Mansões, carros de luxo e viagens colocam em xeque discurso de dificuldades financeiras de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA

0
9
Eduardo Bolsonaro passou a morar inicialmente em Arlington, em uma residência de aproximadamente 300 metros quadrados, com quatro quartos e quatro banheiros. Foto divulação redes sociais

Levantamento de documentos e registros imobiliários aponta patrimônio milionário, veículos de alto valor, viagens internacionais e despesas elevadas enquanto os dois atuam politicamente nos Estados Unidos contra decisões do governo brasileiro e do Supremo Tribunal Federal

<OUÇA A REPORTAGEM>

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp

A rotina de Eduardo Bolsonaro (PL) e do influenciador Paulo Figueiredo nos Estados Unidos inclui imóveis avaliados em milhões de reais, veículos de alto valor, viagens internacionais e consumo em estabelecimentos sofisticados, segundo levantamento realizado pela Agência Pública e pelo ICL Notícias. Os dados contrastam com declarações anteriores dos dois sobre dificuldades financeiras e levantam questionamentos sobre as fontes de recursos utilizadas para manter o padrão de vida no exterior.

O levantamento acompanha a trajetória financeira e patrimonial dos dois enquanto ambos desenvolvem uma intensa agenda política nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro deixou o Brasil em 2025 e passou a atuar junto a parlamentares republicanos e integrantes do governo norte-americano em defesa de medidas contra autoridades brasileiras. Paulo Figueiredo também participou de articulações e declarações públicas contra decisões do Supremo Tribunal Federal.

O PADRÃO DE VIDA DE EDUARDO

Depois de se estabelecer no Texas, Eduardo Bolsonaro passou a morar inicialmente em Arlington, em uma residência de aproximadamente 300 metros quadrados, com quatro quartos e quatro banheiros. Segundo anúncios imobiliários consultados na apuração, o imóvel tinha valor de mercado estimado em aproximadamente US$ 707 mil e aluguel anunciado em torno de US$ 4,5 mil mensais.

Em maio de 2025, Eduardo comprou um GMC Acadia Elevation 2025, SUV de três fileiras cujo preço nos Estados Unidos girava em torno de US$ 43,8 mil.

A situação financeira da família também foi objeto de conversas entre Eduardo e o pai, Jair Bolsonaro (PL). Em maio de 2025, Jair afirmou ter transferido R$ 2 milhões ao filho. Segundo declaração atribuída ao ex-presidente, o dinheiro teria sido enviado por meio de Pix e teria origem legal.

Posteriormente, a família deixou Arlington e passou a morar em Southlake, cidade considerada uma das áreas de maior renda do Texas. A nova residência tem aproximadamente 424 metros quadrados, quatro quartos, piscina e acesso a estrutura de lazer. O imóvel foi avaliado em cerca de US$ 1,22 milhão, enquanto anúncios imobiliários indicavam aluguel próximo de US$ 5,9 mil mensais.

A filha mais velha do casal também foi matriculada em uma escola cristã particular. Segundo informações divulgadas pela instituição, a mensalidade anual ficaria em torno de US$ 18 mil.

Eduardo afirma que possui renda passiva e também já declarou receber recursos provenientes de cursos que ministra. Ele negou ter utilizado dinheiro relacionado ao financiamento do filme “Dark Horse” para bancar sua permanência nos Estados Unidos.

O filme recebeu aproximadamente R$ 61 milhões de financiamento por meio do Fundo Havengate, ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. Eduardo afirmou que a informação de que teria recebido dinheiro do fundo não procede e declarou que apresentou às autoridades norte-americanas a origem dos seus recursos durante o processo migratório.

Procurado pela reportagem que originou o levantamento, Eduardo não teria detalhado como financia atualmente seu padrão de vida nos Estados Unidos.

VIAGENS E AGENDA POLÍTICA

Outro aspecto levantado pela apuração é a quantidade de deslocamentos realizados por Eduardo Bolsonaro desde sua mudança para os Estados Unidos. Segundo o levantamento, foram pelo menos 20 viagens em aproximadamente 18 meses. Parte delas esteve relacionada a compromissos políticos, enquanto outras teve caráter turístico ou de lazer.

Foto divulgação redes sociais

Entre os destinos aparecem Disney, Park City, na região de esqui de Utah, West Palm Beach e Miami. Durante a Copa do Mundo, Eduardo esteve em Miami para acompanhar uma partida entre Brasil e Escócia e ficou hospedado em um hotel de alto padrão.

A agenda internacional também incluiu países do Oriente Médio. Em Abu Dhabi, Eduardo publicou imagens praticando surfe em uma piscina de ondas artificiais. A atividade possui sessões que podem custar milhares de dirhams, dependendo do pacote e das condições de uso. As viagens internacionais ocorreram em paralelo à atuação política de Eduardo e Paulo Figueiredo nos Estados Unidos.

