Mensagens, contratos sem licitação, presentes, encontros e relações empresariais colocam ministros, familiares e instituições ligadas à Corte no entorno do ex-banqueiro; até agora, os documentos não comprovam corrupção, mas ampliam as perguntas sobre conflitos de interesse
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
A crise envolvendo o Banco Master deixou de ser apenas uma investigação sobre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes e passou a expor uma rede de relações que alcança diferentes círculos do Supremo Tribunal Federal (STF). Mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro, contratos milionários, encontros reservados, relações empresariais e pagamentos a pessoas próximas a ministros colocam sob escrutínio pelo menos três integrantes da Corte: Alexandre de Moraes, André Mendonça e Kassio Nunes Marques. Os documentos e relatos divulgados até agora não comprovam, por si só, corrupção ou venda de decisões judiciais, mas levantam questões sobre possíveis conflitos de interesse que precisam ser esclarecidas.
No caso de Alexandre de Moraes, a investigação revelou que o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, manteve contratos milionários com o Banco Master. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira (15), o primeiro contrato, firmado em janeiro de 2024, tinha valor de R$ 131 milhões, com previsão de pagamentos mensais de R$ 3 milhões durante 36 meses. Um segundo contrato, de R$ 50 milhões, foi celebrado em maio de 2025. Até 2025, o escritório havia recebido R$ 80,4 milhões do banco. Mas, o escritório através de relatório informou que o dinheiro foi gasto também com perícias técnicas, laudos, que no caso do Banco Master, os valores são bastante elevados.
Moraes nega irregularidades e sustenta que sua atuação não teve relação com decisões do STF. A existência dos contratos, portanto, não prova favorecimento. Mas cria uma questão objetiva para investigação: em que circunstâncias foram celebrados os contratos, quais serviços foram efetivamente prestados, quem autorizou os pagamentos e se houve qualquer sobreposição temporal ou material entre a relação comercial e processos de interesse do Banco Master.
A segunda frente envolve André Mendonça. O ministro admitiu ter recebido Vorcaro em março de 2025, em reunião fora da agenda oficial, na sede do Instituto Iter, entidade fundada por Mendonça. Segundo o ministro, o encontro tratou de precatórios de interesse do empresário e ele teria apenas ouvido Vorcaro.
Antes desse encontro, porém, um advogado que atuava para Vorcaro enviou ao banqueiro um áudio no qual afirmou: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”. A mensagem alimentou a suspeita de que o advogado estaria tentando aproximar Vorcaro do ministro. Mendonça apresentou posteriormente documentos indicando que ele próprio e sua mulher pagaram R$ 26,4 mil pelos trajes adquiridos na alfaiataria. Portanto, até o momento, não há comprovação de que Vorcaro tenha pago o terno.
O ponto que permanece em aberto é a natureza da aproximação. O encontro entre Mendonça e Vorcaro ocorreu fora da agenda oficial e dentro de uma instituição privada fundada pelo próprio ministro. Pouco depois, surgiram outros elementos que passaram a colocar o Instituto Iter no radar da investigação.
Levantamento divulgado pelo UOL mostra que o Instituto Iter firmou pelo menos 52 contratos com órgãos públicos sem licitação em pouco mais de dois anos, somando R$ 8,2 milhões. Entre os contratantes estão órgãos públicos de diferentes estados e municípios. O instituto afirma que os contratos observaram a legislação e que a contratação direta é admitida pela Lei de Licitações em determinadas hipóteses de serviços técnicos especializados.
A conexão com Vorcaro ganhou nova dimensão quando o ministro Flávio Dino determinou esclarecimentos sobre a relação entre o Banco Master, o Instituto Iter e a empresa Cortel, concessionária de serviços funerários em São Paulo. Vorcaro foi recebido por Mendonça no Instituto Iter em março de 2025, um dia antes de o ministro pedir vista em julgamento relacionado ao teto de preços dos serviços funerários. Vorcaro era cunhado de Fabiano Zettel, que foi conselheiro da Cortel.
O terceiro núcleo envolve Kassio Nunes Marques. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro e entregues aos ministros do Supremo registram conversas entre o ex-banqueiro e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, nas quais aparece o nome do advogado Kevin Marques, filho do ministro. Em uma das conversas, há referência a R$ 500 mil mensais.
O caso já havia aparecido anteriormente na documentação financeira. A Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025 e posteriormente repassou R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin Marques, em 11 transferências. Relatório do Coaf apontou incompatibilidade entre os valores movimentados pela Consult e o faturamento declarado pela empresa, de R$ 25,5 mil, levantando a possibilidade de que a companhia tenha funcionado como conta de passagem.
Kevin Marques nega ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido dinheiro diretamente de Vorcaro. Segundo sua defesa, os R$ 281,6 mil foram pagos pela Consult por serviços jurídicos especializados na área tributária. A Consult também afirma que os serviços prestados ao Master estavam relacionados a auditoria, consultoria tributária e implantação de sistemas.
