Exército colocou drones entre os programas estratégicos e já testa tecnologias com inteligência artificial; experiência do Irã e da guerra na Ucrânia aumenta pressão por sistemas mais baratos e produzidos em escala
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O Brasil está ampliando a presença dos drones na estratégia de defesa enquanto mantém investimentos em projetos de alta complexidade, como o submarino de propulsão nuclear. O movimento ganhou força dentro das Forças Armadas e inclui desenvolvimento de sistemas não tripulados, inteligência artificial, vigilância e defesa contra drones. No Exército, “Drones, IA e Defesa Cibernética” passou a integrar o novo Portfólio Estratégico da Força, que reúne sete programas prioritários.
A mudança ocorre em um cenário internacional no qual drones relativamente baratos passaram a desempenhar papel central nos conflitos. O modelo iraniano Shahed, utilizado em larga escala pela Rússia na guerra contra a Ucrânia, tornou-se símbolo de uma nova lógica militar: utilizar equipamentos de menor custo em grande quantidade para pressionar sistemas de defesa muito mais caros.
A questão que começa a ganhar importância para o Brasil é se o país conseguirá combinar projetos estratégicos de alto valor, como o submarino nuclear, com uma capacidade nacional de produzir drones em escala e a custos menores. As informações públicas disponíveis mostram que as Forças Armadas já estão caminhando nessa direção, mas não há anúncio oficial de um programa brasileiro destinado especificamente a reproduzir o modelo dos drones Shahed iranianos.
Exército coloca drones entre prioridades
A reestruturação do Portfólio Estratégico do Exército, formalizada em março de 2026, incluiu o programa “Drones, IA e Defesa Cibernética” entre as sete prioridades da Força. A mudança representa uma adaptação à transformação tecnológica do campo de batalha, na qual sistemas não tripulados passaram a ser empregados para reconhecimento, vigilância, inteligência e outras funções.
Em julho, o Exército informou que estava avaliando drones produzidos pela Base Industrial de Defesa e apresentou sistemas que incorporam inteligência artificial para controlar enxames de drones em operações militares. A iniciativa mostra que a preocupação não está apenas na compra de equipamentos prontos, mas também no desenvolvimento de capacidades nacionais.
A lógica dos enxames é particularmente relevante porque permite utilizar vários equipamentos coordenados para ampliar a cobertura de uma determinada área. Em vez de depender exclusivamente de uma plataforma sofisticada e cara, diferentes drones podem executar tarefas complementares.
A lição do Irã
O Irã ganhou destaque internacional pelo desenvolvimento de drones de ataque de baixo custo, especialmente a família Shahed. Esses equipamentos passaram a ser utilizados em ataques de longo alcance e, posteriormente, foram empregados em grande escala pela Rússia.
A principal característica desse modelo não é necessariamente a sofisticação tecnológica comparável às aeronaves militares mais avançadas. O diferencial está na relação entre custo, alcance e possibilidade de produção em quantidade. O Shahed-136 tornou-se um exemplo de como uma arma relativamente barata pode obrigar o adversário a gastar muito mais para detectá-la e destruí-la.
Essa equação econômica transformou os drones em uma preocupação para forças militares de diferentes países. A questão passou a ser não apenas “qual é o melhor equipamento?”, mas também “quanto custa neutralizar cada equipamento inimigo?”.
Essa diferença pode produzir uma situação de desequilíbrio. Se um drone custa dezenas de milhares de dólares e o sistema utilizado para interceptá-lo custa centenas de milhares ou milhões, uma campanha baseada em grandes quantidades pode pressionar financeiramente a defesa adversária.
Brasil ainda não anunciou um “Shahed brasileiro”
Apesar da evolução dos programas nacionais de drones, é necessário separar o que já está confirmado do que ainda é uma possibilidade.
O Brasil possui projetos de drones militares nacionais e vem ampliando o emprego desses sistemas. O Exército já avalia equipamentos da indústria brasileira, enquanto a FAB também participa do desenvolvimento de plataformas não tripuladas.
