Pesquisa aponta percepção de sabotagem política contra o Planalto em meio a derrotas no Senado, crise do Banco Master e desgaste do Legislativo

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A relação entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Congresso Nacional é vista por 70% dos brasileiros como marcada mais pelo confronto do que pela colaboração, segundo pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S.Paulo. Apenas 20% dos entrevistados enxergam cooperação entre Executivo e Legislativo.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios brasileiros nos dias 12 e 13 de maio. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Outros 2% afirmaram não perceber nem confronto nem colaboração, enquanto 8% disseram não saber responder.
A percepção de conflito institucional se intensificou após uma sequência de derrotas do Palácio do Planalto no Congresso. O episódio mais traumático ocorreu com a rejeição, pelo Senado Federal, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, considerada uma derrota histórica para o governo Lula.
Nos bastidores de Brasília, governistas passaram a interpretar o movimento como parte de uma articulação mais ampla envolvendo setores do Centrão, parlamentares bolsonaristas e grupos interessados em enfraquecer o Executivo em meio ao avanço das investigações relacionadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Desde o início do atual mandato, o Congresso acumulou uma série de enfrentamentos com o Planalto. Em 2023, parlamentares retiraram competências dos ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas. Já em 2024, deputados e senadores derrubaram vetos presidenciais ligados às saidinhas de presos e à legislação sobre agrotóxicos.
Em 2025, o Legislativo também impôs derrotas econômicas ao governo ao barrar mudanças nas alíquotas do IOF e bloquear medida provisória que previa aumento de impostos. Outra derrota importante ocorreu quando o Senado derrubou o veto presidencial relacionado às penas de envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.
As derrotas alimentaram uma forte reação de setores governistas e militantes do Partido dos Trabalhadores nas redes sociais, onde ganhou força o slogan “Congresso inimigo do povo”.
Apesar do ambiente hostil, o governo ainda conseguiu aprovar pautas estratégicas, como a reforma tributária e o projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Lula também costurou acordos políticos com o presidente da Câmara, Hugo Motta, para avançar em pautas trabalhistas consideradas prioritárias para a campanha de reeleição.
O levantamento mostra ainda que, entre os brasileiros que percebem mais confronto do que colaboração entre Executivo e Legislativo, 89% avaliam essa relação como negativa para o país. Entre os que enxergam cooperação, 58% consideram a relação positiva.
A pesquisa também aponta desgaste da imagem do Congresso Nacional. Para 37% dos entrevistados, a atuação de deputados e senadores é ruim ou péssima. Apenas 15% avaliam o desempenho parlamentar como ótimo ou bom. Outros 43% classificam o Congresso como regular.
O desgaste aparece tanto entre eleitores de Jair Bolsonaro quanto de Lula. Entre apoiadores bolsonaristas, 37% avaliam negativamente o Congresso. O mesmo índice aparece entre eleitores petistas.
O cenário de tensão institucional ganhou novos contornos após o avanço das investigações sobre o Banco Master. O senador Flávio Bolsonaro admitiu ter mantido conversas com Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Já o senador Ciro Nogueira é investigado por supostos repasses financeiros relacionados ao banco, acusações que ele nega.
Mesmo diante da repercussão política, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiu barrar a criação de uma CPI para investigar o Banco Master, movimento que aumentou críticas de setores da esquerda e até de grupos bolsonaristas nas redes sociais.
A própria avaliação do governo Lula também apresenta desgaste. Segundo o Datafolha, 39% dos brasileiros classificam a gestão federal como ruim ou péssima, enquanto 30% a consideram ótima ou boa. Outros 29% avaliam o governo como regular.




