Operação Compliance Zero: Investigações da PF no caso Master revela uma teia que envolve dinheiro, políticos e a CVM

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Senador investigado em fase específica da Operação Compliance Zero. A investigação autorizada pelo STF envolve possível atuação em favor de interesses de Daniel Vorcaro em troca de vantagens indevidas. FotoWaldemir Barreto/Agência Senado/Divulgação

Apurações conduzidas pela Polícia Federal e processos administrativos da Comissão de Valores Imobiliários (CVM) alcançam operações financeiras, agentes públicos, empresas e troca de informações; em setembro, STF determinou nova investigação sobre a atuação da autarquia

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A investigação envolvendo o Banco Master reúne, em diferentes procedimentos, operações financeiras, dirigentes e empresas ligadas ao grupo, operações com o Banco de Brasília (BRB), parlamentares, monitoramento de pessoas, atuação em redes sociais e procedimentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Polícia Federal abriu diferentes fases da Operação Compliance Zero, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou medidas cautelares e passou a analisar procedimentos relacionados ao caso. Em 24 de setembro de 2026, o ministro Flávio Dino determinou que a PF investigasse possíveis crimes e interferências indevidas na atuação da CVM.

A apuração sobre a CVM tem origem em um grupo de trabalho criado pela própria autarquia em fevereiro de 2026. O levantamento analisou 314 processos relacionados ao Grupo Master, à REAG e a entidades conexas, instaurados a partir de 2017. Segundo a CVM, 230 processos apresentavam falhas relacionadas à divulgação ou prestação de informações e 100 registravam falhas de conformidade e controles internos. O relatório também identificou indícios de insider trading, fraude contra investidores e manipulação de mercado. A autarquia ressalvou que essas categorias representam condutas identificadas pelas áreas técnicas e não constituem, por si, julgamento definitivo de responsabilidade.

2022: denúncia encaminhada pelo FGC

Em 18 de fevereiro de 2022, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) encaminhou à CVM uma comunicação sobre possíveis irregularidades relacionadas ao Grupo Master. O documento mencionava, entre outros pontos, insuficiência financeira, inconsistências contábeis, possíveis problemas na cotação de fundos e aplicação de recursos em ativos de baixa liquidez. A comunicação foi registrada no processo SEI nº 19957.001206/2022-08.

Segundo informações posteriormente analisadas pelo grupo de trabalho da CVM, a comunicação foi tratada pela área técnica como denúncia anônima e arquivada. O episódio voltou a ser analisado em 2026, durante o levantamento dos procedimentos envolvendo o grupo.

O grupo de trabalho da CVM informou que, antes mesmo dessa comunicação, já existiam processos relacionados ao grupo. O levantamento registrou 314 processos instaurados desde 2017 e apontou que 131 deles foram abertos somente em 2025.

2024: investigação policial ganha forma

As apurações que posteriormente deram origem à Operação Compliance Zero avançaram em 2024. A investigação passou a examinar operações envolvendo carteiras de crédito e instituições financeiras.

18 de novembro de 2025: Operação Compliance Zero

A Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero em 18 de novembro de 2025. Segundo o Tribunal de Contas do Distrito Federal, a investigação envolvia suspeitas de fabricação de carteiras de crédito consideradas insubsistentes e posterior negociação desses ativos com o BRB. O TCDF também registrou investigações sobre operações realizadas entre as duas instituições.

A operação resultou na prisão de executivos e ex-executivos do Banco Master e no afastamento temporário da diretoria do BRB, incluindo o então presidente Paulo Henrique Costa.

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, passou a ocupar posição central na investigação policial.

Janeiro de 2026: procedimentos chegam ao STF

Em janeiro de 2026, procedimentos relacionados à investigação passaram a tramitar no Supremo. Em 29 de janeiro, o ministro Dias Toffoli retirou o sigilo de depoimentos e de uma acareação relacionados à investigação sobre a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB.

A tramitação no STF ampliou o número de decisões judiciais relacionadas às investigações, incluindo medidas de busca, apreensão, quebra de sigilo e outras providências cautelares.

Maio de 2026: investigação sobre Ciro Nogueira

Em 7 de maio, o ministro André Mendonça autorizou nova fase da Operação Compliance Zero envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Segundo o STF, a Polícia Federal investigava uma possível atuação do senador em favor de interesses de Daniel Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A decisão também determinou a prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro e estabeleceu medidas cautelares para o parlamentar e outros investigados.

Entre os elementos citados na decisão estão uma emenda apresentada por Ciro Nogueira à PEC 65/2023, relacionada ao aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, além de informações sobre pagamentos, participação societária, imóvel, viagens e outros benefícios que, segundo a investigação, teriam relação com o senador.

Junho de 2026: Jaques Wagner

Em 18 de junho, André Mendonça autorizou a 9ª fase da Operação Compliance Zero, com medidas em São Paulo, Bahia e Distrito Federal. Segundo o STF, a Polícia Federal investigava possíveis relações entre Augusto Ferreira Lima, Daniel Vorcaro e o senador Jaques Wagner (PT-BA), além da hipótese de atuação parlamentar em temas de interesse do Banco Master em troca de vantagens indevidas.

A investigação mencionou temas como ampliação do crédito consignado, aumento do limite de cobertura do FGC e iniciativas relacionadas à aquisição do Banco Master pelo BRB. Também foram identificados, segundo a decisão, mensagens, áudios, registros de chamadas, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários e planilhas de pagamentos.

