
Apurações conduzidas pela Polícia Federal e processos administrativos da Comissão de Valores Imobiliários (CVM) alcançam operações financeiras, agentes públicos, empresas e troca de informações; em setembro, STF determinou nova investigação sobre a atuação da autarquia
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A investigação envolvendo o Banco Master reúne, em diferentes procedimentos, operações financeiras, dirigentes e empresas ligadas ao grupo, operações com o Banco de Brasília (BRB), parlamentares, monitoramento de pessoas, atuação em redes sociais e procedimentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Polícia Federal abriu diferentes fases da Operação Compliance Zero, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou medidas cautelares e passou a analisar procedimentos relacionados ao caso. Em 24 de setembro de 2026, o ministro Flávio Dino determinou que a PF investigasse possíveis crimes e interferências indevidas na atuação da CVM.
A apuração sobre a CVM tem origem em um grupo de trabalho criado pela própria autarquia em fevereiro de 2026. O levantamento analisou 314 processos relacionados ao Grupo Master, à REAG e a entidades conexas, instaurados a partir de 2017. Segundo a CVM, 230 processos apresentavam falhas relacionadas à divulgação ou prestação de informações e 100 registravam falhas de conformidade e controles internos. O relatório também identificou indícios de insider trading, fraude contra investidores e manipulação de mercado. A autarquia ressalvou que essas categorias representam condutas identificadas pelas áreas técnicas e não constituem, por si, julgamento definitivo de responsabilidade.
2022: denúncia encaminhada pelo FGC
Em 18 de fevereiro de 2022, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) encaminhou à CVM uma comunicação sobre possíveis irregularidades relacionadas ao Grupo Master. O documento mencionava, entre outros pontos, insuficiência financeira, inconsistências contábeis, possíveis problemas na cotação de fundos e aplicação de recursos em ativos de baixa liquidez. A comunicação foi registrada no processo SEI nº 19957.001206/2022-08.
Segundo informações posteriormente analisadas pelo grupo de trabalho da CVM, a comunicação foi tratada pela área técnica como denúncia anônima e arquivada. O episódio voltou a ser analisado em 2026, durante o levantamento dos procedimentos envolvendo o grupo.
O grupo de trabalho da CVM informou que, antes mesmo dessa comunicação, já existiam processos relacionados ao grupo. O levantamento registrou 314 processos instaurados desde 2017 e apontou que 131 deles foram abertos somente em 2025.
2024: investigação policial ganha forma
As apurações que posteriormente deram origem à Operação Compliance Zero avançaram em 2024. A investigação passou a examinar operações envolvendo carteiras de crédito e instituições financeiras.
18 de novembro de 2025: Operação Compliance Zero
A Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero em 18 de novembro de 2025. Segundo o Tribunal de Contas do Distrito Federal, a investigação envolvia suspeitas de fabricação de carteiras de crédito consideradas insubsistentes e posterior negociação desses ativos com o BRB. O TCDF também registrou investigações sobre operações realizadas entre as duas instituições.
A operação resultou na prisão de executivos e ex-executivos do Banco Master e no afastamento temporário da diretoria do BRB, incluindo o então presidente Paulo Henrique Costa.
Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, passou a ocupar posição central na investigação policial.
Janeiro de 2026: procedimentos chegam ao STF
Em janeiro de 2026, procedimentos relacionados à investigação passaram a tramitar no Supremo. Em 29 de janeiro, o ministro Dias Toffoli retirou o sigilo de depoimentos e de uma acareação relacionados à investigação sobre a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB.
A tramitação no STF ampliou o número de decisões judiciais relacionadas às investigações, incluindo medidas de busca, apreensão, quebra de sigilo e outras providências cautelares.
Maio de 2026: investigação sobre Ciro Nogueira
Em 7 de maio, o ministro André Mendonça autorizou nova fase da Operação Compliance Zero envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Segundo o STF, a Polícia Federal investigava uma possível atuação do senador em favor de interesses de Daniel Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A decisão também determinou a prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro e estabeleceu medidas cautelares para o parlamentar e outros investigados.
Entre os elementos citados na decisão estão uma emenda apresentada por Ciro Nogueira à PEC 65/2023, relacionada ao aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, além de informações sobre pagamentos, participação societária, imóvel, viagens e outros benefícios que, segundo a investigação, teriam relação com o senador.
Junho de 2026: Jaques Wagner
Em 18 de junho, André Mendonça autorizou a 9ª fase da Operação Compliance Zero, com medidas em São Paulo, Bahia e Distrito Federal. Segundo o STF, a Polícia Federal investigava possíveis relações entre Augusto Ferreira Lima, Daniel Vorcaro e o senador Jaques Wagner (PT-BA), além da hipótese de atuação parlamentar em temas de interesse do Banco Master em troca de vantagens indevidas.
A investigação mencionou temas como ampliação do crédito consignado, aumento do limite de cobertura do FGC e iniciativas relacionadas à aquisição do Banco Master pelo BRB. Também foram identificados, segundo a decisão, mensagens, áudios, registros de chamadas, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários e planilhas de pagamentos.
