Em telefonema considerado cordial pelo Planalto, presidentes discutiram sobretaxas sobre produtos brasileiros, comércio bilateral e combate ao crime organizado; Trump propôs novo encontro entre as equipes dos dois países
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone nesta sexta-feira (21) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma ligação que durou cerca de uma hora e vinte minutos e ocorreu em meio à disputa comercial provocada pelas novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Segundo o governo brasileiro, o diálogo teve tom amistoso e cordial, com Lula defendendo a retomada das negociações e contestando as justificativas apresentadas por Washington para as sobretaxas.
A conversa ocorreu em um momento de forte pressão sobre as relações comerciais entre os dois países. Os Estados Unidos estabeleceram uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros e outra de 12,5%, vinculada a uma política americana relacionada ao combate ao trabalho forçado. Em alguns produtos, as duas tarifas podem se acumular. O governo brasileiro considera injustificadas as razões apresentadas pelos Estados Unidos.
Durante a ligação, Lula afirmou que a manutenção de uma relação comercial forte interessa aos dois países e defendeu a continuidade das conversas entre Brasília e Washington. Trump, segundo o relato brasileiro, concordou com a importância de preservar os vínculos comerciais e sugeriu que representantes dos dois governos voltem a se reunir rapidamente.
O tamanho da conversa chamou atenção. O contato de 80 minutos ocorreu depois de semanas de tensão provocadas pelas tarifas e representa uma tentativa de reabrir um canal direto entre os dois presidentes. Apesar do tom cordial relatado pelo Planalto, não houve anúncio imediato de suspensão das sobretaxas americanas.
Os números ajudam a dimensionar o impacto da disputa. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as novas medidas americanas atingem, somadas, cerca de 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras ao mercado americano somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Entre os setores afetados estão produtos como açúcar, madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, cerâmicas e outros itens da pauta de exportações. O MDIC também registra queda significativa nos embarques de petróleo bruto e de produtos siderúrgicos para o mercado americano.
Lula também voltou a questionar os argumentos apresentados pelo governo Trump para justificar as medidas. Entre os temas citados pelos Estados Unidos estão questões relacionadas ao desmatamento, propriedade intelectual, corrupção, Pix, etanol, acordos comerciais e trabalho forçado.
Outro assunto levado à conversa foi o combate ao crime organizado. Lula sinalizou disposição para ampliar a cooperação entre os dois países, mas manteve a posição brasileira contrária à classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas.
A divergência ganhou importância depois que os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo brasileiro considera que as facções devem ser combatidas dentro dos mecanismos previstos pela legislação brasileira e vê com cautela qualquer medida que possa abrir espaço para interferência externa.
Uma relação marcada por aproximações e conflitos
A conversa desta sexta-feira ocorre após uma sequência de encontros e atritos entre Lula e Trump. O primeiro contato pessoal entre os dois presidentes ocorreu em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Na ocasião, Trump descreveu o encontro como positivo e chegou a mencionar uma boa “química” entre os dois.
Depois disso, os governos passaram a tentar construir um canal direto de negociação. Lula buscou preservar a relação comercial com Washington enquanto evitava aderir às posições políticas defendidas pela Casa Branca.
A relação, entretanto, voltou a sofrer tensão com a aproximação de Trump de integrantes da família Bolsonaro. O presidente americano recebeu o senador Flávio Bolsonaro (PL) na Casa Branca em junho, episódio que aumentou a preocupação do governo brasileiro sobre uma possível interferência americana no processo eleitoral brasileiro.
Lula passou então a enfatizar publicamente a soberania brasileira e a necessidade de que governos estrangeiros não interfiram nas eleições do país.
A disputa comercial se agravou posteriormente com a adoção das sobretaxas. Para o governo brasileiro, as tarifas representam não apenas um problema econômico, mas também uma questão diplomática. Para Washington, as medidas fazem parte de uma política comercial baseada em interesses econômicos e em alegações relacionadas às práticas brasileiras.
O principal resultado concreto anunciado até agora é a disposição de manter as equipes dos dois governos em contato. A partir daqui, o ponto decisivo será saber se a conversa política conseguirá produzir mudanças efetivas nas tarifas que atingem as exportações brasileiras.
Para o Brasil, estão em jogo empregos, exportações e mercados importantes. Para os Estados Unidos, a relação com a maior economia da América Latina envolve comércio, segurança, energia e interesses estratégicos.
O telefonema de 80 minutos, portanto, representa uma tentativa de reduzir a temperatura de uma relação que passou rapidamente da aproximação diplomática para uma disputa comercial aberta. A cordialidade relatada pelo Planalto é um sinal político; a retirada ou redução das tarifas, porém, dependerá das negociações que serão realizadas pelas equipes dos dois governos.
Quem está dando as cartas em Washington?
Rubio nos bastidores
Nos últimos meses, o secretário de Estado Marco Rubio ganhou protagonismo na condução da política dos Estados Unidos em relação ao Brasil e chegou a justificar publicamente as novas tarifas impostas aos produtos brasileiros.
Rubio também aparece como um dos principais nomes da ala do governo Trump que mantém uma postura mais dura em relação ao governo Lula. Reportagem publicada nesta sexta-feira aponta que a influência de Rubio no Departamento de Estado tem dificultado uma tentativa brasileira de reconstruir uma relação mais pragmática com Washington.
O episódio das tarifas mostra a divisão de papéis. Enquanto Trump agora sinaliza disposição para que representantes dos dois governos voltem à mesa, Rubio foi um dos responsáveis pela defesa pública da medida e acusou Lula de colocar o próprio “ego” acima de um acordo. O governo brasileiro classificou as declarações do secretário americano como ofensivas.



