Na época, segundo a PF, blogueiros teriam recebido informações privilegiadas e cobrado dinheiro de pessoas investigadas para impedir a divulgação do material. Os valores mencionados pelos investigadores variavam de R$ 1,5 mil a R$ 10 mil
A investigação da Polícia Federal sobre informações utilizadas pelo blogueiro maranhense Luís Pablo Conceição Almeida em reportagens sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino colocou no centro do debate a fronteira entre jornalismo investigativo, proteção constitucional da fonte e eventual obtenção criminosa de dados. Em agosto, a PF cumpriu mandados contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do governo do Maranhão apontado pelos investigadores como uma das pessoas que teriam fornecido informações ao blogueiro. A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes.
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A investigação não se limita ao conteúdo das reportagens. Segundo informações divulgadas pela PF e reproduzidas por veículos como Folha de S.Paulo e UOL, os investigadores procuram saber como foram obtidos dados sobre veículos, trajetos, horários, endereços e o aparato de segurança utilizado por Dino e por seus familiares. A suspeita é de que informações protegidas tenham sido acessadas em bases públicas restritas e posteriormente repassadas ao blogueiro.
A INVESTIGAÇÃO
A apuração começou depois de Luís Pablo publicar textos questionando o uso de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares de Flávio Dino. O blogueiro sustentou que havia interesse público na divulgação das informações e afirmou que o material fazia parte de seu trabalho jornalístico.
Em março de 2026, Alexandre de Moraes autorizou uma primeira operação envolvendo Luís Pablo. Equipamentos eletrônicos foram apreendidos e posteriormente analisados pela Polícia Federal. Segundo a investigação, a análise teria levado os investigadores até Raimundo Cutrim. Em agosto, uma nova operação foi realizada contra Cutrim e Diogo Diniz Lima, apontado como outro personagem relacionado ao fornecimento ou financiamento de informações.
A PF suspeita que Cutrim tenha acessado informações de sistemas restritos e as repassado ao blogueiro. Também é investigada a hipótese de que tenha existido pagamento relacionado à produção de conteúdos contra Dino. Reportagem do UOL informou que os investigadores identificaram um pagamento de R$ 100 mil relacionado ao caso. Luís Pablo afirma que o valor foi um empréstimo pessoal para uma negociação imobiliária e que já havia sido devolvido antes da operação.
A existência de uma transferência financeira, entretanto, não prova automaticamente que tenha havido compra de reportagens. A finalidade do dinheiro e sua relação — ou não — com a atividade jornalística são justamente questões que a investigação precisa esclarecer.
O PASSADO JUDICIAL DO BLOGUEIRO
O histórico de Luís Pablo também passou a ser utilizado no debate público sobre a investigação. Em 2017, ele foi preso temporariamente juntamente com o pai e o irmão durante a Operação Turing, da Polícia Federal, que investigava o vazamento de informações sigilosas de operações policiais.
Na época, segundo a PF, blogueiros teriam recebido informações privilegiadas e cobrado dinheiro de pessoas investigadas para impedir a divulgação do material. Os valores mencionados pelos investigadores variavam de R$ 1,5 mil a R$ 10 mil. As prisões temporárias foram posteriormente revogadas pela Justiça Federal.
Esse ponto exige uma distinção importante: ser investigado ou preso temporariamente não equivale a ter sido condenado por aquele crime.
Reportagem da Folha publicada em março informou que Luís Pablo foi denunciado pelo Ministério Público Federal em 2020 por crimes como extorsão e organização criminosa no contexto da Operação Turing, mas que o processo ainda não havia sido julgado. O próprio blogueiro nega a acusação.
Também há registros de processos envolvendo acusações contra o blogueiro. Uma condenação citada pela imprensa diz respeito a uma ação movida por Flávio Dino, quando ainda era governador do Maranhão. Segundo a Folha, Luís Pablo foi condenado a pagar R$ 10 mil por danos morais, e seu recurso ao STJ foi rejeitado em 2019. Essa condenação, porém, é de natureza cível e não equivale a uma condenação criminal por extorsão.
Portanto, a afirmação de que o blogueiro “foi condenado por extorsão e chantagem” precisa ser tratada com cautela: as fontes consultadas confirmam a prisão temporária e a investigação por extorsão na Operação Turing, além de uma condenação por danos morais, mas não confirmam uma condenação criminal definitiva por extorsão.
O QUE DIZ LUÍS PABLO
Luís Pablo nega ter vendido reportagens e rejeita a acusação de que tenha participado de perseguição contra Flávio Dino. Em entrevista ao UOL, afirmou que o empréstimo de R$ 100 mil não tinha relação com as publicações e que seu trabalho foi realizado dentro da atividade jornalística. Também sustentou que a investigação representa uma ameaça ao sigilo da fonte.
Em março, quando foi chamado para prestar depoimento à PF, o blogueiro decidiu permanecer em silêncio. Sua defesa argumentou que os investigadores buscavam descobrir a origem das informações utilizadas nas reportagens e invocou o direito constitucional ao sigilo da fonte. A questão é juridicamente relevante porque a Constituição brasileira protege o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional do jornalismo. Ao mesmo tempo, essa garantia não significa, por si só, imunidade para eventual prática de crime.
Foi justamente esse ponto que Alexandre de Moraes destacou ao defender sua decisão. Segundo declaração feita pelo ministro no STF em 13 de agosto, o sigilo da fonte é uma garantia constitucional, mas não pode ser utilizado como proteção para práticas criminosas.
O PAPEL DE RAIMUNDO CUTRIM
Raimundo Cutrim passou a ocupar posição importante no caso porque, segundo a PF, seria uma das fontes utilizadas por Luís Pablo para obter informações sobre Flávio Dino.
O ex-secretário e delegado federal aposentado foi alvo de busca e apreensão em agosto. Na residência dele, os policiais encontraram 26 armas e mais de 700 munições, segundo o UOL. O arsenal é objeto de uma apuração própria e não demonstra, por si só, qualquer relação entre as armas e as reportagens publicadas pelo blogueiro.
Cutrim também aparece em outra investigação conduzida no STF, relacionada ao assassinato do empresário João Bosco, ocorrido em São Luís em 2022. Ele está em prisão domiciliar desde julho por suspeitas relacionadas à obstrução da Justiça e coação de testemunhas.
A sobreposição dos dois casos é um dos elementos que tornam a investigação particularmente sensível: Cutrim aparece, simultaneamente, como personagem de uma investigação sobre o assassinato e como possível fonte de informações utilizadas em reportagens sobre Flávio Dino.



