
Apreensões da Operação Compliance Zero incluem cerca de R$ 267,6 mil em dinheiro nos imóveis relacionados ao senador, três veículos avaliados em R$ 625,7 mil e quatro relógios de alto valor; investigação apura suspeitas de vantagens indevidas ligadas a Daniel Vorcaro
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
A Polícia Federal encontrou dinheiro em reais, dólares, euros e liras turcas, quatro relógios de luxo, um crucifixo de ouro, três veículos, dezenas de bolsas e uma coleção de vinhos e destilados durante buscas realizadas em endereços relacionados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), na 5ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 7 de maio de 2026.
A operação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal e investiga suspeitas de que o senador teria recebido vantagens indevidas do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em possível contrapartida a atuações de interesse privado. Ciro Nogueira nega irregularidades.
O STF informou, na ocasião da operação, que a investigação apontava indícios de possível atuação do senador em benefício de interesses privados de Vorcaro. A decisão foi tomada pelo ministro André Mendonça, então relator do caso, a pedido da Polícia Federal e com manifestação favorável do Ministério Público Federal.
Os autos permitem separar duas categorias de valores. Há bens que receberam avaliação oficial da Polícia Federal, como veículos e uma joia. Outros objetos, principalmente relógios, bolsas e bebidas, ainda dependem de identificação ou perícia e podem ser dimensionados apenas por referências de mercado.
Cerca de R$ 267,6 mil em dinheiro
Na residência utilizada por Ciro Nogueira em Teresina, os policiais encontraram um cofre localizado no closet do quarto superior. Segundo o relatório da operação, o senador estava em Brasília durante a busca e forneceu a senha do equipamento à equipe responsável pela diligência. No interior do cofre foram encontrados R$ 31.760 e € 14.070. O documento registra que a primeira contagem do dinheiro em reais havia apontado R$ 41.710. O valor foi posteriormente corrigido após nova conferência para o depósito judicial. Em Brasília, no escritório utilizado pelo senador, os agentes encontraram:
- US$ 27.735;
- € 1.555;
- 890 liras turcas.
Considerando a conversão cambial utilizada na apuração, o dinheiro encontrado nos dois endereços diretamente relacionados ao senador corresponde a aproximadamente R$ 267,6 mil. A PF também encontrou dinheiro na residência de Raimundo Neto, irmão de Ciro. Somados os valores encontrados nos endereços relacionados aos dois irmãos, o numerário chega a aproximadamente R$ 614 mil, considerando a conversão utilizada na apuração. A existência do dinheiro, entretanto, não demonstra por si só sua origem ilícita. A investigação é que deverá estabelecer a origem, finalidade e eventual relação dos recursos com os fatos apurados.
Três veículos avaliados em R$ 625,7 mil
A Polícia Federal também apreendeu três veículos que receberam avaliação oficial. Uma BMW M440i, ano/modelo 2023, encontrada em Brasília, foi avaliada em R$ 317.925,50. Uma Honda CB1000R recebeu avaliação de R$ 57.823,20. Já uma Toyota Hilux SW4 blindada, localizada em Teresina, foi avaliada em R$ 250 mil. Somados, os três veículos chegam a R$ 625.748,70.Esses valores fazem parte dos documentos oficiais da apreensão e não dependem de estimativas de mercado utilizadas pela reportagem.
Quatro relógios estavam dentro do cofre
Entre os objetos encontrados no cofre de Brasília estavam quatro relógios descritos nos documentos da operação.Um deles foi identificado preliminarmente como um Rolex GMT-Master II “Sprite”. Outro foi descrito como um Rolex GMT-Master, com características compatíveis com a versão de mostrador azul e vermelho. O terceiro foi identificado como um Rolex Yacht-Master. O quarto relógio foi descrito como um Patek Philippe em ouro rosa, com pulseira de couro azul. A perícia especializada dos relógios não havia estabelecido, nos documentos utilizados para esta reportagem, uma avaliação oficial individual de cada peça.
