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quarta-feira, maio 20, 2026
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ONG ligada a produtora de filme sobre Bolsonaro apresentou notas canceladas e recibos sem valor fiscal em contrato de R$ 108 milhões com Prefeitura de SP

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De acordo com a reportagem do G1, o Instituto Conhecer Brasil é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil após suspeitas em prestações de contas

De acordo com a reportagem, a ONG apresentou notas fiscais canceladas, recibos sem validade tributária e até documentos emitidos pelo próprio instituto para ele mesmo. Foto Reprodução redes sociais

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O Instituto Conhecer Brasil, ONG investigada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil por suspeitas envolvendo um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de wi-fi gratuito em periferias, apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em documentos fiscais irregulares para justificar despesas do projeto, segundo levantamento divulgado pelo G1.

A entidade é presidida pela jornalista e empresária Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com a reportagem, a ONG apresentou notas fiscais canceladas, recibos sem validade tributária e até documentos emitidos pelo próprio instituto para ele mesmo. As inconsistências aparecem nas prestações de contas entregues à gestão do prefeito Ricardo Nunes entre 2024 e 2025.

Notas canceladas e recibos sem valor fiscal

Entre os casos apontados estão documentos emitidos pela empresa Make One Tecnologia Digital Ltda. para justificar cerca de R$ 8,5 milhões em despesas com aluguel de equipamentos eletrônicos. Em vez de notas fiscais, a ONG teria apresentado apenas faturas sem valor fiscal.

Segundo especialistas em contabilidade pública ouvidos pela reportagem original, esse tipo de documento não comprova recolhimento de impostos nem possui validade tributária equivalente à nota fiscal eletrônica.

Outro caso envolve a empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., ligada ao empresário André Feldman. A companhia emitiu nota fiscal de R$ 2 milhões por serviços técnicos relacionados ao projeto de wi-fi. No entanto, o documento aparece como cancelado no sistema oficial da Prefeitura de São Paulo no mesmo dia em que foi emitido.

Mesmo cancelada, a nota foi incluída na prestação de contas entregue pela ONG ao município.

Além disso, outras notas emitidas pela empresa JR Feijão Ltda., que somam mais de R$ 406 mil, também apareceram como canceladas no Portal da Nota Fiscal Eletrônica do governo paulista, embora tenham sido usadas para justificar despesas do contrato público.

Parecer técnico apontou irregularidades graves

Documentos internos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo apontaram que o Instituto Conhecer Brasil emitiu notas fiscais para si próprio em pelo menos três situações que somam mais de R$ 1,4 milhão.

Parecer técnico assinado em fevereiro de 2026 pelos diretores Marcia Soares de Sousa e João Paulo Santana de Jesus classificou a prática como irregular e também apontou pagamentos em duplicidade que ultrapassariam R$ 925 mil.

O documento afirma que a ONG não teria devolvido integralmente valores considerados indevidos durante o exercício analisado, configurando “irregularidade grave na execução financeira da parceria”.

Apesar disso, a gestão Ricardo Nunes decidiu aprovar as contas “com ressalvas”, condicionando a manutenção do contrato à devolução de aproximadamente R$ 930 mil aos cofres municipais.

Segundo a prefeitura, o valor já teria sido restituído pelo instituto.

Conexões políticas ampliam repercussão

As investigações ganharam repercussão nacional após surgirem conexões entre o Instituto Conhecer Brasil, a produção do filme “Dark Horse” e aliados do bolsonarismo.

O deputado federal Mario Frias aparece ligado à produção do longa sobre Bolsonaro e também mantém relação profissional com empresas citadas nas prestações de contas da ONG.

Já o senador Flávio Bolsonaro admitiu recentemente ter buscado apoio financeiro junto ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, para viabilizar a produção cinematográfica.

Nos bastidores políticos, adversários do bolsonarismo passaram a questionar possíveis conexões entre contratos públicos, emendas parlamentares e o financiamento do filme.

Empresa contratada tinha dono preso por feminicídio

Outro ponto investigado envolve contrato de cerca de R$ 12 milhões firmado entre a ONG e a empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda..

Segundo a reportagem, a empresa era controlada pelo empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, preso em fevereiro sob acusação de feminicídio da companheira.

A companhia teria sido responsável pela instalação de mais de 900 pontos de internet em comunidades da capital paulista e recebeu mais de R$ 2 milhões, conforme notas apresentadas à prefeitura.

Karina Ferreira afirmou ao g1 que não reconhece parte do contrato apresentado e sugeriu a hipótese de fraude documental. Entretanto, segundo os registros analisados pela reportagem, os arquivos foram inseridos no sistema de prestação de contas pela própria ONG.

Ministério Público apura direcionamento

O Ministério Público de São Paulo confirmou que investiga o contrato em duas frentes: patrimonial e criminal.

Segundo a promotoria, há apuração sobre possível direcionamento do chamamento público, ausência de justificativa técnica para contratação da ONG, sucessivos aditivos assinados em curto intervalo de tempo e repasses antecipados para serviços ainda não executados.

A Prefeitura de São Paulo nega irregularidades estruturais no programa e afirma que o serviço segue em funcionamento com cerca de 3.200 pontos de wi-fi instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados.

Em nota, a administração municipal declarou que “qualquer relação entre a contratação do Instituto Conhecer Brasil e a produção cinematográfica é descabida” e sustentou que o contrato foi firmado antes do início da produção do filme “Dark Horse”.

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