Caso Master tem duas delações fechadas pela PGR e aumenta pressão sobre Vorcaro e Flávio Bolsonaro

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A partir daí, um dos pontos mais importantes será o cruzamento entre os 17 anexos apresentados por Mansur, as informações fornecidas por Mineiro e os documentos já apreendidos pela Polícia Federal e pelos órgãos de fiscalização. Foto Divulgação/REAG

João Carlos Mansur e Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, firmaram acordos de colaboração com a Procuradoria-Geral da República; materiais foram encaminhados ao ministro André Mendonça, do STF, para homologação

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A investigação sobre o Banco Master ganhou uma nova dimensão nesta semana com a confirmação de dois acordos de colaboração premiada fechados pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O empresário João Carlos Mansur, fundador e ex-controlador da Reag Investimentos, já assinou seu acordo e entregou à PGR 17 anexos com informações e elementos que têm o ex-banqueiro Daniel Vorcaro como principal foco. O material foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por analisar a homologação.

A segunda colaboração é a de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, empresário apontado nas investigações como próximo de Vorcaro. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira (3), a PGR também fechou o acordo e o encaminhou a Mendonça. Mineiro é proprietário da Entre Investimentos e Participações, empresa que, segundo a investigação, teria sido utilizada para realizar transferências determinadas por Vorcaro para um fundo nos Estados Unidos relacionado ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

DUAS COLABORAÇÕES NO MESMO CASO

A importância das duas delações está justamente na possibilidade de cruzamento das informações. Mansur e Mineiro possuem trajetórias e relações diferentes dentro do universo investigado, mas ambos aparecem ligados ao entorno financeiro de Daniel Vorcaro. Com os dois acordos chegando ao gabinete do mesmo relator, o STF passa a ter acesso a relatos que poderão ser confrontados com documentos, movimentações financeiras, contratos, mensagens e demais elementos já recolhidos pelas autoridades.

No caso de Mansur, os 17 anexos representam uma quantidade significativa de material entregue aos investigadores. A colaboração tem como principal alvo Daniel Vorcaro.

Mansur entrou no radar da investigação na segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas a operações envolvendo o Banco Master e fundos de investimento. A Reag, empresa fundada por ele, também foi atingida por medidas de autoridades regulatórias e policiais.

Em janeiro de 2026, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Reag DTVM. Segundo a autoridade monetária, a decisão ocorreu em razão do comprometimento da situação econômico-financeira da instituição e de graves violações às normas que regulam o Sistema Financeiro Nacional.

A dimensão da Reag ajuda a explicar por que a colaboração de Mansur é considerada potencialmente relevante para os investigadores. No auge, o grupo chegou a administrar cerca de R$ 340 bilhões, segundo informações divulgadas pela imprensa. A investigação também identificou operações envolvendo fundos ligados à Reag e ao universo financeiro do Banco Master.

O CAMINHO DO DINHEIRO

A colaboração de Mineiro acrescenta uma outra frente ao caso. De acordo com a investigação citada pela imprensa, a Entre Investimentos e Participações teria funcionado como uma espécie de estrutura operacional utilizada por Vorcaro para determinados repasses.

Os recursos teriam sido enviados ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, administrado pelo advogado Paulo Calixto, que possui vínculos com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL). As autoridades investigam a finalidade dos pagamentos e levantam a possibilidade de que parte dos recursos tenha beneficiado Eduardo Bolsonaro. Até o momento, essas suspeitas precisam ser tratadas como objeto de investigação, e não como fatos definitivamente comprovados.

A conexão com o projeto cinematográfico “Dark Horse” adiciona uma dimensão política ao caso porque envolve recursos financeiros, empresários próximos ao Banco Master e pessoas relacionadas ao círculo político da família Bolsonaro.

O ponto central, entretanto, permanece financeiro: quem determinou os pagamentos, de onde saiu o dinheiro, por quais estruturas passou, quem recebeu os valores e qual foi a finalidade efetiva das transferências.

Essas são justamente as perguntas que uma colaboração premiada pode ajudar a responder quando acompanhada de documentação e outros elementos independentes de prova.