Por isso, os valores abaixo são apenas referências de mercado para modelos semelhantes:
- Rolex GMT-Master II “Sprite”: aproximadamente R$ 85 mil;
- Rolex GMT-Master azul e vermelho: aproximadamente R$ 113 mil;
- Rolex Yacht-Master: aproximadamente R$ 71 mil;
- Patek Philippe em ouro rosa: entre R$ 277 mil e R$ 316 mil.
Somente os quatro relógios poderiam representar, pelas referências utilizadas, algo entre R$ 546 mil e R$ 585 mil. O valor efetivo depende do modelo exato, ano, número de referência, estado de conservação, documentação e autenticidade.
Crucifixo foi identificado como ouro
Outro objeto apreendido no cofre inicialmente havia sido descrito apenas como um “crucifixo em material dourado”. Posteriormente, o objeto passou por exame pericial. O Laudo Pericial nº 25116/2026 identificou a peça como confeccionada em ouro Au 650, com elementos decorativos e símbolos religiosos. A Polícia Federal atribuiu ao crucifixo o valor de R$ 17.746,03. Neste caso, diferentemente dos relógios, existe uma avaliação oficial documentada.
Bolsas de grife aparecem em fotografias da operação
As imagens produzidas pelos policiais durante as buscas mostram dezenas de bolsas, carteiras, embalagens e acessórios. Entre as marcas identificáveis nas fotografias aparecem referências a Chanel, Louis Vuitton, Prada e Fendi, entre outras grifes internacionais. As imagens, entretanto, não permitem estabelecer sozinhas a autenticidade, o modelo e o estado de conservação de todas as peças. Por isso, as bolsas não foram incorporadas à soma oficial dos bens apreendidos. Uma estimativa baseada na quantidade aparente de peças e em valores de revenda de produtos semelhantes poderia colocar o conjunto em centenas de milhares de reais, mas esse cálculo não possui caráter pericial.
Adega reúne vinhos e destilados
As fotografias também mostram uma adega com diversas garrafas de vinho e um móvel ocupado por uísques, conhaques e outros destilados. Entre os rótulos fotografados aparecem garrafas compatíveis com Casa Ferreirinha Barca Velha e Vega Sicilia Único. Dependendo da safra, do formato da garrafa e das condições de armazenamento, esses vinhos podem alcançar valores elevados no mercado. Também nesse caso, entretanto, não há avaliação oficial de todo o estoque nos documentos considerados para esta reportagem. Por isso, as bebidas não entram na soma oficial dos bens.
Quanto vale o conjunto?
Somando apenas os valores que podem ser tratados como oficiais, estão disponíveis:
- Dinheiro encontrado nos endereços diretamente relacionados a Ciro: aproximadamente R$ 267,6 mil
- Três veículos: R$ 625.748,70
- Crucifixo de ouro: R$ 17.746,03
Isso representa aproximadamente R$ 911 mil, antes mesmo da inclusão dos relógios. Quando são acrescentadas as referências de mercado dos quatro relógios, o conjunto ultrapassa R$ 1,4 milhão.Se fossem incluídas também estimativas hipotéticas para bolsas e bebidas, o valor poderia superar R$ 2 milhões. Essa última cifra, porém, não é patrimônio oficialmente avaliado pela Polícia Federal. Trata-se apenas de uma simulação de mercado baseada em objetos identificados ou aparentemente identificáveis nas fotografias.
iPhone não teve senha fornecida
Além dos bens de valor, a PF apreendeu equipamentos eletrônicos. Entre eles está um iPhone 17, atribuído ao senador. O termo policial registra que a senha do aparelho não foi fornecida.Também foram apreendidos um iPad e um cartão microSD.O conteúdo dos dispositivos integra o conjunto de materiais submetidos à análise dos investigadores.
