Alvo de ‘caçada’ por oficiais de Justiça no escândalo ‘Dark Horse’, deputado bolsonarista viajou ao Bahrein sem aval da Casa; STF investiga repasse de R$ 2 milhões em emendas para produtora de filme

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BRASÍLIA — O cerco judicial e investigativo em torno do nebuloso financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou contornos de enredo de espionagem e fuga internacional. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquadrou a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados e deu um ultimato de 48 horas para que a Casa explique detalhadamente o paradeiro, os custos e o embasamento burocrático da viagem ao exterior do deputado federal Mário Frias (PL-SP).
O parlamentar bolsonarista virou alvo de uma verdadeira caçada por parte de oficiais de Justiça, que há mais de um mês tentam, sem sucesso, intimá-lo a prestar esclarecimentos à Suprema Corte. Enquanto o Judiciário bate à sua porta no Brasil, Frias encontra-se no Oriente Médio sob a alegação de cumprir uma suposta “missão internacional” no Reino do Bahrein — uma justificativa que, conforme revelado agora pelos registros internos, não possui nenhum amparo oficial ou autorização da presidência da Câmara.
Em ofício contundente enviado ao presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), Flávio Dino exigiu a prestação imediata de dados sobre prazos, passagens e pagamentos referentes ao deslocamento do deputado. A urgência do ministro baseia-se na gravidade do caso: o STF investiga o escândalo do repasse de R$ 2 milhões em emendas parlamentares carimbadas por Mário Frias para uma Organização Não Governamental (ONG) ligada diretamente à produtora do filme Dark Horse, obra que exalta a trajetória de Bolsonaro e que já está sob forte escrutínio devido ao financiamento bilionário do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O Drible do Endereço Antigo e as ‘Missões’ Clandestinas
A paciência do STF esgotou-se após uma sucessão de manobras de evasão do parlamentar. A revelação mais escandalosa veio à tona: o endereço residencial fornecido oficialmente pela Câmara dos Deputados ao Supremo para que Mário Frias recebesse as notificações judiciais simplesmente não pertence ao deputado há dois anos.
Ao tentarem procurá-lo no gabinete em Brasília para notificá-lo pessoalmente, os oficiais de Justiça foram informados pelos funcionários de Frias de que o chefe estava fora do país e que “não havia qualquer previsão de data para o seu retorno”. Diante do drible logístico, o mandado foi devolvido ao gabinete de Dino sem cumprimento.
A justificativa de Frias para o sumiço das sessões plenárias é uma suposta agenda institucional. Ele viajou para o Bahrein sob o pretexto de “fortalecer as relações bilaterais” com o Brasil. No entanto, o roteiro esconde uma grave irregularidade administrativa. A assessoria da Câmara confirmou que Mário Frias apresentou dois pedidos de missão internacional “sem ônus” para o Erário: o primeiro para o Bahrein (de 12 a 18 de maio) e o segundo para Dallas, nos Estados Unidos (de 19 a 21 de maio).
Contudo, nenhum dos dois pedidos de viagem internacional feitos por Frias foi autorizado pela presidência da Casa. Na prática, o deputado abandonou as obrigações do mandato no Congresso para realizar viagens clandestinas, utilizando a estrutura e o prestígio diplomático para se manter fora do raio de alcance da Justiça brasileira.
Triangulação Financeira com Dinheiro do Contribuinte
O sumiço estratégico de Mário Frias começou a ser desenhado no dia 21 de março, quando o ministro Flávio Dino determinou que ele se manifestasse em cinco dias sobre uma ação protocolada pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). A parlamentar pede a apuração rigorosa de um suposto esquema de favorecimento e desvio de finalidade com dinheiro público. Frias, que assina como um dos produtores executivos de Dark Horse, destinou R$ 2 milhões de suas emendas parlamentares para o Instituto Conhecer Brasil.
A ONG é presidida por Karina Ferreira da Gama, que também comanda a produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro. Os investigadores do STF e da Polícia Federal suspeitam que o repasse foi uma manobra de autossustento financeiro para inflar os cofres do projeto cinematográfico privado utilizando dinheiro do contribuinte.
Desde o dia 14 de abril, o STF registra tentativas frustradas de notificar o ex-secretário especial de Cultura. Oficiais de Justiça foram três vezes ao seu gabinete e voltaram de mãos vazias. Diante do rastro de indícios e do flagrante conflito de interesses, Dino abriu formalmente uma apuração preliminar para investigar a conduta de deputados do PL que estão irrigando ONGs ligadas à produção de Dark Horse com verbas orçamentárias. Ao fixar o prazo de 48 horas para a Câmara abrir os registros de Frias, o STF envia um recado claro de que as prerrogativas do parlamento não servirão de escudo para esconder investigados.