Mendonça autorizou buscas em endereços particulares relacionados ao senador, mas não autorizou as medidas em espaços vinculados ao exercício do mandato, como gabinete parlamentar e escritório de apoio político. Também determinou restrições de contato e de atuação econômica relacionadas às empresas investigadas.

Julho de 2026: investigação chega às redes sociais

Em 9 de julho, a Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da Operação Compliance Zero. A PF informou que investigava uma possível atuação coordenada em redes sociais destinada, em tese, a comprometer a credibilidade da atuação do Banco Central.

A mesma fase incluiu investigação sobre possível organização criminosa dedicada à intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, obtenção indevida de informações sigilosas e medidas destinadas a interferir em investigações criminais. Foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão em Brasília, expedidos pelo STF.

Setembro de 2026: STF determina investigação sobre a CVM

Em 24 de setembro, Flávio Dino determinou que a Polícia Federal abrisse investigação sobre possíveis crimes e interferências indevidas na atuação da CVM relacionadas ao caso Master. A decisão foi tomada com base no relatório produzido pelo grupo de trabalho da própria autarquia.

O relatório examinou 314 processos administrativos. Segundo a CVM, 230 apresentavam falhas de divulgação ou prestação de informações e 100 apresentavam falhas de conformidade e controles internos. Também foram identificados processos com referências a possíveis fraudes contra investidores, uso de informação privilegiada e manipulação de mercado.

O levantamento registrou ainda que 165 dos 314 processos tiveram origem em fontes externas, entre elas denúncias de pessoas físicas e jurídicas, comunicações da B3/BSM, do Banco Central e de outras autoridades. Foram identificadas 13 comunicações formais da CVM a outras instituições entre junho de 2017 e janeiro de 2026.

Dino determinou que a PF apure os fatos relacionados à atuação da autarquia. A decisão também determinou o fornecimento de documentos e informações sobre a tramitação dos procedimentos analisados.

CVM já aplicou multas em processos relacionados ao Master

A investigação sobre a atuação da CVM ocorre paralelamente a processos administrativos sancionadores da própria autarquia. Em 8 de setembro, o Colegiado da CVM julgou processo que envolvia, entre outros, o Banco Master, Daniel Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro. Em 16 de setembro, a autarquia informou que as multas aplicadas nos processos julgados naquela sessão somavam mais de R$ 200 milhões.

A existência desses processos administrativos não significa que todos os nomes relacionados aos procedimentos tenham recebido a mesma decisão ou tenham sido responsabilizados pelos mesmos fatos. As decisões são individuais e podem estar sujeitas a recursos, conforme o processo.

Quem aparece nos diferentes núcleos

Nome / instituiçãoComo aparece no casoInformação documentada
Daniel VorcaroBanco MasterControlador do Banco Master e personagem central das investigações relacionadas às operações financeiras examinadas pela Polícia Federal.
Paulo Henrique CostaBanco de Brasília (BRB)Ex-presidente do BRB, instituição envolvida nas operações com o Banco Master que foram objeto de investigação.
Felipe Cançado VorcaroGrupo MasterParente de Daniel Vorcaro. Foi alvo de medidas judiciais em uma das fases da Operação Compliance Zero e também aparece em processos administrativos da CVM.
Henrique Moura VorcaroGrupo MasterParente de Daniel Vorcaro e citado em processos administrativos da CVM relacionados ao grupo.
Augusto Ferreira LimaBanco MasterGestor do Banco Master citado na 9ª fase da Operação Compliance Zero, juntamente com Daniel Vorcaro.
Ciro Nogueira (PP-PI)Investigação sobre agentes públicosSenador investigado em fase específica da Operação Compliance Zero. Segundo a decisão do STF, a investigação envolve a hipótese de atuação em favor de interesses relacionados ao Banco Master em troca de vantagens indevidas.
Jaques Wagner (PT-BA)Investigação sobre agentes públicosSenador alvo de medidas na 9ª fase da Operação Compliance Zero. Segundo o STF, a investigação trata de possível relação com gestores do Banco Master e da hipótese de atuação parlamentar em temas de interesse da instituição.
CVMFiscalização do mercado de capitaisAutarquia responsável pela fiscalização e regulação do mercado de capitais. Em 2026, grupo de trabalho analisou 314 processos relacionados ao Grupo Master, REAG e entidades conexas. O resultado foi encaminhado ao STF.

O que está documentado até agora

A documentação pública disponível reúne investigações policiais, decisões judiciais, processos administrativos e decisões da CVM. No âmbito administrativo, a CVM já julgou processos e aplicou sanções em casos relacionados ao Banco Master.

No âmbito criminal, a Polícia Federal mantém diferentes frentes da Operação Compliance Zero, com objetos de investigação que incluem operações financeiras, relações com agentes públicos, atuação em redes sociais, monitoramento e possível interferência em investigações.

No STF, a investigação sobre a atuação da CVM foi determinada em 24 de setembro de 2026 e ainda está em fase de apuração. Os diferentes procedimentos possuem objetos, investigados e estágios processuais próprios. A inclusão de uma pessoa, empresa ou instituição em relatório, processo administrativo, investigação policial ou decisão judicial não equivale, por si só, a condenação criminal.

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