Reportagem da Piauí relata suruba de Flávio Bolsonaro com garotas de programa durante a pandemia e presente de luxo oferecido por empresário das vacinas Covaxin

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A existência desse vínculo bancário, somada às relações societárias entre Cathedral, Alcazar e Best Bet, levou a Polícia Federal a solicitar a abertura de investigação sobre a hipótese de participação não declarada do senador na empresa de apostas. Foto Reprodução

Revista piauí reconstituiu passeio de lancha em Brasília, em julho de 2020, com empresários ligados à Precisa Medicamentos; três meses depois, o senador participou de reunião com o presidente do BNDES para discutir um projeto empresarial de Francisco Maximiano

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Uma reportagem publicada pela Revista Piauí em 21 de outubro de 2026 relata que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, participou de um passeio de lancha no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Segundo a publicação, a confraternização foi organizada por empresários ligados à Precisa Medicamentos, que negociava com o governo Jair Bolsonaro a venda da vacina indiana Covaxin, e terminou com a entrega de um relógio Rolex ao parlamentar. O episódio é apresentado pela revista como parte de uma investigação sobre relações entre empresários, agentes políticos e o acesso a autoridades públicas.

A reconstituição publicada pela Piauí combina relatos de fontes ouvidas sob condição de anonimato, registros de voos, documentos obtidos durante investigações parlamentares e informações sobre movimentações empresariais.

Viagem de empresários ocorreu em meio à crise sanitária

De acordo com a investigação, na noite de 16 de julho de 2020, um jato executivo Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, partiu do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília. A publicação identifica entre os passageiros os empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, além do agente de viagens Raphael Barão e três mulheres descritas pela revista como garotas de programa.

O voo ocorreu em um período de elevada mortalidade por Covid-19 no Brasil, quando ainda não havia vacinação disponível para a população. Naquele momento, diferentes laboratórios e governos negociavam contratos e desenvolviam imunizantes para enfrentar a pandemia.

Segundo a Piauí, os empresários ligados à Precisa buscavam viabilizar a comercialização da Covaxin com o Ministério da Saúde. A empresa brasileira atuava como intermediária da fabricante indiana Bharat Biotech nas negociações com o governo federal.

A reportagem afirma que o grupo chegou a Brasília na noite de 16 de julho e se hospedou no setor hoteleiro da capital. O passeio de lancha teria ocorrido no dia seguinte, com a participação de Flávio Bolsonaro e de Alexandre Santini, então amigo e sócio do senador em uma franquia da loja de chocolates Kopenhagen.

Revista relata entrega de Rolex ao senador

Segundo a reconstituição publicada pela Piauí, a embarcação saiu de um ponto de acesso ao Lago Paranoá na manhã de 17 de julho de 2020. O grupo teria levado bebidas e alimentos para a confraternização e feito uma parada em um restaurante flutuante.

A publicação relata que Flávio Bolsonaro permaneceu na embarcação durante parte do passeio e que, ao final do encontro, Danilo Trento retirou um relógio Rolex do próprio pulso e o entregou ao senador.

Em outra reportagem citada pela Piauí, publicada pelo site PlatôBR em setembro de 2026, o parlamentar também aparece associado ao recebimento de um Rolex modelo Submariner Date, avaliado em R$ 305 mil, comprado pelo advogado Alan Belaciano. A coincidência entre os relatos exige cautela: os materiais mencionam episódios e circunstâncias que precisam ser individualizados para que se estabeleça se tratam do mesmo relógio ou de presentes distintos.

O recebimento de um presente de alto valor por um agente político pode levantar questões sobre transparência e eventual conflito de interesses, dependendo da origem, das circunstâncias e de possíveis vínculos com interesses privados. Entretanto, o relato de entrega de um relógio, isoladamente, não comprova a existência de contrapartida em contratos públicos.

A revista também descreve a presença de mulheres contratadas para o encontro e relata que Flávio teria descido à cabine da embarcação acompanhado de uma delas. Esse detalhe é atribuído às fontes ouvidas pela publicação e não constitui, por si só, evidência de crime ou de irregularidade administrativa.

CPI investigou negociação da Covaxin

A relação empresarial que dá contexto à reportagem foi objeto de investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, instalada no Senado Federal em 2021.

O caso envolveu a tentativa de aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin pelo Ministério da Saúde, em um contrato estimado em R$ 1,6 bilhão, intermediado pela Precisa Medicamentos. A negociação despertou questionamentos sobre preços, documentos apresentados pela intermediária, condições de pagamento e exigências de adiantamento financeiro.

O servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Fernandes Miranda relatou ter sofrido pressão incomum para agilizar procedimentos relacionados à compra. Ele e seu irmão, o então deputado federal Luis Miranda, levaram suspeitas sobre a negociação às autoridades e à CPI.

