Especialistas defendem industrialização regional para ampliar poder geopolítico em disputa entre Estados Unidos e China

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Lideranças políticas e especialistas da América Latina defendem que a região utilize suas reservas de minerais críticos e terras raras para desenvolver uma indústria própria voltada à transição energética, reduzindo a dependência externa e ampliando seu poder de negociação global. A discussão ocorreu durante seminário no Rio de Janeiro, em meio à crescente disputa comercial entre Estados Unidos e China pelo controle dessas matérias-primas estratégicas.
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A avaliação é de que países latino-americanos historicamente atuaram como exportadores de commodities e agora enfrentam uma janela estratégica para internalizar a produção e avançar nas cadeias de valor. O ex-ministro colombiano Andrés Camacho destacou que a presença de minerais como o lítio pode impulsionar a fabricação regional de baterias, gerando empregos qualificados e reduzindo a dependência tecnológica.
Disputa global e interesses estratégicos
Dados da Agência Internacional de Energia indicam que cerca de 45% do lítio e 30% do cobre do mundo estão na América Latina, insumos essenciais para veículos elétricos e energias renováveis. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos dependem de importações para mais da metade do lítio consumido, enquanto a China domina o refino global, concentrando até 90% do processamento de terras raras.
Esse cenário intensifica a disputa geopolítica. Relatório do governo americano aponta como prioridade conter a influência chinesa na região, enquanto Pequim amplia investimentos em mineração e processamento em países latino-americanos e africanos.
Integração regional como estratégia
A diretora do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Alvares, defendeu que a industrialização pode ocorrer de forma integrada entre países. Segundo ela, a produção de fertilizantes, por exemplo, poderia aproveitar o gás natural abundante na Argentina e na Bolívia para reduzir a dependência externa do Brasil.
Já a deputada do Parlasul Cecilia Nicolini argumentou que a região precisa formar alianças pragmáticas, independentemente de ideologias, focadas em infraestrutura e desenvolvimento tecnológico. “Podemos exportar recursos, mas também precisamos participar da cadeia de valor para ter poder de negociação”, afirmou.
Risco de nova dependência tecnológica
Especialistas alertam que, sem investimento em tecnologia e indústria, a América Latina pode repetir ciclos históricos de exploração de recursos naturais sem agregação de valor. A produção de equipamentos, como painéis solares e baterias, ainda é concentrada em países desenvolvidos, o que mantém a dependência da região.
Nesse contexto, a exigência de transferência de tecnologia em acordos internacionais aparece como ponto central. Segundo analistas, sem essa condição, países ricos em recursos naturais tendem a permanecer na base da cadeia produtiva.
Pressões políticas e segurança nacional
O tema também ganhou dimensão estratégica. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que o processamento dos minerais ocorra dentro do país, classificando o tema como questão de segurança nacional. A posição surge em meio a negociações internacionais e ao interesse crescente de potências estrangeiras nos recursos latino-americanos.
Nos bastidores, a formação de blocos regionais e alianças multilaterais é vista como caminho para equilibrar pressões de Washington e Pequim. Analistas apontam que o controle sobre minerais críticos pode redefinir a posição da América Latina no cenário global nas próximas décadas, especialmente com a expansão da economia verde e da digitalização.