A nova revelação das mensagens, portanto, acrescenta uma camada diferente ao caso. Não se trata apenas da existência de pagamentos documentados pela Consult. O celular de Vorcaro registra uma conversa em que um diretor jurídico do próprio Banco Master associa o nome de Kevin a um pagamento mensal de R$ 500 mil. A diferença entre o valor mencionado na conversa e os R$ 25 mil mensais apontados pela Consult é um dos pontos que precisam ser esclarecidos. A mensagem, isoladamente, não demonstra que os R$ 500 mil tenham sido efetivamente pagos.
A Procuradoria-Geral da República também defendeu que os ministros tivessem acesso integral aos dados antes da sessão. Segundo a PGR, o acesso desigual ao material poderia comprometer a paridade entre os integrantes do tribunal.
É nesse ambiente que surge a pergunta política que ultrapassa o caso individual de Moraes: o que está efetivamente em disputa dentro do STF? Uma interpretação possível é que a crise tenha se transformado em uma disputa pelo controle da narrativa, dos documentos e da própria condução das investigações. Outra hipótese, que precisa ser investigada e não apresentada como fato consumado, é se forças políticas nacionais ou estrangeiras podem estar tentando influenciar o ambiente institucional brasileiro em um momento decisivo para a eleição presidencial.
Até agora, não há prova pública suficiente para afirmar que André Mendonça atue a serviço do governo dos Estados Unidos ou de qualquer estrutura estrangeira. O que pode ser constatado é que Mendonça foi indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e hoje ocupa posição central em uma investigação que envolve pessoas próximas ao campo político bolsonarista. A própria Reuters descreve a disputa no Supremo como parte de uma crise política que ocorre a poucas semanas de uma eleição presidencial decisiva.
A dimensão internacional, entretanto, não pode ser completamente ignorada como objeto de investigação. O caso Master envolve transações e estruturas financeiras com conexões internacionais, inclusive uma operação de US$ 12 milhões investigada no contexto do financiamento relacionado ao filme Dark Horse. Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, é citado na investigação e nega irregularidades.
O que torna o episódio politicamente explosivo é a combinação desses elementos: um banqueiro investigado por um esquema bilionário, contratos milionários, ministros do STF, familiares e pessoas próximas a integrantes da Corte, dinheiro circulando por diferentes empresas, investigações policiais, divergências entre os próprios ministros e uma eleição presidencial na qual Jair Bolsonaro está impedido de disputar e seu filho Flávio aparece como um dos principais candidatos da oposição.
É justamente nesse ponto que a comparação com a Operação Lava Jato reaparece no debate político. Naquela época, vazamentos seletivos, investigações, operações policiais e intensa cobertura jornalística passaram a produzir efeitos políticos que ultrapassaram os processos judiciais. A história não permite concluir automaticamente que o roteiro esteja se repetindo, mas justifica uma pergunta fundamental: o sistema brasileiro aprendeu com os erros daquele período ou está novamente permitindo que investigações criminais sejam transformadas em instrumentos de disputa política?
É nesse ambiente que ganha força a tese de que o objetivo político de parte da ofensiva seria desgastar Alexandre de Moraes. Há pressão política contra Moraes, existem setores que defendem sua responsabilização e o caso envolve acusações sobre sua relação com Vorcaro. Não está demonstrado, porém, que toda a movimentação tenha como objetivo coordenado derrubá-lo, libertar Jair Bolsonaro ou produzir uma anistia para condenados pelos ataques às instituições.
A hipótese, contudo, merece investigação porque os efeitos eleitorais são evidentes. Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência e o caso Master já entrou no ambiente da disputa eleitoral.
A batalha narrativa, portanto, tornou-se parte da própria disputa. Para a direita, o caso pode ser apresentado como demonstração de supostos abusos de Moraes e do STF. Para setores da esquerda, a ofensiva contra o ministro pode representar uma tentativa de enfraquecer quem conduziu investigações e decisões contra Jair Bolsonaro e seus aliados. Entre essas duas narrativas existe um espaço que deveria ser ocupado pela investigação jornalística: documentos, dinheiro, contratos, relações, datas e decisões.
O que o Supremo precisa esclarecer hoje não é apenas se uma investigação contra Moraes deve ou não avançar. É também quem teve acesso a quais documentos, quem produziu cada relatório, quais informações chegaram a cada ministro, quais relações financeiras existem entre os personagens do caso e se houve alguma influência externa sobre decisões públicas.
A questão internacional também precisa ser tratada com rigor. Influência estrangeira em processos eleitorais é uma realidade em diferentes democracias, mas afirmar que os Estados Unidos estão comandando uma operação para interferir na eleição brasileira exige provas. Sem elas, a acusação permanece no campo da hipótese.
O caso Master pode, portanto, representar muito mais do que uma investigação sobre um banco. Pode revelar como dinheiro, poder econômico, relações políticas, Judiciário, imprensa e eleições se cruzam no Brasil de 2026. A sessão desta terça-feira será apenas mais um capítulo. O verdadeiro teste será descobrir se, por trás do espetáculo político, existem provas capazes de sustentar as acusações que estão sendo lançadas de todos os lados.