Mendonça autorizou buscas em endereços particulares relacionados ao senador, mas não autorizou as medidas em espaços vinculados ao exercício do mandato, como gabinete parlamentar e escritório de apoio político. Também determinou restrições de contato e de atuação econômica relacionadas às empresas investigadas.
Julho de 2026: investigação chega às redes sociais
Em 9 de julho, a Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da Operação Compliance Zero. A PF informou que investigava uma possível atuação coordenada em redes sociais destinada, em tese, a comprometer a credibilidade da atuação do Banco Central.
A mesma fase incluiu investigação sobre possível organização criminosa dedicada à intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, obtenção indevida de informações sigilosas e medidas destinadas a interferir em investigações criminais. Foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão em Brasília, expedidos pelo STF.
Setembro de 2026: STF determina investigação sobre a CVM
Em 24 de setembro, Flávio Dino determinou que a Polícia Federal abrisse investigação sobre possíveis crimes e interferências indevidas na atuação da CVM relacionadas ao caso Master. A decisão foi tomada com base no relatório produzido pelo grupo de trabalho da própria autarquia.
O relatório examinou 314 processos administrativos. Segundo a CVM, 230 apresentavam falhas de divulgação ou prestação de informações e 100 apresentavam falhas de conformidade e controles internos. Também foram identificados processos com referências a possíveis fraudes contra investidores, uso de informação privilegiada e manipulação de mercado.
O levantamento registrou ainda que 165 dos 314 processos tiveram origem em fontes externas, entre elas denúncias de pessoas físicas e jurídicas, comunicações da B3/BSM, do Banco Central e de outras autoridades. Foram identificadas 13 comunicações formais da CVM a outras instituições entre junho de 2017 e janeiro de 2026.
Dino determinou que a PF apure os fatos relacionados à atuação da autarquia. A decisão também determinou o fornecimento de documentos e informações sobre a tramitação dos procedimentos analisados.
CVM já aplicou multas em processos relacionados ao Master
A investigação sobre a atuação da CVM ocorre paralelamente a processos administrativos sancionadores da própria autarquia. Em 8 de setembro, o Colegiado da CVM julgou processo que envolvia, entre outros, o Banco Master, Daniel Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro. Em 16 de setembro, a autarquia informou que as multas aplicadas nos processos julgados naquela sessão somavam mais de R$ 200 milhões.
A existência desses processos administrativos não significa que todos os nomes relacionados aos procedimentos tenham recebido a mesma decisão ou tenham sido responsabilizados pelos mesmos fatos. As decisões são individuais e podem estar sujeitas a recursos, conforme o processo.
Quem aparece nos diferentes núcleos
| Nome / instituição | Como aparece no caso | Informação documentada |
|---|---|---|
| Daniel Vorcaro | Banco Master | Controlador do Banco Master e personagem central das investigações relacionadas às operações financeiras examinadas pela Polícia Federal. |
| Paulo Henrique Costa | Banco de Brasília (BRB) | Ex-presidente do BRB, instituição envolvida nas operações com o Banco Master que foram objeto de investigação. |
| Felipe Cançado Vorcaro | Grupo Master | Parente de Daniel Vorcaro. Foi alvo de medidas judiciais em uma das fases da Operação Compliance Zero e também aparece em processos administrativos da CVM. |
| Henrique Moura Vorcaro | Grupo Master | Parente de Daniel Vorcaro e citado em processos administrativos da CVM relacionados ao grupo. |
| Augusto Ferreira Lima | Banco Master | Gestor do Banco Master citado na 9ª fase da Operação Compliance Zero, juntamente com Daniel Vorcaro. |
| Ciro Nogueira (PP-PI) | Investigação sobre agentes públicos | Senador investigado em fase específica da Operação Compliance Zero. Segundo a decisão do STF, a investigação envolve a hipótese de atuação em favor de interesses relacionados ao Banco Master em troca de vantagens indevidas. |
| Jaques Wagner (PT-BA) | Investigação sobre agentes públicos | Senador alvo de medidas na 9ª fase da Operação Compliance Zero. Segundo o STF, a investigação trata de possível relação com gestores do Banco Master e da hipótese de atuação parlamentar em temas de interesse da instituição. |
| CVM | Fiscalização do mercado de capitais | Autarquia responsável pela fiscalização e regulação do mercado de capitais. Em 2026, grupo de trabalho analisou 314 processos relacionados ao Grupo Master, REAG e entidades conexas. O resultado foi encaminhado ao STF. |
O que está documentado até agora
A documentação pública disponível reúne investigações policiais, decisões judiciais, processos administrativos e decisões da CVM. No âmbito administrativo, a CVM já julgou processos e aplicou sanções em casos relacionados ao Banco Master.
No âmbito criminal, a Polícia Federal mantém diferentes frentes da Operação Compliance Zero, com objetos de investigação que incluem operações financeiras, relações com agentes públicos, atuação em redes sociais, monitoramento e possível interferência em investigações.
No STF, a investigação sobre a atuação da CVM foi determinada em 24 de setembro de 2026 e ainda está em fase de apuração. Os diferentes procedimentos possuem objetos, investigados e estágios processuais próprios. A inclusão de uma pessoa, empresa ou instituição em relatório, processo administrativo, investigação policial ou decisão judicial não equivale, por si só, a condenação criminal.