O QUE MUDOU PARA VORCARO

Com duas colaborações fechadas pela PGR, a posição de Daniel Vorcaro no caso pode ficar mais delicada, caso os relatos apresentados sejam confirmados por documentos e outras evidências. A colaboração premiada não produz, por si só, uma condenação nem transforma automaticamente em verdade tudo o que é declarado pelo colaborador. Para que tenha valor probatório, o conteúdo precisa ser corroborado.

No caso de Mansur, a homologação ainda depende da análise do ministro André Mendonça. A legislação exige que a colaboração seja voluntária e que o colaborador apresente elementos capazes de contribuir efetivamente para a investigação. A Justiça também deverá avaliar as condições do acordo.

Há ainda uma particularidade no acordo de Mansur: segundo a apuração publicada pela Folha, a Polícia Federal não participou das negociações finais da colaboração. Mansur chegou a assinar anteriormente um termo de confidencialidade com a PF, mas as tratativas com a instituição não avançaram.

Isso torna a análise do STF ainda mais importante. Mendonça deverá avaliar a regularidade do acordo e a voluntariedade do colaborador antes de decidir pela homologação.

REAG, MASTER E OUTRAS INVESTIGAÇÕES

O caso também não está isolado de outras investigações envolvendo a Reag. A gestora apareceu na Operação Carbono Oculto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e a infiltração do crime organizado na economia formal. Segundo informações divulgadas pela imprensa, fundos relacionados à Reag estavam entre os alvos da investigação. A empresa, entretanto, negou envolvimento com atividades criminosas e afirmou anteriormente que atuou de maneira regular e diligente.

Mansur também já havia negado irregularidades relacionadas à atuação da Reag. Em depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado, defendeu a estrutura de compliance da empresa e afirmou que a instituição teria sido penalizada justamente por sua independência no mercado.

Essas declarações anteriores poderão ganhar novo peso caso os investigadores encontrem contradições entre o que foi afirmado publicamente e o conteúdo apresentado agora na colaboração.

A QUESTÃO POLÍTICA

A presença de políticos entre as pessoas mencionadas na colaboração de Mansur amplia o alcance potencial da investigação, mas exige cuidado jornalístico.

O que poderá produzir consequências jurídicas e políticas são provas independentes que confirmem as acusações ou descrevam relações financeiras, empresariais ou políticas relevantes para os fatos investigados.

O mesmo critério deve ser aplicado às informações envolvendo pessoas ligadas ao bolsonarismo no episódio dos pagamentos relacionados ao “Dark Horse”. A investigação precisa estabelecer documentalmente a origem dos recursos, seus beneficiários e a finalidade das operações.

A PRÓXIMA ETAPA

O próximo passo é a análise dos acordos pelo ministro André Mendonça. Caso sejam homologados, os conteúdos das colaborações poderão ser utilizados oficialmente dentro das investigações, respeitados os limites de sigilo determinados pelo Judiciário. A partir daí, um dos pontos mais importantes será o cruzamento entre os 17 anexos apresentados por Mansur, as informações fornecidas por Mineiro e os documentos já apreendidos pela Polícia Federal e pelos órgãos de fiscalização. Esse cruzamento poderá indicar se existem convergências entre as versões dos colaboradores, identificar novas pessoas ou empresas e apontar movimentações financeiras ainda não esclarecidas.

Por enquanto, o fato objetivo é outro e já é suficientemente relevante: a PGR fechou duas colaborações premiadas relacionadas ao caso Banco Master, e os dois acordos chegaram ao gabinete do mesmo ministro do STF, André Mendonça. A homologação e a comprovação das informações ainda são etapas pendentes.

O caso Master, portanto, entra em uma fase em que documentos, fluxos financeiros e versões de diferentes personagens poderão ser confrontados de maneira mais ampla. E, como costuma acontecer quando o dinheiro começa a falar por meio de planilhas, transferências e contratos, muita gente descobre que memória seletiva não funciona tão bem diante de um extrato bancário.

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