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sexta-feira, março 13, 2026
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Um novo entendimento sobre o glaucoma

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Durante muito tempo, o glaucoma foi definido como sendo uma pressão intra-ocular elevada que levava à perda da visão. Durante anos, os oftalmologistas souberam que havia falhas nessa definição, pois muitas pessoas com pressão intra-ocular elevada nunca desenvolveram glaucoma. E muitos, um em cada três, que sofrem com a doença, apresentam uma pressão intra-ocular normal ou mesmo baixa.

Como os oftalmologistas têm tentado resolver essas contradições, um novo paradigma para a compreensão do glaucoma vem surgindo e tomando força. “O glaucoma agora não é mais visto apenas como uma doença dos olhos, mas sim como uma doença nervosa degenerativa”, explica o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares.

Mesmo a definição oficial do glaucoma, uma doença que responde por mais de oito milhões de casos de cegueira no mundo, mudou. “Hoje, o diagnóstico pode ser baseado em apenas uma evidência: danos visíveis ao nervo óptico. Assim, a pressão intra-ocular está longe de ser um critério que define a doença. Ela continua sendo, no entanto, o principal fator de risco para a doença”, destaca o oftalmologista Ricardo Giacometti Machado, que também integra o corpo clínico do IMO.

O glaucoma, hoje…

Hoje, está claro que o glaucoma começa com uma lesão às fibras nervosas que compõem o nervo óptico e é progressivo. “No glaucoma, quando as células ganglionares da retina estão doentes, os axônios longos, células que fazem a ligação entre os olhos e o cérebro, também são afetados, resultando em mudanças no centro de visão do cérebro. O fenômeno, chamado de dano trans-sináptico também ocorre na doença de Alzheimer e na doença de Parkinson”, explica o oftalmologista Ricardo Giacometti Machado.

Segundo o médico, especialistas no mundo inteiro ainda estão pesquisando o que causa a lesão inicial no nervo óptico. “Embora a pressão intra-ocular elevada claramente aumente o perigo de lesão ao nervo óptico, alguns pesquisadores suspeitam que grandes flutuações na pressão possam ser ainda mais prejudiciais”, diz Ricardo Machado.

Outra culpada pela lesão ao nervo óptico pode ser a pressão de perfusão, ou seja, a diferença entre a pressão dentro do olho e a pressão sanguínea. Uma baixa pressão de perfusão ocorre quando a pressão dentro do olho está elevada e a pressão arterial sistêmica é baixa. “Quando a pressão de perfusão cai, não há fluxo de sangue suficiente chegando ao nervo óptico e à retina. A falta de fluxo sanguíneo adequado pode prejudicar não apenas o nervo óptico, mas também os tecidos à sua volta”, alerta o médico.

Diante destas possibilidades, é possível pensar que algumas pessoas podem apresentar nervos ópticos que são mais ou menos vulneráveis a uma variedade de estresses e mudanças metabólicas. “Essa possibilidade levou a uma busca por drogas para proteger os nervos mais suscetíveis à lesões. Vários candidatos promissores estão sob investigação, incluindo uma droga chamada Namenda, aprovada para o tratamento do Alzheimer, e o Rilutek, usado para tratar a doença de Lou Gehrig”,conta Ricardo Giacometti Machado.

Há um crescente otimismo entre a comunidade científica de que o que funciona para uma doença neurodegenerativa, como estes exemplos sugerem, pode ser útil para as demais.  Para os pesquisadores que tentam compreender os detalhes dos distúrbios neurodegenerativos, o glaucoma pode se transformar num modelo de estudo mais fácil do que uma doença do cérebro, como o Alzheimer. “O nervo óptico é o único nervo que pode ser examinado visualmente, olhando através da pupila. E o sistema visual é uma estrutura relativamente compacta que os pesquisadores já compreendem completamente”, afirma o médico.

O difícil tratamento do glaucoma…

Por enquanto, os tratamentos disponíveis para o glaucoma trabalham com a redução da pressão intra-ocular, seja através da diminuição da produção de líquido ou aumentando a sua saída. “Mesmo em pacientes com pressão intra-ocular normal, apresentando os primeiros sinais da doença, diminuir a pressão tem reduzido significativamente a progressão de dano do nervo”, esclarece Ricardo Giacometti Machado.

A maioria dos medicamentos antiglaucomatosos são colírios, que precisam ser usados uma vez ou várias vezes por dia. Quando os colírios não são suficientes, tratamentos a laser e a cirurgia podem ser empregados para permitir uma melhor drenagem do humor aquoso, o líquido que preenche o olho.

“Apesar de contarmos com tratamentos eficazes, muitos pacientes ainda sofrem alguma perda de visão. A explicação para este fato é que, quando está no inicio, a doença pode passar despercebida e não ser diagnosticada. Em todo o mundo, cerca de 60 milhões de pessoas têm glaucoma, esse número deve chegar a 80 milhões até 2020. O pior, neste cenário, é que cerca da metade das pessoas com glaucoma ainda não foram diagnosticadas”, alerta o médico.

Segundo Ricardo Giacometti Machado, outro obstáculo no tratamento da doença é convencer os pacientes já diagnosticados a fazer o uso contínuo dos medicamentos. “Como o glaucoma é tipicamente diagnosticado antes que os pacientes percebam quaisquer problemas de visão, dizer-lhes que eles podem ter problemas sérios de visão se não usarem os colírios é como dizer a alguém com colesterol alto que ele pode ter um ataque cardíaco, se não tomar uma estatina. Muitas pessoas não levam esta advertência a sério”, destaca o oftalmologista.

“Enquanto oftalmologistas no mundo inteiro buscam melhores tratamentos para o glaucoma, as pessoas podem adotar duas medidas muito efetivas em relação à doença: a primeira, fazer um exame anual para o rastreamento do glaucoma, e, a segunda é levar o tratamento a sério, ou seja, usar a medicação prescrita, caso a doença seja diagnosticada”, diz o oftalmologista Ricardo Giacometti Machado.

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