Victor Henrique de Oliveira Shimada foi alvo de sanções financeiras do governo dos EUA, que o acusa de integrar uma estrutura internacional de lavagem de dinheiro. No Brasil, ele é investigado em diferentes apurações conduzidas pela PC e pelo MP
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O empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada entrou na mira das autoridades brasileiras e norte-americanas após ser incluído, nesta quarta-feira (1º), na lista de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), ligado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Segundo o governo norte-americano, Shimada liderava, a partir de São Paulo, uma estrutura de lavagem de dinheiro que operava em conjunto com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) estabelecidos na Flórida, movimentando mais de US$ 30 milhões provenientes, segundo as autoridades dos EUA, do tráfico internacional de drogas por meio de operações com criptomoedas.
As medidas representam as primeiras sanções financeiras impostas pelo governo dos Estados Unidos contra brasileiros após a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. Além de Shimada, também foi sancionada sua empresa, Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobrança e Tecnologia Ltda.
No Brasil, Victor Shimada é investigado pela Polícia Civil no inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o contrato de patrocínio entre o Corinthians e a VaideBet. De acordo com os investigadores, a Victory Trading teria atuado como uma “conta de passagem”, recebendo recursos de empresas investigadas e redistribuindo os valores para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.
Segundo os relatórios policiais, a empresa movimentou milhões de reais em operações financeiras consideradas atípicas, incluindo transações que poderiam estar relacionadas à aquisição de criptomoedas, mecanismo frequentemente utilizado para dificultar o acompanhamento da circulação de recursos.
As investigações apontam ainda uma conexão financeira entre a Victory Trading e a Wave Intermediações e Tecnologias Ltda., empresa considerada peça central na apuração do caso VaideBet. A Polícia Civil sustenta que Victor Shimada teria atuado nos bastidores da Wave e convencido Inauê Santiago Carneiro a figurar formalmente como sócio da empresa, embora haja suspeita de que ele exercesse apenas a função de “laranja”. Entre os elementos apontados pelos investigadores estão registros de abertura de contas bancárias realizados pelos dois no mesmo local.
Outro eixo das investigações envolve a empresa UJ Football Talent. Conforme relatório policial, a Victory Trading transferiu R$ 200 mil para a empresa em março de 2024, poucos dias após receber valores milionários da Wave. A UJ Football Talent foi mencionada na delação premiada de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach como uma empresa supostamente utilizada para lavagem de dinheiro ligada ao agente de jogadores Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, citado nas investigações como integrante do PCC.
Apesar dessas conexões financeiras, os investigadores não afirmam que Victor Shimada seja integrante da facção criminosa. Os relatórios sustentam que ele aparece em um fluxo financeiro que cruza empresas e pessoas mencionadas em investigações relacionadas ao PCC.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, referência nacional no combate ao crime organizado, afirmou que o Ministério Público de São Paulo não possui elementos que indiquem que Victor Shimada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira ou empresas ligadas a eles integrem ou atuem diretamente para o PCC. “Aqui no Ministério Público de São Paulo não há nenhuma informação de que o Victor, ou mesmo de que a Stella, ou as empresas ligadas a eles, sejam ou estejam relacionados de alguma forma com o PCC. Nenhuma investigação do Ministério Público aqui aponta para isso”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Nós não temos informação de que ele faça a lavagem para o PCC. A não ser que o FBI e o Departamento de Estado norte-americano tenham conseguido essas provas lá.”
As investigações também identificaram repasses financeiros da Victory Trading para a Buzeira Digital, empresa do influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira. Segundo a Polícia Civil, foram transferidos R$ 1 milhão em duas operações realizadas em 1º de abril de 2024 e outros R$ 300 mil em 22 de abril do mesmo ano, totalizando R$ 1,3 milhão em menos de um mês.
Para os investigadores, as transferências chamam atenção porque ocorreram logo após a Victory Trading receber recursos milionários da Wave Intermediações e poucos dias depois de efetuar pagamentos para a UJ Football Talent. Os relatórios de inteligência financeira apontam um “entrelaçamento atípico” entre as movimentações das empresas de Victor Shimada e Buzeira, hipótese que reforçaria, segundo a investigação, o uso da Victory Trading como empresa destinada a pulverizar recursos financeiros.
Buzeira está preso desde outubro de 2025, quando foi alvo da Operação Narco Bet, da Polícia Federal, desdobramento da Operação Narco Vela, que investiga um esquema de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro. A Polícia Civil também apura suspeitas de ligação do influenciador com um traficante conhecido como “Neymar do PCC”. Até o momento, não há condenação definitiva contra Buzeira ou Victor Shimada pelos fatos investigados.
Além das investigações relacionadas à lavagem de dinheiro, Victor Shimada responde na Justiça a processos por ameaça, violência doméstica e familiar, injúria e lesão corporal dolosa, sem relação direta com as apurações sobre organizações criminosas.
Até a publicação desta reportagem, as defesas de Victor Henrique de Oliveira Shimada e da Victory Trading não haviam se manifestado sobre as sanções impostas pelos Estados Unidos nem sobre os fatos investigados. O espaço permanece aberto para manifestação.