Segundo a apuração, os dois estiveram diversas vezes em Washington e também participaram de viagens a Mar-a-Lago, na Flórida, onde mantêm contatos políticos.

Em maio de 2026, Eduardo e Paulo estiveram no Willard InterContinental Washington durante uma agenda que incluiu encontro com Donald Trump. O hotel é um dos estabelecimentos tradicionais da capital norte-americana e possui diárias que variam significativamente conforme o período e a categoria do quarto.

PAULO FIGUEIREDO: IMÓVEIS MILIONÁRIOS E CARROS DE LUXO

A apuração também encontrou movimentações patrimoniais envolvendo Paulo Figueiredo. Em novembro de 2025, ele adquiriu uma propriedade em Clermont, na Flórida, por aproximadamente US$ 1,2 milhão, equivalente a cerca de R$ 6,1 milhões pelos valores utilizados no levantamento. Para realizar a compra, teria contratado financiamento imobiliário de aproximadamente US$ 1 milhão.

Foto Divulgação

A residência possui cerca de 515 metros quadrados de área construída em um terreno de aproximadamente 17,5 mil metros quadrados. A propriedade conta com seis quartos, cinco banheiros, piscina, jacuzzi, área externa de lazer e outras estruturas.

Seis meses depois, em maio de 2026, Figueiredo comprou uma Tesla Cybertruck 2026, avaliada em aproximadamente US$ 83 mil. Ele também possui uma BMW Série 6 fabricada em 2004.

Figueiredo ainda mantém outro imóvel na Flórida. Uma residência em Weston foi colocada à venda por aproximadamente US$ 1,09 milhão. Documentos estaduais indicam que a propriedade, anteriormente registrada em nome de uma empresa ligada ao influenciador, passou para o nome pessoal de Figueiredo em outubro de 2025.

DISCURSO DE DIFICULDADE FINANCEIRA

Os registros patrimoniais ganham relevância porque contrastam com declarações anteriores de Paulo Figueiredo sobre sua situação econômica.

Em 2024, durante audiência no Congresso dos Estados Unidos, Figueiredo afirmou estar desempregado, sem suas redes sociais e sem as respectivas receitas de monetização, além de dizer que era responsável pelo sustento de suas duas filhas.

A situação financeira também aparece relacionada a processos judiciais envolvendo empresas ligadas ao influenciador. A International Treasure Group, empresa associada a Figueiredo, foi envolvida em um processo nos Estados Unidos relacionado à recuperação de transferências consideradas suspeitas em um caso de falência ligado ao empresário chinês Miles Guo.

Segundo a defesa apresentada no processo, a empresa teria recebido US$ 140 mil por serviços prestados à plataforma Gettr entre 2021 e 2022. Apesar dessas circunstâncias, os registros imobiliários e de consumo levantados pela reportagem apontam para a manutenção de um padrão elevado de despesas.

Questionado sobre a origem dos recursos utilizados para manter esse padrão de vida, Figueiredo respondeu que se financia por meio de suas empresas e afirmou que não deve satisfação sobre sua situação financeira.

AGENDA POLÍTICA E INTERESSES ECONÔMICOS

O ponto que transforma os dados patrimoniais em questão de interesse público não é simplesmente o fato de Eduardo Bolsonaro ou Paulo Figueiredo possuírem imóveis, carros ou viajarem.

A questão central é qual é a origem dos recursos utilizados para financiar esse padrão de vida e se existe alguma relação entre essas fontes de recursos e a atividade política desenvolvida nos Estados Unidos.

Eduardo Bolsonaro deixou de receber salário como deputado federal após a perda do mandato por faltas. Ele também não recebe, desde 2015, remuneração como escrivão da Polícia Federal, segundo as informações apresentadas na apuração.

Ao mesmo tempo, passou a desenvolver nos Estados Unidos uma atividade política de grande visibilidade, buscando apoio para medidas de pressão contra o governo brasileiro e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Figueiredo, por sua vez, também mantém empresas e propriedades nos Estados Unidos e participa publicamente da articulação política contra autoridades brasileiras.

Até o momento, os dados apresentados no levantamento não permitem afirmar que os imóveis, veículos ou viagens tenham sido financiados com recursos ilícitos. Também não demonstram, por si só, qualquer crime.

O que permanece como questão é a necessidade de esclarecer quanto custa essa estrutura, de onde vêm os recursos e quais são as fontes efetivas de renda dos dois brasileiros que passaram a exercer forte atuação política nos Estados Unidos.

A diferença entre as declarações de dificuldades financeiras e os registros de patrimônio e consumo não prova irregularidade, mas justifica a busca por documentos capazes de esclarecer a origem dos recursos.

Em um cenário no qual Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo defendem publicamente medidas de pressão internacional contra o Brasil, a transparência sobre suas fontes de financiamento ganha relevância adicional. A investigação, portanto, não termina na pergunta sobre quanto vale uma mansão ou quanto custa um carro.

A pergunta fundamental é outra: quem paga a conta dessa operação política nos Estados Unidos?

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui