Mello Franco: “Posse de Ernesto Araújo foi o samba do diplomata doido”

0
163
jornalista Bernardo Mello Franco ironizou o discurso de posse do novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Segundo o jornalista, o novo chanceler misturou referências a Renato Russo, Tarcísio Meira, Raul Seixas e um seguidor anônimo no Twitter
Dentro de uma instituição centenária, caracterizada por um senso de hierarquia e que construiu sua reputação internacional calcada nas negociações multilaterais, a chegada de Ernesto Araújo é encarada por muitos diplomatas com profunda desconfiança.

 

“Diante de olhares espantados, exaltou o ideólogo Olavo de Carvalho e mandou os funcionários do Ministério das Relações Exteriores lerem “menos New York Times e mais José de Alencar”. Repetiu a cantilena contra o “globalismo”, avisou que “não tem medo de sofrer” e prometeu “libertar a política externa e o Itamaraty”, rela Franco.

Para ele, “num governo que terá a pastora Damares Alves como ministra, o novo chanceler consegue chamar a atenção pelo exotismo. Uma façanha”.

Política externa ideológica

Para além das bizarrices de seu discurso, a posse do novo chanceler do Brasil significou uma ruptura com tradição multilateral da diplomacia do país e frustrou quem esperava tom moderado ou menos ideológico depois da transição.

Durante 30 minutos, o senador Aloysio Nunes (PSDB), que esteve à frente da diplomacia brasileira nos últimos dois anos, fez um discurso defendendo que o país mantenha o multilateralismo e o pragmatismo como diretrizes da política externa brasileira. Quando chegou a vez de o novo chanceler falar, Ernesto Henrique Fraga Araújo precisou de tempo semelhante para confirmar que, ao menos na retórica, promoverá um giro ideológico sem precedentes.

Araújo disparou críticas à ordem global vigente e ao que chamou de globalismo; valeu-se de citações em grego, latim e tupi; mencionou de São João a Olavo de Carvalho e rasgou loas aos governos populistas de direita nos Estados Unidos, Israel, Itália, Hungria e Polônia.

“O presidente Bolsonaro está libertando o Brasil por meio da verdade. Nós vamos também libertar a política externa e libertar o Itamaraty como o presidente Bolsonaro prometeu que faríamos em seu discurso de vitória”, declarou Araújo, no que foi certamente o momento mais constrangedor da cerimônia. Nesse ponto, apenas uma pequena parte das dezenas de diplomatas, políticos e embaixadores presentes aplaudiu efusivamente o novo chanceler. O restante dos que acompanhavam o ato na sala de recepções do Palácio do Itamaraty se manteve em silêncio.

Dentro de uma instituição centenária, caracterizada por um senso de hierarquia e que construiu sua reputação internacional calcada nas negociações multilaterais, a chegada de Ernesto Araújo é encarada por muitos diplomatas com profunda desconfiança. Há também expectativa entre os parceiros do país e o menor número de delegações estrangeiras presentes na posse de Bolsonaro (46 contra 110 no caso de Dilma e 120 com Fernando Henrique Cardoso) foi considerado um sintoma inquietante. E, para quem esperava que o chanceler moderaria o tom uma vez empossado ministro, seu pronunciamento foi um balde de água fria.

Com informações do El País

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui