Câmara de Campinas vive mandato mais medíocre da história, entre chinelos, provocações e discursos de ódio

Data:

Enquanto a cidade enfrenta problemas graves, plenário se perde em homenagens, nomes de ruas, provocações e confrontos; chinelos arremessados contra vereador simbolizam o nível de degradação do debate político

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp>

Por Sandra Venancio – Jornal Local

Há momentos em que uma instituição consegue revelar sua própria mediocridade sem precisar de nenhum adversário para denunciá-la. A sessão da Câmara de Campinas desta segunda-feira foi um desses momentos. Enquanto a cidade convive com problemas graves e antigos, o Legislativo municipal voltou a oferecer ao cidadão um espetáculo de pautas burocráticas, discussões políticas de baixo nível, provocações, falta de respeito e até chinelos arremessados contra um vereador.

Uma Câmara Municipal existe para fiscalizar o Executivo, discutir políticas públicas, propor soluções para os problemas da cidade e representar os interesses da população. Campinas tem demandas suficientes para ocupar 33 vereadores durante quatro anos sem que falte assunto: saúde, transporte público, segurança, educação, moradia, enchentes, mobilidade, atendimento nas unidades de saúde, situação das escolas, saneamento, trânsito e desigualdade social.

Mas basta acompanhar algumas sessões para perceber que boa parte da energia política do Legislativo parece estar sendo consumida por uma agenda muito menos relevante. Homenagens, títulos, denominações de ruas e projetos de alcance limitado podem fazer parte da atividade parlamentar. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando o acessório passa a ocupar o espaço que deveria ser destinado ao essencial.

E o contraste fica ainda mais evidente quando a cidade olha para dentro do plenário e encontra vereadores envolvidos em discussões que pouco contribuem para resolver os problemas de quem os elegeu. A sessão desta segunda-feira foi um exemplo. Enquanto a pauta formal avançava, o ambiente político era tomado por manifestações, provocações e confrontos.

Durante o discurso do vereador Nelson Hossri, uma mulher que estava na plateia passou a contestá-lo e acabou arremessando chinelos em direção ao parlamentar. Hossri chegou a terminar parte do discurso com um dos chinelos na mão. O episódio poderia ser apenas uma cena pitoresca se não revelasse algo mais sério: o espaço destinado ao debate público está perdendo a capacidade de conviver com a divergência.

Protestar é legítimo. Criticar vereador é legítimo. Vaiar também pode fazer parte da democracia. Arremessar objetos contra um parlamentar, evidentemente, é outra coisa.

Em outro momento da sessão, Hossri reagiu de maneira exaltada às provocações de outro manifestante e chegou a fazer menção de “partir para cima” dele. A situação não avançou porque o líder do governo, Paulo Haddad (PSD), interveio e conteve o vereador. É preciso dizer o óbvio: vereador não pode responder a provocação como se estivesse em uma briga de rua. O mandato exige autocontrole. A tribuna é um espaço institucional. O vereador representa uma parcela da população e, quando está naquele plenário, sua atitude também representa a instituição.

E houve ainda outro episódio revelador do ambiente político da Casa.

Guida Calixto (PT) criticou veementemente o que classificou como discurso de ódio contra o PT feito por Bene Lima. Novamente, o problema não está na existência da divergência. Uma Câmara democrática precisa de oposição, governo, esquerda, direita, centro e opiniões completamente diferentes. O problema é quando o debate abandona argumentos e passa a ser construído sobre ataques pessoais, provocações e discursos destinados mais a incendiar o ambiente do que a produzir alguma solução. É nesse ponto que a discussão sobre a atual legislatura deixa de ser apenas uma crítica ao comportamento de alguns vereadores e passa a ser uma reflexão sobre a qualidade do Parlamento campineiro.

Porque uma Câmara medíocre não é necessariamente aquela que não aprova leis. É aquela que discute muito e transforma pouco. É aquela que ocupa horas de plenário com conflitos políticos enquanto problemas concretos permanecem sem resposta. É aquela em que o vereador se preocupa mais com a repercussão de um vídeo nas redes sociais do que com a fiscalização de um contrato público. É aquela em que uma briga rende mais atenção do que uma audiência pública. É aquela em que uma provocação vira notícia, enquanto uma discussão sobre o orçamento municipal passa despercebida.

E talvez seja justamente essa a imagem que Campinas esteja recebendo de sua Câmara. Uma instituição que deveria ser referência de debate democrático transformada, em alguns momentos, em palco de espetáculo político. Vereador bom é aquele que incomoda o prefeito quando necessário, questiona secretários, fiscaliza contratos, cobra resultados, investiga problemas e apresenta alternativas. O que não pode ser confundido com isso é barulho político.

Campinas tem quase 1,2 milhão de habitantes e problemas proporcionais ao tamanho da cidade. Uma metrópole desse porte precisa de um Legislativo capaz de discutir o futuro do município, e não apenas administrar o cotidiano político do próprio plenário. A população precisa saber o que os vereadores estão fazendo para melhorar o transporte. Precisa saber como estão fiscalizando a saúde. Precisa saber onde estão sendo aplicados os recursos públicos. Precisa acompanhar a discussão sobre segurança, educação, habitação, drenagem e infraestrutura.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe esse Artigo:

spot_img

Últimas Notícias

Artigos Relacionados
Relacionados

Uniformes da Prefeitura de Campinas são encontrados descartados às margens da Rodovia dos Bandeirantes

Prefeitura confirma 409 peças encontradas no km 87 da...

Morador ouve gritos de socorro e mobiliza remadores em resgate de homem no Rio Atibaia, em Sousas

José Luiz, de 46 anos, foi localizado agarrado a...

R$ 14 milhões em dinheiro público banca campanhas de candidatos de Campinas e região

Levantamento mostra repasses para 22 candidaturas de vereadores de...
Prefeitura confirma 409 peças encontradas no km 87 da rodovia e anuncia investigação; episódio se repete meses após uniformes municipais serem localizados em caçamba de entulho <Siga o canal do...