Este trabalho de pesquisa e análise que desenvolvo sobre a velhice surgiu em virtude do grande número de idosos no Brasil e o interesse que a mídia e sociedade têm demonstrado sobre essa população. Pois, a temática velhice e seu correlato envelhecimento nos demonstram um aspecto de fundamental importância nas relações do idoso asilado com suas perspectivas de vida. São estas idéias, relacionando velhice e tempo, que apontam para um sujeito que não investe no presente e nem projeta o futuro. É essa negação de futuro que coloca esse sujeito em confronto com a morte implicando numa decadência psico-social. No que tange o nosso corpus a teoria Psicanalítica contribuirá para evidenciar conceitos os quais desejamos nos associar.
Cabe ressaltar que, atualmente em nossa sociedade, o conceito cultural do jovem em relação ao idoso está muito próximo de nós, pois o que é considerado velho e decadente está posicionado, imaginariamente, em uma relação secundária. Este estado secundário se torna evidente quando o indivíduo perde seu papel central no qual representa um lugar socialmente estabelecido pelas relações de seu meio. Essa perda ocorre de diferentes formas, dependendo muitas vezes da natureza do trabalho e de valores desenvolvidos por este sujeito em seu meio social.
Com efeito, esse processo em que a velhice é um momento de isolamento, retração, de espera da morte – é retratado através de textos literários que abordam o abandono e a solidão dos velhos, através de depoimentos de indivíduos de mais idade que traçam um quadro sombrio da velhice desde os tempos antigos, ou então pela descrição de comportamentos e atitudes capazes de fornecer uma caricatura dos dramas associados à velhice nos dias atuais.
Em uma posição metafórica, surge um conceito do que é renegado pela sociedade, o lixo, é antes de tudo uma questão de cultura que existe fundamentalmente como realidade simbólica. O significado do lixo tem uma história e uma maneira da sociedade lidar com esses dejetos que é guardados em porões ou depósitos e outros conjuntos que não se faz necessários aqui. Mas, o asilo surge como modo de guardar o que a sociedade não quer enxergar e conviver. Desta maneira, os asilos se representam como porões ou depósitos para guardar velhos e moribundos.
É nesta perspectiva de pesquisa sobre o idoso, que retrata um envelhecer peculiar dentro de nossa realidade, a qual podemos perceber que o envelhecimento é um processo ambíguo de forma que os indivíduos vão lidando com perdas: físicas, sociais e psicológicas e vão adquirindo ao longo de suas vidas experiências que não se conquistam senão vivendo este processo. E conseqüentemente, essa representação do sujeito idoso e da sociedade contemporânea fundamentam a idéia de que o sujeito e a sociedade perdem a marca do absoluto e passam a ser concebidos essencialmente como históricos, isto é, como algo onde as dimensões do tempo e da temporalidade passam a ocupar um lugar teórico essencial, e mais, o sujeito passa a ser representado não apenas como um ser histórico, mas também como agente crucial da sua própria história.
Diante deste aspecto sobre a marca do tempo, do ponto de vista psicológico, podemos observar essa manifestação como uma forma quase masoquista. Pois, para o idoso asilado o tempo parece ser mais insuportável em virtude de quando surgem os momentos em que as horas se repetem sem perspectivas aparentes, permitindo, no entanto, que a meditação seja freqüente. O tempo tem uma importância sinistra, faz da vida o que quiser. Raros são os sujeitos que o acolhem com serenidade, desapegados de todas as coisas contemplativas.
Alguns idosos passam por sofrimentos que não têm fim, muitos brincam com o tempo para tirar dele o máximo. Outros ainda, sofrem seus efeitos com uma passividade surpreendente. Na relação do idoso com o tempo ninguém pode descrever, aproximar-se das longas horas de insônia, tão próximas de uma lucidez extravagante que faz e refaz a cada noite um balanço, a aproximação da morte, horas, sobretudo, de verdadeira solidão em que nada pode ser compartilhado, em que não há nada além da memória, do medo de ficar louco, do sentimento de não existir.
Nesse sentido, há dois psiquismos que se opõem: a vida de todo o dia, com suas regras sociais, o controle das emoções, o investimento nos outros, e depois, há uma vida roubada, entregue aos “demônios” que tomam o poder, o qual exige às vezes um exorcismo. A idade do envelhecimento não é necessariamente a passagem da “primeira” vida para a “segunda”. Também, não é menos verdadeiro que o acúmulo das emoções, dos fracassos, das renúncias, das decepções que constroem uma pirâmide alta, misteriosa, intransponível que, sedimentando-se com o tempo que passa, torna-se um dique, um muro que não permite mais recuar.
Desta forma, com o avançar da idade, depois de ter sofrido várias perdas o idoso enfrenta a proximidade de uma perda em sua vida que é irreversível, o sentimento de morte, causando-lhe medo, muito embora nunca se saiba quando uma pessoa possa morrer. O medo da morte é um sentimento assustador, carregado de emoções que abate as pessoas de forma insuportável, pois morrer é um fato desconhecido, é um deixar de existir. Segundo Freud [1] “Somos incapazes de imaginar nossa própria morte”. Essa pulsão de morte se expressa com ambivalência de pulsão de vida, pois a pulsão de morte retorna ao sujeito na forma do sentimento de medo e agressão.
Nesse sentido, o sujeito anímico adquire para si ontologicamente a pulsão de morte que será interno/externo à vivência de uma constituição do seu eu com o supereu. Essa relação com a morte para o sujeito idoso demonstra que não é a proximidade com a morte efetiva que o angustia, mas pelo fato do outro (dos entes queridos, dos conhecidos) que está ao seu redor morrer. E, é nessa ambivalência de vida/morte em relação ao objeto que faz que o sujeito idoso desenvolva a agressividade na relação conjugal, e nessa estruturação melancólica o sujeito se identifica com o objeto que morreu e com isso gerando nele próprio a agressão e a culpa.
Desta forma a estrutura no supereu do sujeito se organiza em relação as perdas, se culpando pelos objetos perdidos e olhando para si com melancolia. Este processo melancólico ocorre em função da perda da libido visto que, há um investimento do objeto perdido, o sujeito idoso fica desestruturado porque a libido surge como angústia de morte. Em virtude desse processo a melancolia aparece a partir do momento que o sujeito concebe a si mesmo como objeto, ele sente que não realizou tudo para com o objeto perdido, então o sujeito idoso passa a tecer uma relação com a morte para si.
Esse efeito produz uma reordenação das instâncias do supereu em relação angustiante e depressiva com a morte. Assim, desenvolve o sentimento inconsciente de que é melhor o outro morrer do que eu. Visto que o sujeito morre por causas internas quando ocorre o dano físico, a libido é retirada do mundo e é colocada narcisicamente na relação com o princípio do prazer, a qual é direcionada para o local onde está a agressão. Deste modo, a doença serve para manutenção do princípio do prazer, visto que se não acontece, a quantidade de libido não é descarregada dessa forma e, por conseguinte, o sujeito idoso não vive porque essa quantidade de libido por não ter onde ser descarregada.
Então, o fator emocional é importante na relação estabelecida do idoso com a doença, sendo isto fundamental para a sua adaptação a esse processo de envelhecimento, pois os fatores psicológicos interferem no seu envelhecimento e se caracterizam em fatores como: solidão, aflição, dependência e medo. A solidão leva muitas vezes os idosos a ter pouco contato com as pessoas, a aflição ou angústia da perda de parentes próximos ou de amigos, seja por morte, seja por mudanças de local e por perdas de órgãos em decorrência de doenças. Também, a dependência física ou psico-social afeta a saúde dos idosos causando doenças, isolamento, falta de companhia para desenvolver atividades básicas como: alimentar, higiene pessoal, caminhar etc.
