
Em meio à repercussão eleitoral, canal católico publica mensagem sobre fé; GloboNews corrige informação que associou Flávio Bolsonaro a projeto de 2007, apresentado por outro político e posteriormente arquivado.
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A polêmica envolvendo o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e Nossa Senhora Aparecida ganhou novo capítulo nesta sexta-feira (25), depois que a TV Aparecida publicou em suas redes sociais um vídeo com imagens da padroeira do Brasil e uma mensagem relacionada à fé e ao cuidado. A manifestação ocorreu enquanto crescia nas redes sociais a repercussão de uma informação que associava o candidato a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A emissora não citou Flávio Bolsonaro diretamente na publicação.
A origem da controvérsia, porém, precisa ser distinguida do que efetivamente consta nos registros públicos. O projeto citado nas redes é o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli, e não por Flávio Bolsonaro. A proposta pretendia alterar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto acabou arquivado.
A polêmica, entretanto, não surgiu no vazio. Em agosto, Flávio Bolsonaro havia declarado que, caso fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A fala foi posteriormente utilizada nas redes sociais para sustentar interpretações sobre sua relação com o eleitorado evangélico e com a tradição católica. Não há, porém, registro apresentado pelas fontes consultadas de que essa declaração tenha sido acompanhada de uma proposta de retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.
Outro elemento que alimentou a discussão foi a trajetória política de Victório Galli. O ex-deputado evangélico, autor do projeto de 2007, posteriormente ocupou uma função de assessor especial no governo Jair Bolsonaro.
A reação política veio rapidamente. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou ter recebido mensagens de católicos preocupados com as notícias que circulavam desde quinta-feira (24) e declarou que, enquanto ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estiverem no governo, as tradições religiosas serão “protegidas e preservadas”. Alckmin também defendeu o respeito às diferentes religiões.
A manifestação de Alckmin ocorreu em um momento no qual setores da Igreja Católica vinham discutindo democracia, soberania e participação política, sem declarar apoio formal a um candidato. Em declaração recente, o presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, afirmou que a Igreja não manifesta preferência político-partidária por candidatos.
O episódio revela uma característica particularmente delicada da campanha eleitoral de 2026: temas religiosos podem rapidamente deixar o campo da fé e entrar na disputa política. Neste caso, uma proposta legislativa apresentada há quase duas décadas foi reintroduzida no debate eleitoral, inicialmente sem a devida distinção sobre sua autoria e situação legislativa.
A sequência dos fatos também mostra como uma informação pode adquirir dimensão nacional em poucas horas. Primeiro, o projeto antigo voltou às redes; depois, a associação com Flávio Bolsonaro ganhou repercussão; posteriormente, o candidato negou a informação; e a GloboNews publicou uma correção. Ao mesmo tempo, manifestações de políticos e uma publicação da TV Aparecida mantiveram Nossa Senhora Aparecida no centro do debate público.
CNBB prepara fiéis para o voto e coloca democracia no centro da orientação eleitoral
A Igreja Católica também vem desenvolvendo uma série de iniciativas de formação dos fiéis para as eleições de 2026. Em junho, o Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (CEFEP), organismo vinculado à CNBB, lançou o subsídio “Eleições 2026: democracia, sinodalidade e bem comum”, destinado a comunidades, pastorais, movimentos e paróquias. O material propõe encontros de reflexão e oração sobre o processo eleitoral e busca contribuir para a formação de uma consciência crítica e cidadã.
Em agosto, foi lançado ainda o segundo Caderno “Encantar a Política”, com o tema “Brasil: Eleições Gerais 2026 – Fortalecer a democracia e eleger um Congresso Nacional amigo do povo”. O documento orienta os participantes a analisar a trajetória dos candidatos, seus partidos, propostas, compromissos e coerência ética antes de decidir o voto. Também aborda o combate à compra de votos, à corrupção, ao abuso do poder econômico, à manipulação da fé e à disseminação de notícias falsas.
A orientação institucional da CNBB, entretanto, estabelece uma distinção importante: a Igreja afirma que não indica candidatos nem partidos. Em mensagem divulgada em junho, a entidade convocou os eleitores à participação consciente no processo democrático e defendeu a análise das consequências das escolhas eleitorais, sem apresentar uma candidatura específica.
A própria CNBB mantém, em 2026, a série “Discernimento Católico – Eleições 2026”, que aborda temas como participação cidadã, democracia, instituições e confiança no processo eleitoral. Em um dos episódios, a entidade afirma que sua missão não é indicar candidatos, mas oferecer critérios para o discernimento dos cristãos.
A orientação ganha relevância no momento em que a religião voltou ao centro da disputa eleitoral. A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro (PL), a reação da TV Aparecida e as manifestações de integrantes da Igreja colocam em evidência uma questão que a própria CNBB vem tratando em seus materiais: a relação entre fé, política, democracia e responsabilidade do eleitor. Em documento oficial, os bispos também alertaram para a instrumentalização da religião e para a necessidade de proteger a verdade dos fatos e a integridade do debate público.


