Recursos destinados à inclusão digital de jovens na periferia foram alvo de superfaturamento de até 315%, aponta CGU
<OUÇA A REPORTAGEM>
A poucos quilômetros do Congresso Nacional, um projeto que prometia transformar a vida de jovens da periferia do Distrito Federal por meio da capacitação em jogos digitais virou alvo de uma severa investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU). A Associação Moriá recebeu mais de R$ 53 milhões em emendas parlamentares para executar os cursos nas regiões da Estrutural e de Ceilândia.
No entanto, as autoridades identificaram um sofisticado esquema de direcionamento de contratos, orçamentos forjados e desvio de verbas públicas. O caso integra o documentário inédito “Orçamento Secreto”, produzido pelo ICL Notícias.
Segundo os relatórios oficiais, os investigadores apontam que empresas ligadas entre si simulavam concorrência para inflar os custos dos projetos. Em determinados contratos, os preços superaram em até 315% os valores de mercado. A CGU descobriu, por exemplo, que a entidade pagou R$ 2.780 pela locação de cada computador por dez meses, sendo que o preço médio para a compra definitiva do equipamento era de R$ 1.349. O prejuízo estimado pela Controladoria ultrapassa R$ 13 milhões, o que equivale a mais de 80% do montante analisado em apenas um dos convênios.
A estrutura interna da Associação Moriá também chamou a atenção da Polícia Federal devido à falta de expertise técnica. Em 2023, a entidade passou por uma mudança repentina de diretoria e de finalidade institucional, migrando de esportes tradicionais para o universo dos e-sports. A nova gestão era composta por pessoas sem histórico na área educacional ou tecnológica, incluindo um motorista, uma esteticista e uma enfermeira.
O avanço na captação de recursos foi atribuído ao lobby de Adriano de Andrade Marrocos, contador da associação, apontado pela PF como o articulador político e empresarial junto aos gabinetes.
- Deputado federal Fred Linhares (Republicanos-DF), responsável por cerca de R$ 27,6 milhões em emendas individuais e de bancada
- Senador Izalci Lucas (PL-DF), que destinou R$ 15,5 milhões.
- Deputada federal Bia Kicis (PL-DF), com R$ 1,5 milhão;
- Gilvan Máximo (Republicanos-DF), com R$ 1,9 milhão;
- Júlio César Ribeiro (Republicanos-DF), com R$ 800 mil;
- Deputada distrital Paula Belmonte (Cidadania-DF), com R$ 500 mil
- Deputado distrital Reginaldo Veras (PV-DF), com R$ 400 mil
- Deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC), com R$ 9,8 milhões;
- Senadora Rose de Freitas (MDB-ES), com R$ 5 milhões;
- Deputado federal Pedro Augusto (PP-RJ), com R$ 4,7 milhões;
- Senador Rodrigo Cunha (Podemos-AL), com R$ 400 mil.
Na prática, estudantes ouvidos pela equipe de reportagem relataram que a realidade das salas de aula era distante dos materiais de divulgação. Os alunos afirmaram que os monitores passavam grande parte do tempo apenas jogando, sem orientação pedagógica ou estrutura adequada. Instituições como o Instituto Federal de Brasília (IFB) e o Sesc esclareceram que apenas cederam os espaços físicos e não tiveram envolvimento na gestão do dinheiro.
Após a operação policial e as determinações do Supremo Tribunal Federal (STF), parte das verbas foi bloqueada.
Em resposta às investigações, o senador Izalci Lucas (PL-DF) negou qualquer irregularidade e declarou que destinou as emendas “por acreditar no potencial social do projeto”. O parlamentar ressaltou ainda que a responsabilidade pela fiscalização da execução caberia ao Ministério do Esporte.
A pasta ministerial, por sua vez, sustentou que a destinação dos valores foi definida exclusivamente pelos congressistas e informou que adotou medidas para interromper os repasses logo após o surgimento das suspeitas de corrupção. Os demais parlamentares citados alegaram que não tinham conhecimento das fraudes e que apoiaram a iniciativa por visar o benefício de jovens em situação de vulnerabilidade social.