Esses aspectos, acima descritos, desencadeiam em ações que podemos denominar segundo Freud como estímulos [2] que atuam na mente, surgindo dentro do próprio organismo, de modo que estes estímulos atuam diferentemente sobre a mente, e diferentes ações se tornam necessárias para removê-los, pois, tudo que é essencial num estímulo fica encoberto.
Dentro da classe dos instintos podemos entender que o sadismo é uma dos seus representantes, e com base teórica ancorada na biologia, apresentaremos a hipótese de um instinto de morte, cuja tarefa é conduzir a vida orgânica de volta ao estado inanimado. Por outro lado, imaginamos que o instinto de Eros [3] , por ocasionar uma combinação de conseqüências cada vez mais amplas das partículas em que a substância viva se acha dispersa, visa a complicar a vida e, ao mesmo tempo, naturalmente, a preservá-la. Agindo dessa maneira, os instintos seriam conservadores no sentido mais estrito da palavra, visto que ambos estariam se esforçando para restabelecer um estado de coisas que foi perturbado pelo surgimento da vida.
O surgimento da vida seria, então, a causa da continuação da vida e também, ao mesmo tempo, do esforço no sentido da morte. E, a própria vida seria um conflito e uma conciliação entre essas duas tendências. Assim, o problema da origem da vida permaneceria cosmológico, e o problema do objetivo e propósito da vida seria respondido dualisticamente. Percebemos que, para fins de descarga, o instinto de destruição é habitualmente colocado a serviço de Eros. Visto isso, suspeitamos que a defusão instintual pronunciado do instinto de morte exigem considerações específicas entre os efeitos de algumas neuroses graves, tais como por exemplo: neuroses obsessivas.
Então, diante destes aspectos, podemos fazer uma generalização de que a essência de uma regressão da libido reside numa defusão de instintos. Sendo assim, é natural que voltemos a indagar com interesse, se poderia haver vinculações instrutivas a serem traçadas entre, de um lado, as estruturas que presumimos existir – o ego, o superego e o id – e, de outro, as duas classes de instintos que poderiam demonstrar que o princípio de prazer que domina os processos mentais tem alguma relação constante tanto com as duas classes de instintos quanto com essas diferenciações que traçamos na mente.
Parece existir um fato para a oposição entre as duas classes de instintos que podemos encontrar nas duas polaridades do amor e ódio como representante de Eros, mas há dificuldade em encontrar um representante evasivo para o instinto de morte no instinto de destruição, o qual o ódio aponta o caminho. Portanto, a partir das considerações teóricas acima, compreendemos que no espaço do asilo o amor é regularmente, acompanhado pelo ódio sendo este sentimento um precursor do amor. Mas, também, encontramos em algumas circunstâncias, o ódio se transformando em amor e o amor em ódio. Observamos este aspecto no momento em que os idosos são retirados de suas letargias para uma prática de esporte, por uma consulta ao Centro Geriátrico, enfim, de sua rotina. Há, momentos em que eles são violentos, brutos e mal educados e no mesmo instante passam a ser educados, dóceis e amáveis. É como se fosse um lampejo de transição do inconsciente e consciente diante da realidade.
E a partir disso, podemos facilmente passar a presumir que essa libido deslocável é empregada a serviço do princípio de prazer, para neutralizar bloqueios e facilitar a descarga. Com relação a isso, identificamos uma certa indiferença no que se refere o caminho ao qual a descarga se efetua, desde que se realize de algum modo. Podemos dizer, então, que este processo faz parte dos processos de catexias no Id e é encontrado nas catexias eróticas, onde se manifesta uma indiferença peculiar com relação aos objetos, sendo especialmente evidente nas transferências que surgem na análise dos indivíduos no interior do asilo.
