Investigação aponta acesso da facção a documentos sigilosos, suspeitas de cooptação de agentes públicos e tentativa de aproximação com políticos fluminenses

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A Polícia Federal investiga um suposto esquema de infiltração do Comando Vermelho em estruturas do poder público do Rio de Janeiro, incluindo possíveis conexões com agentes políticos, policiais e integrantes de órgãos do sistema de Justiça. A apuração coloca no centro das investigações o traficante Edgar Alves de Andrade, apontado como uma das principais lideranças operacionais da facção, e Márcio dos Santos Nepomuceno, considerado chefe histórico do grupo criminoso.
Segundo investigadores, mesmo preso há quase duas décadas em unidade federal de segurança máxima, Marcinho VP continuaria exercendo influência sobre decisões estratégicas do CV por meio de familiares, advogados e intermediários. A polícia afirma que as ordens envolveriam disputas territoriais, definição de lideranças comunitárias e movimentação de recursos da chamada “caixinha” da facção, um sistema clandestino de arrecadação e financiamento interno.
As investigações apontam que o Comando Vermelho ampliou sua atuação econômica para além do tráfico de drogas e armas, avançando sobre serviços considerados estratégicos em comunidades dominadas pela organização. Entre as áreas citadas estão provedores clandestinos de internet, comércio informal, exploração de serviços locais e operações envolvendo criptomoedas.
Retranca — Conversas interceptadas e interesse em articulação política
Um dos trechos considerados mais sensíveis da investigação envolve mensagens interceptadas pela PF em janeiro de 2025. Segundo os investigadores, o traficante Carlos Costa Neves teria enviado a Doca uma imagem do deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos [PRD] durante agenda oficial no Palácio Guanabara ao lado do então governador Cláudio Castro [PL-RJ].
Após encaminhar a fotografia, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”. Em seguida, Doca respondeu: “Esse cara tem que vir para nós”. A PF avalia que o diálogo demonstra interesse da facção em ampliar relações políticas e construir canais de influência institucional capazes de oferecer proteção, acesso privilegiado a informações e redução de pressões policiais em territórios dominados pelo grupo criminoso.
Os investigadores também apuram suspeitas de proximidade indireta entre integrantes do meio político e lideranças do crime organizado, incluindo possíveis conexões envolvendo facções rivais, como o Terceiro Comando Puro. O procedimento tramita sob sigilo.
Retranca — Acesso a documentos sigilosos do Judiciário
Outro eixo da investigação envolve o vazamento de documentos sigilosos ligados ao sistema de Justiça fluminense. Segundo a PF, arquivos encontrados em armazenamento digital atribuído ao policial militar Luciano da Costa Ramos Junior indicariam acesso indevido a informações do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Entre os materiais apreendidos estariam minutas de decisões judiciais ainda em elaboração, endereços de mandados de busca e informações sobre medidas cautelares contra familiares de Marcinho VP e Doca. Para os investigadores, o conteúdo sugere repasse de informações “altamente sensíveis” a integrantes da facção.
As investigações também apontam suposta colaboração entre criminosos e policiais civis e militares. Em uma das conversas interceptadas, um agente identificado como “Contato Draco” agradece a um criminoso após receber informações sobre operação policial. Em outros diálogos, policiais orientariam traficantes sobre monitoramentos e trocas de aparelhos telefônicos para evitar interceptações.
A Polícia Civil informou que o caso é acompanhado pela Corregedoria-Geral de Polícia Civil em procedimento sigiloso.
Retranca — Notas dos citados
Em nota, o deputado Val Ceasa negou qualquer ligação com organizações criminosas e afirmou que sua atuação política ocorre de forma pública e institucional. Segundo o parlamentar, o fato de criminosos citarem seu nome não representa relação pessoal ou compromisso com atividades ilícitas.
Cláudio Castro também rejeitou qualquer associação com facções criminosas. O ex-governador afirmou que a fotografia mencionada pela PF retrata apenas uma reunião institucional realizada no Palácio Guanabara e destacou ações de sua gestão no combate ao crime organizado, incluindo operações policiais e investimentos em segurança pública.
A defesa de Marcinho VP afirmou que todas as visitas realizadas ao preso são monitoradas pelas autoridades federais e sustentou que qualquer alegação de comunicação criminosa dependeria da conivência de agentes públicos do sistema penitenciário. Os advogados classificaram as acusações como tentativa de utilização política do nome do traficante.
Os vereadores Ulisses Marins [União] e Jair de Mendes [PRD], citados em agendas institucionais relacionadas às investigações, também negaram qualquer vínculo com organizações criminosas e afirmaram que participam regularmente de reuniões públicas e atividades políticas oficiais.




