
Inquérito tramita sob sigilo na Justiça Federal do Paraná; ex-ministro prestou consultoria à plataforma de criptoativos, que enfrenta ações de investidores com dificuldades para recuperar aplicações
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A Polícia Federal (PF) investiga o ex-ministro da Economia Paulo Guedes, que integrou o governo Jair Bolsonaro, e o empresário Fábio Lino de Almeida, proprietário da plataforma de investimentos OnilX, por suspeita de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. A informação foi publicada em 29 de outubro pelo jornalista Tácio Lorran, do Metrópoles, com base em documentos do procedimento. .
O inquérito foi autuado em 10 de fevereiro de 2026 e tramita sob sigilo na 9ª Vara Federal de Curitiba, com atuação da PF e do Ministério Público Federal (MPF). Os documentos mencionados na reportagem identificam Guedes e Fábio Lino como investigados, mas não detalham publicamente as condutas específicas atribuídas a cada um. Não há, nas informações divulgadas, indicação de condenação pelo caso.
Consultoria e aproximação com investidores
A relação de Guedes com a OnilX já havia sido abordada pelo Metrópoles em setembro. Segundo o veículo, o ex-ministro prestou consultoria à empresa, participou de reuniões estratégicas, encontrou potenciais investidores e teve sua imagem associada à divulgação das atividades da plataforma.
Em uma publicação institucional, a OnilX divulgou uma fotografia de Guedes ao lado de Fábio Lino e de executivos da Visa. A empresa descreveu o encontro como de “alta relevância estratégica” e atribuiu ao ex-ministro “suporte e visão” para o negócio.
Guedes também participou de eventos voltados a investidores e assessores comerciais. Em uma das ocasiões, diante de aproximadamente 500 pessoas, elogiou a empresa e comentou seu potencial no mercado digital, conforme o relato publicado pelo Metrópoles.
A participação em reuniões, consultorias ou eventos, por si só, não comprova envolvimento em irregularidades. A investigação deverá apurar se houve conduta que possa ser enquadrada na legislação penal financeira.
Investidores relatam dificuldades para resgatar valores
A atuação do ex-ministro junto à plataforma também aparece em ações judiciais movidas por clientes. Em um dos processos, um casal cobra R$ 876,5 mil da empresa e afirma que decidiu manter e ampliar os investimentos após participar de uma reunião com Guedes na sede da OnilX, em abril.
Segundo os investidores, quatro meses depois, ao tentar retirar os recursos, não conseguiram realizar o resgate. Trata-se de uma alegação apresentada à Justiça, cujo mérito depende da análise judicial.
Em outro processo, mensagens atribuídas a uma assessora comercial da plataforma mostram a utilização da proximidade com Guedes como argumento para atrair clientes. Em uma conversa anexada aos autos, a representante teria afirmado que o ex-ministro “tá dentro da empresa”.
A mesma assessora teria mencionado a possibilidade de organizar uma reunião com Guedes para interessados em aplicar entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões.
Os relatos indicam que a imagem pública do ex-ministro foi citada em negociações comerciais relacionadas à plataforma. Isso, contudo, não determina automaticamente sua responsabilidade pelas dificuldades relatadas pelos investidores.
OnilX foi alvo de medida da CVM
A plataforma enfrenta processos judiciais de clientes que dizem não conseguir recuperar valores aplicados em operações ligadas a criptomoedas. Segundo levantamento divulgado pelo Metrópoles, foram identificadas 108 ações contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro de 2026.
De acordo com os relatos apresentados nos processos, a empresa oferecia produtos com rendimentos anunciados de até 2,8% ao mês. Alguns investidores levantaram suspeitas de pirâmide financeira. A OnilX nega irregularidades e afirma atuar regularmente no mercado de ativos virtuais.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também adotou medidas contra o grupo. Em janeiro, a autarquia determinou a suspensão de ofertas públicas de serviços de intermediação de valores mobiliários por empresas ligadas à OnilX, por identificar indícios de atuação sem a autorização exigida.
Em abril, após analisar recurso, o colegiado da CVM esclareceu que a restrição não proibia atividades de intermediação de criptoativos que não estejam sob a competência regulatória da autarquia. A decisão não equivale a uma autorização para distribuir ou intermediar valores mobiliários.
Inquérito segue sob sigilo
Conforme os registros processuais citados pelo Metrópoles, houve despacho judicial e expedição de intimações em 21 de setembro. Em outubro, o procedimento recebeu novas petições e registrou diligências policiais. O conteúdo dessas medidas não foi divulgado por causa do sigilo.
Paulo Guedes é representado pelos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso, que também atuam na defesa de Fábio Lino. Segundo a reportagem original, a defesa não havia respondido aos contatos até a publicação; o espaço para manifestação permaneceu aberto.
A investigação apura possíveis infrações previstas na Lei nº 7.492/1986, que define crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Até que sejam divulgados elementos adicionais ou haja decisão judicial, as suspeitas devem ser tratadas como objeto de investigação, e não como fatos criminalmente comprovados.