Para a teoria da psicanálise, o idoso não consegue se adaptar a diferentes objetos, se fixa apenas em um objeto, se ele o perde, ocasiona angústia porque tem dificuldade em repor esses objetos e também, não tem motivação. Aqui, entendemos por angústia o disfarce do desejo, do conteúdo latente, porque ele não consegue construir outro objeto de significação. Isto é, o idoso para expressar a angústia se utiliza das relações de prazer/desejo, repressão/recalque, desprazer visto que na relação destes aspectos constituem o mundo e o sujeito. Essa decorrência se dá através de Isso, este representa o passado herdado, que expressa a intenção da vida, mas não expressa a intenção de sobrevivência.
Vale dizer que a vida anímica se expressa pela primeira vez na expressão do corpo, lugar da conservação da vida, que não é a sobrevivência, mas é uma natureza de conservação do deslocamento do somático para a sobrevivência de si mesmo, o qual não pode ser atribuído a Isso porque a pulsão é causada pela exigência corporal, pois o sujeito anímico da conta de ser corpo e Isso da conta de uma realidade corporal de repetição e não de sobrevivência.
Por fim, Freud em sua teoria diz que, para o idoso reconstruir o objeto (de afeto) do libido rígido para outro, o flexionado porque é mais interessante para ele. Se o idoso não consegue construir esse processo tem como causa a depressão em relação ao objeto angustiante, pois ele necessita permanecer seguro em relação aos seus objetos, não deseja que seus objetos sejam flexionados, isto parece implicar uma importante ampliação da teoria do narcisismo. Desta forma, o idoso se relaciona nas pulsões que podem alterar e substituir as outras pulsões do Eros e o Instinto destrutivo, contraste em autopreservação e a preservação, visto que a pulsão de morte tem uma repetição portadora de sentidos, de destruição dele mesmo.
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Segmund. Esboço de Psicanálise. Trad. REGO, Mª Apdª Moraes, Imago, R.J., 2001.
FREUD, Segmund. Obras Completas. Vol. I, Trad. Directa del aleman por LOPEZ,Luiz-BALLESTEROS Y de TORRES, La Organizacion Y Revision de los textos há sido realizada por el Doctor Germain. Editorial Biblioteca Neuva, Madrid,1967.
FREUD, Segmund. Essais de Psychanalyse. Consideratións axtueles sur la guerre et sur la mort. Au-delà du principe de plaisir. Psicologie des foules et enalyse du Moi. Le Moi et le Ça. Trad. De L’allemand, sous la responsabilité de André Bourgignon, par J. Altounian, A. Bourguignon, O. Bourguignon, A. Cherki, P. Cotet, J. Laplanche, J. B. Pontalis, A. Rauzy. Ed. Petite Bibliotèque Payot/15 1981.
Transtornos Emocionais do Envelhecimento
O relacionamento do idoso com o mundo se caracteriza pelas dificuldades adaptativas, tanto emocionais quanto fisiológicas; sua performance ocupacional e social, o pragmatismo, a dificuldade para aceitação do novo, as alterações na escala de valores e a disposição geral para o relacionamento objectual. No relacionamento com sua história o idoso pode atribuir novos significados a fatos antigos e os tons mais maduros de sua afetividade passam a colorir a existência com novos matizes; alegres ou tristes, culposas ou meritosas, frustrantes ou gratificantes, satisfatórias ou sofríveis… Por tudo isso a dinâmica psíquica do idoso é exuberante, rica e complicada.
Freud afirmava, com notável sabedoria, que os determinantes patogênicos envolvidos nos transtornos mentais poderiam ser divididos em duas partes:
1- aqueles que a pessoa traz consigo para a vida e;
2- aqueles que a vida lhe traz(2).
Na senilidade isso fica mais evidente ainda, de um lado os fatores que o indivíduo traz consigo em sua constituição e, de outro, os fatores trazidos à ele pelo seu destino. O equilíbrio psíquico do idoso depende, basicamente, de sua capacidade de adaptação à sua existência presente e passada e das condições da realidade que o cercam..
Solidão, Velhice & Folclore
Dizem que a solidão é a maior doença social do século, afirmativa que me parece fugir à verdade, de vez que o ser humano sempre conviveu com este problema durante toda a História da humanidade.