Papéis encontrados dentro de churrasqueira
Durante as buscas, os policiais também encontraram documentos e anotações manuscritas.No escritório utilizado por Ciro havia registros relacionados a apartamentos e documentos de natureza financeira.Na residência, os agentes encontraram ainda papéis dentro de uma churrasqueira.Um dos documentos tinha o título “Câmara”, seguido de primeiros nomes de parlamentares e números.Segundo relato de uma funcionária ouvido durante a diligência, Ciro havia entregue os papéis para que fossem queimados porque seriam antigos ou não teriam mais utilidade.A funcionária afirmou que ainda não havia realizado a queima.
O relatório policial registrou que o significado dos números anotados ao lado dos nomes ainda precisaria ser esclarecido.O episódio passou a integrar a análise dos investigadores.
Investigação mira possível relação entre vantagens e atuação parlamentar
A investigação conduzida no Supremo busca esclarecer se Ciro Nogueira teria recebido benefícios financeiros ou patrimoniais relacionados a Daniel Vorcaro e se, em contrapartida, teria atuado em questões de interesse privado ligadas ao empresário.Na decisão que autorizou a nova fase da Compliance Zero, o STF informou que a PF apontava indícios de possível atuação do senador em favor de interesses privados de Vorcaro.A investigação, portanto, não se limita aos bens encontrados nas buscas. Os objetos apreendidos fazem parte de um conjunto maior de elementos que precisam ser confrontados com movimentações financeiras, comunicações, viagens, documentos e eventuais atos praticados pelo parlamentar.
Bloqueios já ultrapassaram R$ 10 milhões
O caso avançou nos meses seguintes à operação.Em setembro, a defesa de Ciro Nogueira tentou reaver bens e valores bloqueados judicialmente, oferecendo um terreno como garantia. Segundo reportagem da Folha, a defesa avaliou o imóvel em R$ 19 milhões, enquanto a Procuradoria-Geral da República contestou a avaliação e apontou que o terreno havia sido adquirido por aproximadamente R$ 3,3 milhões em 2023.A reportagem informou que permaneciam bloqueados cerca de R$ 10 milhões, além de uma BMW e um avião.A defesa questiona as medidas e sustenta que não há fundamento para a manutenção dos bloqueios nos termos determinados.
Ciro nega irregularidades
Ciro Nogueira nega envolvimento em atividades ilícitas e contesta as suspeitas levantadas pela investigação.A defesa também questiona medidas patrimoniais determinadas no curso do inquérito.Até o momento, a investigação não equivale a uma condenação e não estabelece, por si só, que os bens apreendidos tenham origem ilícita.A eventual existência de relação entre os objetos, valores encontrados e Daniel Vorcaro depende da análise conjunta dos elementos recolhidos pela Polícia Federal.
O caso Banco Master chegou ao centro da crise no STF
A investigação contra Ciro faz parte de um caso mais amplo envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro.A Operação Compliance Zero passou por diferentes fases e levou à prisão de investigados ligados ao empresário. Em junho, a Segunda Turma do STF confirmou, por maioria, a prisão preventiva de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, e Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro.O caso também passou a envolver outros políticos e autoridades.
Em setembro, documentos da investigação tiveram o sigilo parcialmente retirado e passaram a revelar relações e comunicações envolvendo diferentes figuras públicas. A divulgação dos documentos provocou uma crise interna no Supremo, com divergências entre ministros sobre acesso aos dados e condução das investigações.
Ciro Nogueira está entre os políticos citados nos documentos relacionados ao caso Master.
O que a apreensão revela
A apreensão realizada nos endereços ligados a Ciro reúne dinheiro em quatro moedas, veículos de alto valor, relógios de luxo, joia de ouro, bolsas e bebidas de alto padrão.Os valores oficialmente documentados já ultrapassam R$ 900 mil, considerando o dinheiro localizado diretamente nos endereços do senador, os três veículos e o crucifixo.Com os relógios estimados por referências de mercado, o conjunto supera R$ 1,4 milhão.


