Documento técnico indica danos ambientais, possível conflito de interesse e remoção de exemplares saudáveis durante intervenção em Barão Geraldo


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Um laudo técnico elaborado pela Câmara Técnica do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Campinas (COMDEMA) concluiu que houve supressão considerada desnecessária de árvores históricas na Praça do Coco, em Barão Geraldo. O documento aponta ainda podas drásticas sem justificativa técnica adequada, danos ambientais e possível conflito de interesse envolvendo a empresa responsável pelos serviços.
A análise foi produzida por especialistas ligados ao COMDEMA e à Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), incluindo engenheiros florestais, agrônomos, biólogos e pesquisadores em arborização urbana e ecologia.
Segundo o relatório, ao menos um exemplar da espécie Ficus benjamina — árvore de grande porte e forte valor simbólico para moradores da região — foi removido sem necessidade comprovada. Outro exemplar da mesma espécie teria sofrido poda drástica considerada inadequada pelos técnicos.
O laudo afirma ainda que a operação resultou na destruição de quatro árvores da espécie Pterocarpus violaceus, conhecida como aldrago, classificadas como saudáveis e em “excelentes condições fitossanitárias”.

SUSPEITA DE CONFLITO DE INTERESSE
O documento também levanta questionamentos sobre a atuação da MB Engenharia, empresa contratada pela Prefeitura de Campinas para serviços relacionados à arborização urbana.
Segundo os técnicos, os “laudos” utilizados para justificar a supressão teriam sido produzidos pela própria empresa responsável pela execução dos serviços, situação que o relatório aponta como possível conflito de interesse à luz dos princípios constitucionais da administração pública.
O texto menciona ainda falta de transparência nos critérios adotados para as intervenções e dificuldades de visualização e consistência técnica nos documentos apresentados.
De acordo com o COMDEMA, a Diretoria de Ambiente da Secretaria de Serviços Públicos havia informado que o contrato da empresa se restringiria à arborização de calçadas públicas e canteiros centrais, o que entraria em contradição com a atuação na praça pública.
Os técnicos relatam que parte do material vegetal removido apresentava madeira saudável e copa com folhas verdes, sem indícios aparentes de comprometimento estrutural severo.
Também foi registrado que restos das árvores foram retirados da praça durante a madrugada do dia 30 de abril.
IMPACTOS AMBIENTAIS E MICROCLIMA
O laudo alerta que a retirada dos exemplares pode provocar impactos ambientais e alterações no microclima da região, incluindo aumento da temperatura local e perda de cobertura arbórea relevante em área urbana consolidada.
Os especialistas afirmam que, durante vistoria na praça, foram identificadas outras árvores potencialmente mais críticas em termos de risco estrutural que, segundo eles, não passaram por avaliação semelhante.
A análise utilizou parâmetros da norma técnica ABNT 16246, que trata de avaliação de risco em árvores urbanas, incluindo inspeções visuais e tomografia acústica.
A equipe responsável pelo relatório inclui nomes como o engenheiro florestal José Hamilton de Aguirre Junior, a professora da UNICAMP Raquel Gonçalves e o pesquisador da Embrapa Ivan André Alvarez.
COMUNIDADE PEDE RESPONSABILIZAÇÃO
O relatório recomenda adoção de medidas legais contra a empresa responsável e contra a administração municipal, além de ampliação da compensação ambiental prevista inicialmente pela Prefeitura.
Segundo os técnicos, a proposta municipal de plantio de apenas dois jequitibás estaria “em completa dissonância” com a legislação ambiental de Campinas.
O grupo defende compensação de 130 novas mudas arbóreas, considerando critérios previstos no Decreto Municipal nº 18.108/2013, com espécies nativas da flora brasileira distribuídas no entorno da praça.
Moradores e frequentadores da Praça do Coco também organizam abaixo-assinado para preservar parte do tronco da figueira removida como memorial histórico e pressionam por recuperação ambiental participativa da área.
O caso ampliou o desgaste político envolvendo a gestão ambiental em Campinas e reativou críticas de moradores, ambientalistas e pesquisadores sobre a política de arborização urbana da cidade, especialmente em relação à terceirização de laudos técnicos e à falta de participação popular nas decisões sobre patrimônio ambiental urbano.