0 cristianismo, tem embalado o sonho religioso de tanta gente através dos séculos, ensina que Deus fez Adão à sua imagem e semelhança e, depois de lhe dar o sopro da vida, constatou que o primeiro homem vivia muito solitário no luxuriante Paraíso Terrestre, desconhecendo qualquer outro seu semelhante, vendo apenas sua imagem refletida na tranqüila superfície das águas, sem ter com quem falar. Foi quando Deus, aproveitando o momento em que Adão dormia profundamente, tirou-lhe uma costela e dela fez Eva, pondo termo ao problema de sua solidão, dando origem a outros, próprios de quem tem vida em comum.
Acredito, entretanto, que sendo a solidão a maior doença social dos séculos, o problema tenha se agigantado nos dias em que vivemos, em conseqüência da densidade demográfica dos grandes centros urbanos, responsável pela diminuição do relacionamento social entre as pessoas, o que não acontece nas pequenas cidades, onde a vida social é muito mais ampla, por força de as pessoas se conhecerem melhor. Nas megalópolis, o número de pessoas que não se conhecem cresce assustadoramente, fazendo com que o relacionamento social se restrinja aos membros da mesma família, aos vizinhos ou aos que habitam os edifícios de apartamentos. No mais, as pessoas apenas se conhecem no local de trabalho, gerando, assim, uma dualidade sócio-familiar. Acredito até mesmo que a ausência das cadeiras nas calçadas – hábito de alguns séculos e que ainda hoje persiste nas pequenas cidades – tenha a ver com o enclausuramento a que estamos condenados.
Acontece, também, que o isolamento das pessoas nos grandes centros e até mesmo nas cidades menores, possa ser uma decorrência da televisão que muito tem a ver com a diminuição da vida em sociedade, escravizando as pessoas através de suas telinhas mágicas. Outra causa do isolamento social é o clima de insegurança nas ruas – palco cotidiano de assaltos e de toda a sorte de violência -fazendo com que as pessoas não saiam tanto de casa, como acontecia antigamente. As sorveterias (as caixinhas de sorvetes, de diversos sabores, são adquiridas nos supermercados), os cinemas (os filmes que chegam pela televisão ou por intermédio das locadoras), os barzinhos (as cervejas estão nas geladeiras), não levam mais as pessoas à rua, com exceção dos adolescentes, onde a insegurança é um fato e o orçamento doméstico da classe média não comporta despesas extraordinárias.
A violência, a insegurança, o medo, o cansaço após uma longa semana de trabalho, o orçamento doméstico apertado, a televisão, a moradia em apartamento, estão fazendo com que o homem, nas grandes cidades, fique cada vez mais em casa, cada vez mais só, convivendo com sua solidão. Uma solidão que adoece as pessoas, social e organicamente, fazendo-as irritadiças, provocando discussões, entre os casais, capazes de solapar até mesmo o equilíbrio da vida conjugal, criando, às vezes, uma outro forma de solidão ainda mais triste, que é a solidão a dois.
A solidão é, assim, uma doença social que faz maior número de vítimas entre as pessoas da terceira idade. Os adolescentes, os jovens, que mal começaram a descobrir os caminhos da vida, com exceção dos introspectivos e dos sonhadores, não se deixam dominar pela solidão. É que eles ainda estão sentindo as primeiras chamas de esperança, arquitetam seus projetos impulsionados pela aventura, têm uma meta a atingir. Os da terceira idade, pelo contrário, já percorreram muitos caminhos, tiveram suas decepções, sofreram adversidades, acordaram de todos os sonhos, rotinaram. a existência e se encontram no crepúsculo da vida, ruminando e vivendo um passado remoto, povoado de saudades, esperando apenas seu ponto final. E tudo acontece ainda com mais impetuosidade quando as pessoas vestem a roupa dos anos vividos e se entregam, de corpo e espírito, aos problemas da velhice. Mas se os velhos tiverem o espírito jovem e encararem a velhice como um estágio natural, essa velhice tomará outro rumo, mudará de feição.
