operações consideradas estratégicas.

A estratégia coloca o Brasil diante de uma questão econômica e geopolítica: explorar as grandes reservas minerais do país ou avançar também para as etapas industriais que agregam maior valor aos produtos?

A própria Agência Nacional de Mineração aponta que o Brasil possui relevância em minerais como lítio, níquel, cobre, nióbio, manganês e grafita, além de potencial significativo em terras raras.

Disputa entre Washington e Pequim

O interesse internacional pelos minerais brasileiros ocorre em meio à disputa tecnológica e comercial entre Estados Unidos e China. A China possui forte presença no processamento de minerais críticos, enquanto os Estados Unidos e outros países procuram diversificar suas cadeias de fornecimento. Para o Brasil, essa disputa amplia o interesse estrangeiro sobre suas reservas e sobre a capacidade nacional de processamento.

Celso Amorim já defendeu publicamente que o Brasil evite depender exclusivamente de um único parceiro comercial e desenvolva capacidade própria de produção e transformação. Em entrevista à BBC, o assessor afirmou que o país deve diversificar suas relações e atender primeiro às próprias necessidades estratégicas.

O tema também ganhou espaço na campanha eleitoral brasileira, já que diferentes candidatos apresentam propostas distintas para a relação com Estados Unidos, China, Brics e para o aproveitamento das reservas minerais brasileiras.

Inteligência artificial e Brics

A reunião entre Amorim e Wang Yi também tratou de inteligência artificial, com destaque para desenvolvimento de código aberto e uso ético e inclusivo da tecnologia. Os dois governos ainda discutiram a situação internacional, incluindo os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, além do papel do Brics como espaço de diálogo entre países.

Em comunicado divulgado após o encontro, Brasil e China reafirmaram a intenção de ampliar a cooperação bilateral em áreas consideradas estratégicas e defender o fortalecimento do sistema multilateral.

A questão eleitoral

A defesa da não interferência em eleições ganha peso adicional diante da proximidade do pleito brasileiro e das tensões diplomáticas com Washington. O governo brasileiro tem sustentado que decisões sobre o funcionamento das instituições nacionais devem ser tomadas dentro do próprio país. A China, por sua vez, mantém como princípio diplomático declarado a não intervenção nos assuntos internos de outros Estados. No encontro desta quarta-feira, os dois governos associaram essa posição à defesa do diálogo, da paz e do multilateralismo.

O próximo movimento diplomático de Lula será nos Estados Unidos. O presidente brasileiro viajará a Nova York para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde deverá abordar temas relacionados à soberania, democracia e relações internacionais.

O encontro entre Lula e Xi Jinping, por meio da carta entregue por Amorim, e a reunião com Wang Yi mostram que a relação Brasil-China ultrapassa a pauta comercial e entra diretamente no debate sobre tecnologia, minerais estratégicos, soberania e reorganização das cadeias produtivas globais.

A disputa pelos recursos minerais brasileiros, portanto, deixa de ser apenas uma questão de mineração. Passa a envolver indústria, tecnologia, segurança econômica e a posição do Brasil diante das duas maiores potências que disputam influência sobre essas cadeias.

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