Governo avalia que proposta tem forte apoio popular, fortalece discurso pró-trabalhador e pode gerar desgaste para parlamentares contrários à mudança na jornada de trabalho

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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva [PT] avalia que a proposta de extinção da escala 6×1 poderá se transformar em uma das principais bandeiras políticas da campanha à reeleição em 2026. Mesmo sem garantia de aprovação definitiva no Congresso Nacional, o Palácio do Planalto considera que o debate já produz dividendos políticos importantes ao reforçar a imagem de Lula como defensor dos trabalhadores.
Segundo integrantes da articulação política do governo, a pauta conseguiu ganhar apoio popular expressivo e recolocar no centro da discussão nacional um tema historicamente ligado à esquerda e aos movimentos sindicais. Pesquisa Datafolha divulgada em março apontou que 71% dos brasileiros apoiam a redução da jornada de trabalho e o fim do regime de seis dias trabalhados para um de descanso.
A expectativa do governo é aprovar na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda à Constituição que altera a jornada semanal de trabalho após negociações entre Lula e o presidente da Casa, Hugo Motta [Republicanos-PB]. O principal foco de resistência, porém, está concentrado no Senado, onde setores empresariais e parlamentares da oposição articulam mudanças no texto e tentam retardar sua tramitação.
Governo vê ganho político mesmo em caso de derrota
Nos bastidores do Planalto, auxiliares presidenciais afirmam que a proposta passou a ser vista não apenas como uma medida trabalhista, mas como instrumento estratégico de disputa política. A avaliação é que, mesmo diante de eventual rejeição no Congresso, Lula poderá explorar eleitoralmente o tema ao argumentar que seu governo defendeu melhores condições de trabalho enquanto adversários atuaram contra a proposta.
A estratégia também mira o impacto político sobre deputados e senadores que votarem contra a PEC. Governistas acreditam que o amplo apoio popular poderá criar constrangimento eleitoral, especialmente no Senado, onde parte significativa das cadeiras estará em disputa em 2026.
O texto negociado prevê uma implementação gradual da mudança. A proposta estabelece redução inicial da jornada semanal de 44 para 42 horas cerca de 60 dias após a promulgação da emenda constitucional. Após 12 meses, haveria nova redução, chegando a 40 horas semanais e dois dias de descanso por semana.
O governo defendia inicialmente uma transição mais acelerada, mas aceitou ampliar o prazo de adaptação após pressão de empresários e parlamentares ligados ao setor produtivo.
Planalto busca nova agenda de mobilização popular
Auxiliares de Lula avaliam internamente que programas sociais tradicionais já não produzem o mesmo impacto político de governos anteriores, principalmente porque benefícios como o Bolsa Família passaram a ser percebidos como políticas permanentes do Estado.
Nesse cenário, o fim da escala 6×1 passou a ser tratado como uma pauta capaz de reconectar o governo com trabalhadores urbanos, jovens empregados e setores precarizados do mercado de trabalho. Integrantes do núcleo político consideram que a medida também ajuda o presidente a reforçar um discurso de enfrentamento entre interesses do mercado e direitos trabalhistas.
A tramitação no Senado, entretanto, ainda é vista como imprevisível pelo governo. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre [União-AP], ainda não indicou qual será a condução política da proposta. A relação entre Alcolumbre e o Planalto atravessa um período de tensão após divergências envolvendo indicações para tribunais superiores.
Empresários e representantes de setores econômicos também pressionam parlamentares para ampliar o período de adaptação das empresas e flexibilizar pontos da PEC. Apesar disso, o governo aposta que o tema continuará mobilizando a opinião pública e poderá se consolidar como uma das principais vitrines políticas