A solidão dos velhos tem as suas causas, entre as quais a da família. Se o terceiridoso tiver uma família numerosa – uns cinco filhos, por exemplo – sempre ficarão um ou dois deles em sua companhia e a casa não ficará tão vazia. Se tiver uma família de apenas dois filhos, corre o perigo de ficar só quando casarem ou forem morar em outra cidade. E se morrer um dos cônjuges a situação se complica ainda mais porque o sobrevivente ficará em companhia de seus achaques, impossibilitado de viver sozinho, e a solução será morar em um abrigo, onde se sentirá ainda mais só, imprestável, abandonado, desprezado. E, na opinião de Montherlant, “os velhos morrem (mais depressa, acrescento) porque já não são mais amados”.
A solidão e a velhice constituem um problema muito complexo, merecedor de um estudo mais aprofundado. A minha experiência de vida, com meus setenta e seis anos bem vividos, me dá o direito de saber alguma coisa sobre o assunto. Com o espírito jovem, pai de sete filhos, com algumas noras e netos, com a casa sempre cheia aos sábados e domingos, tenho tido essa alegria, duas vezes por semana, de festejar a vida. E, de mãos postas, agradecer a Deus por me ter dado vivê-Ia, ao lado da companheira de tantos anos.
Será que não existe nenhum remédio, nenhuma coisa que se possa fazer para, pelo menos, diminuir ou melhorar os efeitos da solidão? Ter um ou vários hobbies não deixa de ser uma alternativa bem interessante de evitar os cismares, preenchendo os dias longos. Colecionar caixas de fósforo, lápis de propaganda comercial, latinhas de cerveja, garrafas ou rótulos de cachaça, ouvir música, fotografar os assuntos que ainda não foram fotografados, explorar as ondas curtas no rádio, fazer radioarnadorismo e ter outros hobbies bem ajudam os terceiridosos a fugir da solidão.
No Rio de Janeiro, existiu, ou ainda existe, o Clube dos Solitários, onde as pessoas que se sentem sós, se encontram para trocar idéias, dançar, começar romances.
0 folclore da velhice é muito rico. Provérbios, ditos populares, a dança dos velhos nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, o serra-velho durante a Páscoa, a poesia popular em verso e o anedotário, tendo a velhice como tema, são de uma riqueza sem par. 0 povo costuma dizer:
– Velho que se cura, cem anos dura.
– Queda de velho não levanta poeira.
– Carreira de velho é choto.
– Não há moço doente, nem velho são.
– Velho não se senta sem dizer “Ui!” e nem se levanta sem dizer “Ai!”.
– Velho? Só vinho, perfume, dinheiro e viúva rica.
– Velho é como panela, rede e balaio: só se acaba pelos fundos.
Diz do velho, muito velho, que ele é “mais velho do que a Sé de Braga”, que “já pendurou as chuteiras”, “que está mijando nos pés”, “que é bananeira que já deu cacho”, “que está de cachimbo apagado”, “que é mais velho do que a posição de cagar de cócoras”.
Há velhos que não gostam de ser chamados de velhos e dizem que “velho é o tempo”, que “velho é a estrada”. Dizem que, simplesmente não são velhos, mas apenas usados.
Em matéria de amor, os velhos não foram esquecidos: “Velho apaixonado com pouco tempo está casado”, “Velho com amor, jardim com flor” ou “Velho com amor, morte em redor”. A sabedoria popular chega a ser cruel quando se refere à vida sexual dos velhos: “Ao velho recém-casado, reza-lhe por finado”, “Velho casado com moça de poucos anos, como temos”, “Não se deve acreditar em três coisas: lágrimas de viúva, arrufos de namorados e arranco de velho”e “0 que acaba com velho e vento pelas costas, chuva na cabeça e mulher pela frente”.