Há também projetos de baixo custo em desenvolvimento no país. Informações divulgadas sobre iniciativas da Marinha, por exemplo, apontam para protótipos com custo na casa de dezenas de milhares de reais. Entretanto, esses projetos não podem ser automaticamente classificados como equivalentes ao Shahed iraniano.
Submarino nuclear representa outra lógica
Nesta quarta-feira (19), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visita o Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó (SP), onde acompanha o desenvolvimento do Programa Nuclear da Marinha e a montagem do reator destinado ao futuro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
O submarino nuclear pertence a uma categoria completamente diferente de capacidade militar. Seu objetivo está relacionado à autonomia estratégica, à permanência prolongada submerso e à capacidade de patrulhamento marítimo.
O projeto também representa décadas de investimento em conhecimento científico e tecnológico. Aramar concentra parte importante do esforço brasileiro para dominar tecnologias relacionadas ao ciclo do combustível nuclear e à geração de energia para a futura propulsão naval.
Uma nova equação para a defesa brasileira
O cenário internacional começa a exigir uma combinação de tecnologias caras e sistemas baratos. Um submarino nuclear pode representar uma capacidade estratégica de longo prazo, mas não substitui sistemas de vigilância aérea de baixo custo. Da mesma forma, milhares de drones não substituem submarinos, navios, aeronaves de combate ou sistemas de defesa aérea. O desafio está em construir uma arquitetura militar integrada.
Drones baratos podem ser utilizados para reconhecimento e vigilância de fronteiras e áreas marítimas, enquanto equipamentos mais sofisticados podem executar missões de maior alcance e complexidade. Sistemas de inteligência artificial podem coordenar grandes quantidades de plataformas e ajudar a identificar ameaças.
O próprio Exército está estudando o emprego de enxames de drones e sistemas de inteligência artificial, indicando que a tecnologia já entrou na agenda estratégica da Força.
Defesa contra drones também vira prioridade
A experiência internacional mostra que esse será um dos grandes desafios da guerra moderna. Sistemas antiaéreos tradicionais podem ser extremamente caros quando empregados contra equipamentos de baixo custo. Por isso, países envolvidos em conflitos recentes passaram a buscar soluções alternativas, incluindo drones interceptadores, guerra eletrônica, sensores e armas de menor custo.
O Brasil também começa a estruturar essa capacidade. O Exército vem realizando avaliações e exercícios relacionados à defesa contra sistemas aéreos não tripulados, enquanto empresas da Base Industrial de Defesa desenvolvem soluções para o novo ambiente operacional.
Indústria nacional entra no centro da disputa
O desenvolvimento de drones pode representar uma oportunidade para a indústria brasileira porque a produção de sistemas não tripulados exige competências em eletrônica, sensores, comunicação, software, inteligência artificial, motores, baterias, materiais e sistemas de navegação.
Uma política baseada em produção nacional também reduziria a dependência de fornecedores estrangeiros em uma área que pode se tornar estratégica para a defesa territorial.
Nesse ponto, a experiência do Irã apresenta uma lição importante para o Brasil: capacidade industrial e escala podem ser tão importantes quanto tecnologia de ponta.
O objetivo não precisa ser copiar um equipamento estrangeiro. A questão é desenvolver uma família própria de sistemas, desde drones baratos para reconhecimento até plataformas mais sofisticadas, além de equipamentos capazes de enfrentar ameaças aéreas não tripuladas.
Soberania tecnológica
A visita de Lula a Aramar ocorre, portanto, em um momento de transformação da política de defesa brasileira. De um lado, o país busca dominar uma tecnologia extremamente complexa, como a propulsão nuclear naval. De outro, as Forças Armadas incorporam tecnologias que podem ser produzidas em grande escala e utilizadas em operações de menor custo.
O desafio está em evitar que a política de defesa se concentre apenas em grandes projetos de longa duração e deixe de acompanhar a rápida transformação tecnológica dos conflitos. A inclusão de drones, inteligência artificial e defesa cibernética entre as prioridades do Exército indica que essa preocupação já está presente na estratégia militar brasileira.