Durante as investigações, a fabricante indiana Bharat Biotech encerrou o contrato de representação com a Precisa e contestou documentos que teriam sido apresentados em seu nome. A empresa brasileira negou irregularidades. A negociação não resultou no fornecimento das doses previstas ao governo brasileiro.

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de Francisco Maximiano e Danilo Trento, entre outros envolvidos na negociação, por suspeitas relacionadas ao contrato. Também recomendou o indiciamento de Flávio Bolsonaro por incitação ao crime, no contexto mais amplo investigado pela comissão. Essas recomendações parlamentares não equivalem a condenações judiciais e devem ser diferenciadas de decisões tomadas posteriormente por autoridades competentes.

Durante uma sessão da CPI, Flávio saiu em defesa da Precisa e elogiou publicamente Emanuela Medrades, diretora da empresa, por sua atuação nas negociações. O posicionamento demonstra que o senador se manifestou sobre o caso no âmbito parlamentar, mas não comprova, por si só, participação em irregularidades na contratação.

Encontro no BNDES ocorreu três meses depois

Outro episódio descrito pela Piauí ocorreu em 20 de outubro de 2020, cerca de três meses depois do passeio de lancha. Segundo a publicação, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião virtual com Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para apresentar uma proposta empresarial de Francisco Maximiano na área de telecomunicações.

A iniciativa buscava discutir possibilidades de financiamento para um empreendimento que pretendia ampliar o acesso à internet em regiões do país. A participação do senador foi relatada anteriormente pela revista Veja, conforme a própria investigação da piauí.

Na ocasião, Flávio afirmou publicamente que não mantinha relação comercial ou financeira com Maximiano. Disse que havia pedido ao presidente do banco que conhecesse a proposta empresarial e avaliasse a possibilidade de apoio.

O BNDES informou, segundo os relatos publicados, que ocorreram reuniões para discutir a iniciativa, mas que não houve contratação de financiamento. Assim, a existência do encontro e a apresentação de um projeto empresarial não demonstram que recursos públicos tenham sido concedidos ao empresário.

A questão jornalística é verificar em que condições o acesso ao presidente do banco foi obtido, quais propostas foram apresentadas e se houve tratamento diferenciado em relação a outros interessados em financiamento público.

Viagens e relações empresariais também entram na investigação

A reportagem da Piauí menciona ainda uma viagem de Flávio Bolsonaro a Las Vegas, nos Estados Unidos, em janeiro de 2020, período em que Danilo Trento também esteve na cidade, segundo a publicação.

A viagem do senador teve despesas com diárias pagas pelo Senado. A justificativa oficial apresentada para o deslocamento incluía atividades voltadas à promoção do turismo brasileiro e à atração de investimentos no setor de cruzeiros e resorts.

A coincidência de datas despertou questionamentos durante a CPI da Pandemia. Conforme o relato publicado, Trento foi questionado sobre eventual viagem na companhia de um senador, mas invocou o direito ao silêncio. Flávio, por sua vez, declarou que não havia se reunido com o empresário em Las Vegas e negou possuir vínculo de qualquer natureza com ele.

A revista também cita uma viagem de Flávio a Miami, em janeiro de 2025, na companhia do advogado Willer Tomaz. O episódio foi mencionado em uma coluna do jornal O Globo e integra outro conjunto de questionamentos sobre relações empresariais e encontros do senador no exterior. As informações sobre a viagem, contudo, não comprovam irregularidade por si mesmas.

O que os episódios permitem afirmar

Os fatos relatados pela Piauí reúnem três dimensões que merecem análise separada: a relação entre Flávio Bolsonaro e empresários interessados em negócios com o poder público; a negociação da Covaxin, que foi investigada pela CPI da Pandemia; e os relatos sobre presentes e encontros privados durante a pandemia.

A existência de contatos entre um parlamentar e empresários não constitui automaticamente irregularidade. Para estabelecer eventual conflito de interesses ou favorecimento, seria necessário demonstrar o vínculo entre os contatos, decisões administrativas, vantagens concedidas e eventual contrapartida.

Da mesma forma, o relato sobre o relógio Rolex precisa ser confrontado com informações sobre sua origem, valor, circunstâncias da entrega e eventual declaração patrimonial ou registro pertinente. A identificação precisa do objeto também é necessária para esclarecer se o presente descrito na festa é o mesmo citado em outras publicações.

Procurados pela revista piauí, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado até o fechamento da reportagem original. Danilo Trento não respondeu às perguntas depois de receber detalhes sobre os episódios, e os advogados de Francisco Maximiano também não haviam enviado resposta, segundo a publicação. O Jornal Local não obteve confirmação independente de novas manifestações dos citados.

O acompanhamento do caso depende da análise dos documentos que sustentam os relatos, da consulta às autoridades responsáveis pelas investigações e da inclusão de eventuais respostas dos envolvidos. Até lá, os episódios descritos devem ser apresentados como informações atribuídas à reportagem original, sem antecipar conclusões sobre responsabilidade criminal ou administrativa.

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