
Conversas encontradas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro mencionam uma mulher que teria “ficado com o Kassio”; ministro Kassio Nunes Marques nega o encontro e diz não conhecer o contexto das mensagens.
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Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e obtidas pela Polícia Federal mencionam um suposto encontro entre uma mulher e um homem identificado como “Kassio”, seguido de uma cobrança de R$ 10 mil. O contexto das conversas levou veículos como CNN Brasil, UOL e Metrópoles a relacionar o nome ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro, porém, nega ter participado do encontro.
A conversa ocorreu em fevereiro e março de 2025. Em 28 de fevereiro, uma mulher identificada nas mensagens como Rayanna perguntou a Vorcaro qual seria o endereço e afirmou: “As meninas estão prontas”. O ex-banqueiro respondeu com um endereço na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi, em São Paulo. Segundo o UOL, o endereço correspondia a um triplex que pertencia a Vorcaro e era avaliado em cerca de R$ 50 milhões.
Em 7 de março, Rayanna retomou o contato com Vorcaro e escreveu que uma amiga havia “ficado com o Kassio”. Na sequência, afirmou que a mulher estava cobrando pelo encontro. Vorcaro pediu os dados e o valor. A resposta foi “10”, interpretada pelas reportagens como referência a R$ 10 mil. Em seguida, a interlocutora enviou um endereço eletrônico para o pagamento. As mensagens, entretanto, não comprovam por si mesmas que o encontro tenha ocorrido, que o homem citado fosse o ministro ou que o pagamento tenha sido efetivamente realizado.
A CNN Brasil reproduziu o trecho em que Rayanna diz a Vorcaro: “Ela disse que ficou com o Kassio”, seguido da cobrança. A reportagem informou que procurou a assessoria de Nunes Marques.
O ministro negou o encontro. Segundo informações divulgadas pelo UOL e pelo Estadão, sua assessoria afirmou que ele “não tem conhecimento sobre o contexto” das mensagens. Portanto, a identificação do personagem mencionado como “Kassio” com o ministro permanece como uma hipótese jornalística baseada no contexto dos diálogos, e não como um fato comprovado pelas mensagens isoladamente.
O episódio ganhou relevância porque o nome de Nunes Marques aparece em outras conversas encontradas no aparelho de Vorcaro. Em dezembro de 2024, um número atribuído ao ministro enviou a um agente de viagens uma solicitação para organizar uma viagem de aproximadamente dez dias para cinco pessoas, incluindo Viena e cidades próximas. O agente perguntou a Vorcaro se deveria faturar os custos diretamente para ele. Vorcaro respondeu: “Sim. Atende. Tudo.”
As mensagens também colocaram sob escrutínio a relação financeira envolvendo o advogado Kevin Marques, filho do ministro. Conversas entre Vorcaro e Luiz Rennó, ex-diretor jurídico do Banco Master, fazem referência a um valor de R$ 500 mil mensais associado ao contato de Kevin. A assessoria do advogado nega que ele tenha prestado serviços ao Banco Master ou recebido dinheiro diretamente de Vorcaro. Afirma que Kevin recebeu R$ 281,6 mil da empresa Consult Inteligência por serviços jurídicos na área tributária.
O ministro também nega que seu filho tenha recebido dinheiro de Vorcaro e afirma que nunca votou a favor do Banco Master. A defesa de Kevin sustenta que sua atuação profissional para a Consult Inteligência não tinha relação com o Supremo Tribunal Federal.
Outro episódio envolvendo Nunes Marques foi revelado nas mensagens relacionadas a viagens. Segundo as reportagens, em novembro de 2025 o ministro viajou com a mulher de Brasília para Maceió em um avião particular pertencente a uma empresa ligada à administração dos bens de Vorcaro. A viagem teria ocorrido para uma festa de aniversário, a convite da advogada Camilla Ewerton Ramos, que atua judicialmente para o Banco Master e afirmou ter arcado com os custos.
O conjunto das mensagens passou a ser analisado em meio à crise interna do STF provocada pelas relações reveladas entre Vorcaro e diferentes pessoas ligadas ao Judiciário. Nunes Marques chegou a avaliar a possibilidade de se declarar impedido em questões relacionadas ao caso, segundo informações publicadas nesta quarta-feira (16).
A existência das mensagens, contudo, não equivale automaticamente à comprovação dos fatos descritos pelos interlocutores. No caso específico do suposto encontro, permanecem sem comprovação independente a identidade do homem chamado de “Kassio”, a realização efetiva do encontro e o eventual pagamento dos R$ 10 mil. Esses pontos são fundamentais para distinguir uma mensagem encontrada em um aparelho apreendido pela PF de uma conclusão sobre o que efetivamente ocorreu.
O caso coloca sob investigação não apenas o conteúdo das mensagens, mas também a natureza das relações mantidas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro com integrantes ou pessoas próximas ao Supremo. A apuração dos documentos, registros financeiros, dados de localização, imagens de segurança e demais elementos eventualmente apreendidos pela Polícia Federal poderá esclarecer se as conversas correspondem a acontecimentos concretos ou a negociações que não chegaram a ser realizadas. A humanidade inventou a tecnologia para armazenar tudo e depois descobriu que precisava interpretar o que armazenou. Eis a civilização em sua forma mais concentrada.


