Jato que transportou Flávio Bolsonaro ao Equador decolou da Argentina nesta madrugada; empresa é citada em investigações

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Em novembro de 2023, Javier Milei utilizou uma aeronave da companhia para viajar aos Estados Unidos, segundo informações citadas pela Revista Fórum. Foto Maura Martins/TV Brasil

Reportagem da Revista Fórum aponta relações comerciais entre intermediários da Baires Fly e empresário acusado nos Estados Unidos; companhia também aparece em apuração sobre suspeitas de corrupção envolvendo recursos públicos argentinos

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial de domingo (25), deixou o Brasil na noite de terça-feira (27), atravessou a fronteira com a Argentina acompanhado da mulher e das duas filhas e embarcou em um jato particular com destino declarado a Guayaquil, no Equador. A Direção Nacional de Migrações argentina confirmou a entrada da família no país e identificou a Baires Fly S.A. como operadora do voo. Uma investigação publicada pela Revista Fórum aponta que a companhia e pessoas ligadas a seus negócios aparecem em apurações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção na Argentina. Não há, porém, evidência apresentada nas reportagens de que Flávio tenha participado desses supostos esquemas.

Segundo comunicado da autoridade migratória argentina, a família entrou no país às 22h50 de terça-feira, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú. Às 23h30, os quatro embarcaram em uma aeronave privada da Baires Fly, com destino registrado no plano de voo para Guayaquil.

A viagem ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal e o proibiu de deixar o território brasileiro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, os documentos brasileiros foram cancelados após o descumprimento da ordem judicial. A autoridade migratória argentina afirmou, contudo, que Flávio e seus familiares apresentaram documentos válidos para entrar no país, sem impedimento registrado pelas autoridades argentinas.

A aeronave utilizada no deslocamento é um Gulfstream G400, de matrícula argentina LV-JQW. Reportagens publicadas na manhã desta quarta-feira (28) indicaram que o avião pousou em Guayaquil e voltou a decolar. O destino final da família ainda precisava ser confirmado oficialmente no momento da publicação das primeiras notícias sobre a escala equatoriana.

O histórico empresarial ligado à Baires Fly

Levantamento do núcleo Fórum Investiga, da Revista Fórum, identificou relações comerciais entre Sergio Daniel Mastropietro, intermediário de negócios aeronáuticos, e Federico Andrés Machado, conhecido como Fred Machado, empresário argentino acusado pela Justiça dos Estados Unidos em um caso internacional envolvendo tráfico de cocaína, lavagem de dinheiro e fraudes relacionadas a aeronaves.

De acordo com documentos judiciais citados pela publicação, Mastropietro e Machado foram sócios da empresa SO VAIN S.A., constituída em 2010 para atuar no setor aeronáutico. Registros empresariais e informações reunidas pela investigação jornalística também apontariam relações comerciais entre os dois.

A ligação exige uma distinção importante: a reportagem não apresenta a Baires Fly como empresa diretamente controlada por Machado. Segundo o levantamento, o proprietário formal da companhia é Luis Grande, enquanto Mastropietro aparece como intermediário em negócios relacionados à aviação executiva.

Em fevereiro de 2021, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou o indiciamento de Machado e de outros sete acusados em uma investigação sobre supostas operações internacionais de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e fraudes financeiras. O documento oficial descreve negócios envolvendo aeronaves e movimentações financeiras investigadas pelas autoridades norte-americanas. A acusação original, entretanto, não deve ser confundida com uma condenação por todos os crimes inicialmente atribuídos aos envolvidos.

A documentação judicial norte-americana pode ser consultada neste comunicado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

A investigação sobre recursos públicos na Argentina

A Baires Fly também foi mencionada em uma apuração argentina sobre possíveis irregularidades na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão responsável por políticas e serviços destinados a pessoas com deficiência.

O caso envolve suspeitas de direcionamento de contratos públicos, superfaturamento, pagamentos indevidos e lavagem de dinheiro em operações de aquisição de medicamentos, próteses e outros insumos. A investigação alcança empresários e ex-integrantes da administração pública argentina durante o governo de Javier Milei.

Segundo os documentos examinados pela Revista Fórum, duas fornecedoras da ANDIS teriam transferido 95,06 milhões de pesos argentinos para uma conta da Baires Fly em setembro de 2025. A publicação relaciona os pagamentos a operações comerciais de aviação e a pessoas investigadas no caso.

A reportagem também menciona um volume maior de faturamento da companhia com empresas relacionadas às contratações investigadas, entre 2023 e 2025. Esse montante, contudo, representa operações comerciais registradas e não pode ser apresentado integralmente como dinheiro desviado ou produto de crime sem comprovação específica.

Em 16 de outubro de 2026, o juiz federal argentino Ariel Lijo ampliou medidas judiciais contra pessoas investigadas no caso da ANDIS. O Ministério Público Fiscal da Argentina divulgou informações sobre a apuração, incluindo suspeitas de irregularidades em contratos de fornecimento de insumos. Os documentos oficiais podem ser consultados no portal do Ministério Público Fiscal argentino.

A existência de transferências financeiras e de relações comerciais entre pessoas investigadas precisa ser examinada individualmente. A citação de uma empresa em uma apuração não significa, automaticamente, que todos os seus clientes, passageiros ou parceiros comerciais tenham envolvimento nas irregularidades.

Viagens de autoridades e relações comerciais

A Baires Fly mantém operações no mercado argentino de aviação executiva e já foi utilizada em deslocamentos de figuras públicas. Em novembro de 2023, Javier Milei utilizou uma aeronave da companhia para viajar aos Estados Unidos, segundo informações citadas pela Revista Fórum.

No caso de Flávio Bolsonaro, a utilização do jato colocou a empresa sob atenção jornalística em razão dos vínculos empresariais identificados e das investigações em andamento na Argentina. Até o momento, porém, não há elementos apresentados que demonstrem que a contratação do voo tenha sido organizada por Machado ou que o deslocamento do senador esteja relacionado às suspeitas investigadas pela Justiça argentina.

A apuração também ocorre em um contexto de tensão política entre os governos do Brasil e da Argentina, além das relações entre integrantes da família Bolsonaro e o presidente norte-americano Donald Trump. Esses fatores compõem o cenário diplomático, mas não comprovam, isoladamente, participação de autoridades na organização da viagem.

O que ainda precisa ser esclarecido

A documentação argentina confirma a entrada de Flávio Bolsonaro e de seus familiares no país e o embarque em um voo particular com destino declarado ao Equador. A identificação da aeronave e da operadora permite reconstruir parte do deslocamento.

Permanecem questões distintas: as circunstâncias em que o senador atravessou a fronteira apesar da ordem judicial brasileira, o destino final da viagem e a eventual participação de terceiros na organização do deslocamento. Também é necessário distinguir os vínculos comerciais identificados pela reportagem das suspeitas criminais que integram as investigações argentinas.

A relação entre a empresa aérea e pessoas citadas em apurações judiciais constitui um dado relevante para a investigação jornalística, mas não autoriza atribuir ao passageiro responsabilidade por crimes investigados em outros contextos. A comprovação de qualquer ligação dependerá de documentos adicionais, manifestações das partes envolvidas e informações das autoridades responsáveis.

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