Dizem os moços: Quem gosta de velho é rede, reumatismo e filha do INPS”, “Papagaio velho não aprende a falar”. Os velhos revidam: “Pote velho é que esfria a água”, “Coco velho é que dá azeite”, “A cavalo velho, capim novo”, “Em panela velha é que se faz comida gostosa”. Já o anedotário dos velhos é terrivelmente impróprio para menores. Escolhi estas três anedotas, as mais leves que me lembrei:
0 velho tomou o café da manhã, pegou o jornal e começou a ler. De repente, gritou:
– Mulher, vem cá!…
– 0 que é João?
– Veja este anúncio: “Mulher solitária e rica precisa de homem para manter relações sexuais, pagando R$ 500,00 por cada coito”. Tá vendo, mulher! Agora vou ganhar dinheiro, já estou empregado.
A mulher olhou o velho marido e retrucou:
– Não está vendo, João, que você não pode sustentar a família com apenas R$ 500,00 por mês?
Depois de cinqüenta anos de casados, marido e mulher voltaram à Europa para comemorar a data. Procuraram, em Paris, o mesmo hotel, o mesmo apartamento e, no dia certo, pediram o jantar no quarto. Luz de vela, champanhe do bom e a velha vestiu a camisola do dia, guardada com todo o carinho.
– Maridinho eu estou me lembrando da nossa lua de mel aqui. Você foi tão carinhoso… Me acariciou, me beijou. Eu até já estou sentindo um calor danado dentro de mim, como na primeira noite.
– Calor coisa nenhuma, mulher. É que seus peitos caíram dentro da sopa.
0 coronel Ambrósio andava pela casa dos 70 anos quando enviuvou. Até aí tudo normal, natural até. Mas aconteceu o pior: o coronel Ambrósio, homem de muitas posses, se apaixonou por uma menina de dezoito anos, bonita, bem feita e que, com sua faceirice e dengos deixou o coronel gamado. A família entrou em pânico. Todos os filhos conversaram com o velho, dizendo das desvantagens do casamento, que a moça só podia estar interessada no dinheiro dele, etc. Ninguém conseguiu demover o coronel dos seus propósitos de casar com a menina. 0 velho estava enfeitiçado, mesmo. Os filhos do coronel mandaram chamar o irmão mais velho que morava na capital e era médico, prá ver se ele conseguia resolver o assunto, acabando com o casamento. 0 filho mais velho chegou e, logo no outro dia, foi direto ao assunto:
– Estou sabendo que o senhor vai casar, é verdade?
– É meu filho. A Nazinha é moça de muitas prendas e eu não posso viver sem ninguém perto de mim.
– Mas, pai, o senhor não vê que ela, com dezoito anos, vai casar com os seus setenta anos por causa do dinheiro?
– Tem nada não, meu filho. 0 dinheiro é muito e dá prá todos. E eu darei uns cobres a ela e um pedaço de terra. Não vai fazer falta a vocês, que ficarão com toda a fortuna, que é grande.
0 filho mais velho, o médico resolveu dar a última cartada:
– Mas, pai um casamento desse pode ser fatal, mortal.
– Tem nada não, filho. Se ela morrer eu caso com outra.
Aí está a solidão, a velhice e seu folclore. Teria muito mais o que contar não fora o espaço ser pequeno. E aqui fica um apelo: amem os velhos, que já geraram vidas, trabalharam, caçaram quimeras, lutaram, travaram batalhas e tudo fizeram para que os jovens existissem e fossem felizes. E fossem os velhos do amanhã.
Drauzio – Existe alguma diferença nos resultados quando os idosos vivem na companhia de famílias numerosas e quando vivem isolados?
Cássio Bottino – Esse é um dado que ainda estamos analisando. No entanto, já sabemos que nos viúvos, independentemente do sexo, é maior a freqüência de comprometimento cognitivo. Vale mencionar que, na amostra populacional por nós pesquisada, havia mais ou menos 2/3 de mulheres e 1/3 de homens, dado que esperávamos encontrar e que se explica pelo fato de as mulheres viverem mais do que os homens.




