Mapa societário revela rede de conexões de Daniel Vorcaro que alcança 16,5 mil empresas

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Entre os casos divulgados estão pagamentos a escritórios relacionados a Michel Temer, Ricardo Lewandowski, Antônio Rueda e empresas associadas a Guido Mantega e Henrique Meirelles. Foto Divulgação Banco Master

Levantamento baseado em dados da Receita Federal identifica 10 conexões diretas com o empresário e mais de 14,8 mil pessoas e empresas nos quatro graus seguintes; Banco Master aparece no núcleo da estrutura

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Uma varredura em dados públicos do Quadro de Sócios e Administradores (QSA) da Receita Federal identificou uma extensa rede societária relacionada ao empresário Daniel Bueno Vorcaro, que alcança 16.581 empresas quando são considerados cinco graus de conexão a partir dos vínculos empresariais diretamente relacionados a ele. O levantamento foi realizado em setembro de 2026, com consultas registradas nos dias 16 e 17, utilizando dados disponibilizados pela plataforma Eesier.

O primeiro grau concentra as relações diretamente compartilhadas por Vorcaro e reúne pessoas e empresas que aparecem no núcleo imediato da estrutura empresarial. Entre os vínculos identificados estão o Banco Master S/A, o Banco Master de Investimento S.A., a Master Serviços S.A., a Via Expressa S/A, a Viking Participações Ltda. e o Stern Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia. Também aparecem executivos como André Kruschewsky Lima, Angelo Antonio Ribeiro da Silva, Augusto Ferreira Lima, Felipe Wallace Simonsen, Luiz Antonio Bull e Humberto José Gomes Pereira.

A existência desses vínculos societários, entretanto, não significa, por si só, que os envolvidos tenham participado das mesmas operações ou cometido qualquer irregularidade. O QSA registra relações formais entre pessoas físicas e jurídicas. Para estabelecer a natureza econômica de cada ligação é necessário confrontar os dados com contratos, balanços, processos judiciais, documentos regulatórios e registros de operações.

A partir do segundo grau, o mapa começa a se ampliar rapidamente. São 55 nomes ligados aos integrantes do primeiro círculo, incluindo pessoas e empresas que passam a funcionar como pontos de conexão com outros grupos empresariais. Entre os caminhos identificados aparecem companhias de participação, administração, agropecuária, cobrança, investimentos e serviços financeiros.

No terceiro grau, o levantamento chega a 695 nomes. No quarto, são 2.878. No quinto grau, a rede alcança 11.282 pessoas e empresas. A dimensão da estrutura mostra também uma característica do próprio cadastro empresarial brasileiro: determinados grupos com grande número de sócios podem gerar milhares de conexões que não necessariamente representam uma relação econômica relevante com o núcleo original da investigação.

Um dos exemplos apontados no levantamento é a Fami Capital, que aparece como importante ponto de passagem da rede. Outros grandes conectores identificados são a Is Intermediações, com 1.296 sócios; a Invest Smart Assessor de Investimento, com 732; a Blue3 Holding, com 556; a Anestesia Carioca Serviços Médicos, com 519; a Sky Holding, com 473; a Blue3 Investimentos, com 463; e a Fami Capital, com 386.

Esses números precisam ser interpretados com cautela. Uma empresa com centenas ou milhares de integrantes pode criar conexões estatísticas entre pessoas que não possuem qualquer relação empresarial direta entre si. O próprio levantamento adota essa ressalva e deixa de abrir determinados caminhos quando a quantidade de vínculos torna a expansão da rede pouco útil para identificar relações específicas.

O mapa, entretanto, ganha relevância quando analisado juntamente com fatos documentados posteriormente sobre o entorno empresarial de Vorcaro. Em setembro, reportagens baseadas em mensagens apreendidas pela Polícia Federal revelaram que o empresário teria buscado apoio político para a permanência de Otto Lobo na presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Lobo negou ter pedido ajuda a Vorcaro, enquanto os parlamentares citados também negaram interferência.

Outra frente de investigação envolve a relação de Vorcaro com pessoas ligadas ao Banco Central. Reportagens publicadas em setembro apontaram pagamentos do Banco Master a uma empresa pertencente ao irmão de um funcionário do BC. O empresário afirmou que o pagamento estava relacionado a consultoria na área de mineração, enquanto o servidor negou participação em decisões relacionadas ao Master.

As conexões também devem ser examinadas à luz das decisões da CVM. Em 8 de setembro de 2026, a autarquia condenou Daniel Vorcaro e outros envolvidos em processo relacionado ao fundo Brazil Realty. As multas aplicadas no conjunto do processo chegaram a R$ 201,5 milhões, segundo reportagens sobre a decisão. Vorcaro recebeu multa individual de R$ 20 milhões e o Banco Master, de R$ 12,5 milhões. As decisões estão sujeitas aos mecanismos de recurso previstos na legislação.

O histórico recente mostra por que o mapa societário pode servir como ponto de partida para uma investigação mais profunda. Documentos enviados pela Receita Federal a uma CPI também já haviam revelado pagamentos do Banco Master a escritórios e empresas ligados a políticos, empresários e ex-integrantes do governo. Entre os casos divulgados estão pagamentos a escritórios relacionados a Michel Temer, Ricardo Lewandowski, Antônio Rueda e empresas associadas a Guido Mantega e Henrique Meirelles. A existência desses pagamentos, isoladamente, não demonstra irregularidade, e os envolvidos apresentaram explicações sobre os serviços prestados.

Outro dado que amplia o interesse sobre a estrutura é a investigação conduzida pela Polícia Federal sobre possíveis relações entre o Banco Master e servidores do Banco Central. Em depoimento prestado em agosto de 2026, Vorcaro negou ter oferecido vantagens ilícitas a servidores da autoridade monetária e afirmou que suas interações ocorreram no contexto institucional dos processos envolvendo o banco.

O levantamento societário, portanto, não deve ser lido como uma lista de empresas suspeitas ou de pessoas investigadas. Seu principal valor jornalístico está em indicar caminhos para uma segunda etapa de apuração: identificar quais conexões representam relações econômicas efetivas, quais empresas receberam recursos do grupo, quais sociedades compartilharam administradores, quais negócios envolveram fundos ou instituições financeiras e quais desses vínculos aparecem também em processos judiciais ou procedimentos de órgãos reguladores.

Há ainda uma questão metodológica importante. A rede poderia crescer muito além do quinto grau. A partir desse ponto, entretanto, a quantidade de pessoas e empresas conectadas torna o mapa cada vez menos específico. O próprio levantamento registra que alguns integrantes possuem milhares de vínculos empresariais, criando uma espécie de efeito teia que pode aproximar no cadastro pessoas sem relação econômica direta.

A próxima etapa de uma investigação jornalística sobre a rede Vorcaro deve, portanto, abandonar a simples contagem de empresas e concentrar-se nos chamados pontos de interseção: pessoas que aparecem simultaneamente em diferentes empresas do núcleo; empresas que recebem recursos de companhias do grupo; administradores que transitam entre instituições financeiras e empresas privadas; escritórios que representam diferentes integrantes; fundos que aparecem em mais de uma operação; e relações que também surgem em documentos da PF, Banco Central, CVM, Receita Federal, Junta Comercial ou processos judiciais.

É nesse cruzamento que uma gigantesca rede cadastral pode deixar de ser apenas um mapa de nomes e passar a revelar a arquitetura econômica dos negócios. Até que cada conexão seja documentalmente comprovada, porém, o que existe é uma relação societária registrada nas bases consultadas, e não prova de atuação conjunta ou de irregularidade.

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