CPI do Crime Organizado termina sem relatório após derrota de proposta que pedia indiciamento de ministros do STF

Data:

Comissão rejeita parecer de Alessandro Vieira, aponta interferências políticas e encerra trabalhos sem conclusões oficiais

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, criticou o relatório e afirmou que a CPI desviou de seu foco principal.. Foto Saulo Criz/Agencia Senado

OUÇA A REPORTAGEM

Os integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado rejeitaram, nesta semana, o relatório final apresentado pelo senador Alessandro Vieira. O documento, que propunha o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), foi derrotado por seis votos a quatro, encerrando os trabalhos da comissão sem um parecer final — situação incomum em CPIs federais.

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp

Durante a sessão, o presidente da comissão, senador Fabiano Contarato, atribuiu o esvaziamento dos resultados à decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de não prorrogar o prazo de funcionamento da CPI. Segundo ele, a medida comprometeu a coleta de provas e o aprofundamento das investigações. “Fomos impedidos de ter o resultado que almejávamos”, declarou.

Contarato também fez críticas ao STF, afirmando que decisões judiciais — especialmente habeas corpus — dificultaram a convocação de depoentes e o acesso a informações da Polícia Federal. Apesar disso, posicionou-se contra o indiciamento dos ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República Paulo Gonet. “O ato de indiciamento é de grande responsabilidade”, afirmou.

Disputa política e interferência

A votação evidenciou divisão política no colegiado. Votaram a favor do relatório, além do relator, os senadores Eduardo Girão (NOVO-CE), Espiridião Amin (PP-SC) e Magno Malta (PL-ES). Já a maioria contrária incluiu nomes alinhados ao governo, como Beto Faro (PT-PA), Teresa Leitão (PT-PE) e Humberto Costa (PT-PE), além de Otto Alencar (PSD-BA), Soraya Thronicke (PSB-MS) e Rogério Carvalho (PT-SE).

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, criticou o relatório e afirmou que a CPI desviou de seu foco principal. “Não vou corroborar com a sanha de querer atacar o STF”, declarou. Ele argumentou que o parecer não priorizou o combate ao crime organizado, foco original da comissão.

Antes da votação, uma articulação interna alterou a composição da CPI. Os senadores Teresa Leitão e Beto Faro substituíram Sergio Moro e Marcos do Val, por indicação do líder do bloco, Eduardo Braga. A mudança foi apontada por Alessandro Vieira como decisiva para a derrota. Ele afirmou que houve “intervenção direta do Palácio do Planalto”.

O que dizia o relatório

Apesar da rejeição, o relatório traça um panorama abrangente do crime organizado no país. O documento aponta que 90 organizações criminosas foram identificadas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), com atuação em diversos estados.

Segundo o texto, cerca de 26% do território nacional estaria sob influência dessas organizações, atingindo aproximadamente 28,5 milhões de brasileiros. O relatório também destaca a lavagem de dinheiro como eixo central das atividades ilícitas, com infiltração em setores como mercado imobiliário, fintechs, criptomoedas e comércio ilegal.

O documento ainda menciona que o crime organizado atua como “para-Estado”, exercendo controle territorial, cobrando taxas ilegais e impondo regras em comunidades.

Estratégias e lacunas

Entre os pontos considerados positivos, o relatório cita ações das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs), presentes em todo o país, e operações de descapitalização financeira, como a “Carbono Oculto”, que apreendeu mais de R$ 4 bilhões.

Também foram destacadas cooperações internacionais, com atuação em 34 países e a prisão de 842 foragidos entre 2021 e 2025.

Mesmo com esses dados, a ausência de um relatório final aprovado impede que as recomendações legislativas e eventuais encaminhamentos formais avancem no Congresso. Nos bastidores, a rejeição do parecer é interpretada como reflexo de uma disputa mais ampla entre setores do Senado, o governo federal e o Judiciário, especialmente diante da tentativa de incluir ministros do STF entre os investigados.

Alessandro Vieira afirmou que o tema não será encerrado. “Pode não acontecer agora, mas tem data para acontecer”, disse, indicando que o embate político em torno do papel do STF e do combate ao crime organizado deve continuar no Congresso.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe esse Artigo:

spot_img

Últimas Notícias

Artigos Relacionados
Relacionados

Defesa de Flávio Bolsonaro tenta quatro vezes tirar de Dino investigação sobre emendas ligadas ao filme Dark Horse

Advogados do senador e candidato à Presidência querem que...

PF aponta que Vorcaro sabia de operação e tentou deixar o país antes da prisão

Relatório liberado pelo STF descreve contatos do ex-banqueiro com...

Troca: Crise com diretor da PF aumenta pressão sobre ministro da Justiça no governo Lula

Presidente Lula avalia troca de Wellington César Lima e...

Fachin manda Mendonça liberar em 24 horas todos os documentos do caso Master

Presidente do STF acolhe pedido da PGR e determina...
Advogados do senador e candidato à Presidência querem que apuração sobre recursos públicos destinados a entidades ligadas à produção seja transferida para André Mendonça, que já relata outros procedimentos...