Candidato Renan Santos afirma que rede conservadora americana ligada ao vice de Trump teria procurado candidatos brasileiros e acabado na campanha de Flávio; empresários citados negam intermediação de recursos
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O candidato à Presidência Renan Santos (Missão) acusou a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) de ter recebido apoio financeiro da Rockbridge Network, uma influente rede de financiadores e operadores políticos conservadores dos Estados Unidos, criada em 2019 por J.D. Vance, atual vice-presidente de Donald Trump, e pelo empresário Chris Buskirk. A denúncia, divulgada nesta sexta-feira (11), ainda não foi acompanhada, publicamente, de documentos que comprovem repasses da organização americana para a campanha brasileira. Empresários apontados como intermediários negam ter movimentado dinheiro para candidaturas no Brasil.
A acusação foi feita por Renan durante discurso no último sábado (5). Segundo o candidato, representantes da Rockbridge teriam vindo ao Brasil durante o processo eleitoral em busca de espaço político e inicialmente procurado pessoas ligadas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), antes de se aproximarem de Flávio Bolsonaro.
“Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio”, afirmou Renan.
Em seguida, o candidato fez uma acusação mais direta: “Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”.
Até o momento, porém, a afirmação sobre eventual entrada de dinheiro estrangeiro na campanha de Flávio Bolsonaro permanece como acusação política e não como fato comprovado. A comprovação exigiria a identificação da origem dos recursos, dos intermediários, dos destinatários e da eventual contabilização ou utilização desses valores em benefício eleitoral.
Rede de doadores ligada ao núcleo trumpista
A Rockbridge surgiu de um encontro de grandes doadores conservadores realizado em 2019 e passou a funcionar como uma rede de financiamento e articulação política da direita americana. J.D. Vance foi um dos cofundadores ao lado de Chris Buskirk. Vance atualmente ocupa a vice-presidência dos Estados Unidos, embora não mantenha uma função formal na organização.
A estrutura ganhou importância dentro do movimento MAGA e reúne empresários, investidores e doadores ligados à direita americana. Reportagens internacionais descrevem a Rockbridge como uma rede capaz de direcionar recursos para organizações políticas, pesquisas, mobilização eleitoral e iniciativas de comunicação.
Esse histórico é relevante para a acusação brasileira porque não se trata simplesmente de uma organização empresarial estrangeira. A Rockbridge nasceu de um ambiente político americano e desenvolveu uma infraestrutura voltada à atuação política e eleitoral nos Estados Unidos.
Uma reportagem da Reuters descreveu a rede como uma estrutura financiada por grandes doadores e composta por organizações políticas e um super PAC, com atuação em mobilização de eleitores, pesquisas e iniciativas de comunicação.
Empresários citados negam envio de dinheiro
Dois empresários mencionados nas acusações, Tallis Gomes e Pedro Sang, negaram ter intermediado recursos estrangeiros para campanhas brasileiras.
Sang confirmou ter mantido contato com integrantes da Rockbridge, mas afirmou que as conversas estavam relacionadas à possibilidade de investimentos na área de tecnologia no Brasil. Segundo ele, nenhum valor teria sido transferido pela organização para campanhas brasileiras.
Tallis Gomes também negou ter arrecadado dinheiro para Flávio Bolsonaro. O empresário afirmou manter conversas com diferentes candidaturas, entre elas as de Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), mas disse não ter aderido formalmente a nenhuma delas.
Gomes e Sang afirmaram que pretendem adotar medidas judiciais contra os responsáveis pelas acusações.
Outro nome citado é André Marinho, candidato do Novo ao governo do Rio de Janeiro. Filho do empresário Paulo Marinho, que foi suplente de Flávio Bolsonaro no Senado, André confirmou ter conhecido Chris Buskirk e viajado a Dallas, no Texas, a convite do grupo.
Segundo ele, a viagem teve como objetivo conhecer a estrutura da Rockbridge e discutir uma eventual instalação da organização no Brasil. Marinho afirmou não ter conhecimento de recursos americanos destinados à campanha de Flávio.
O que diz a legislação eleitoral
A acusação ganha relevância jurídica porque o artigo 24 da Lei nº 9.504/1997, a Lei das Eleições, proíbe partidos e candidatos de receberem, direta ou indiretamente, doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro provenientes de entidade ou governo estrangeiro. A regra também alcança determinadas entidades privadas e organizações que recebem recursos do exterior.
Isso significa que, caso fosse comprovado que uma organização estrangeira financiou direta ou indiretamente uma campanha brasileira, a origem e o caminho dos recursos teriam de ser examinados pela Justiça Eleitoral e pelos órgãos de investigação.
O ponto central, portanto, não é apenas saber se integrantes da Rockbridge conversaram com brasileiros ou se participaram de reuniões políticas. A questão juridicamente relevante seria verificar se houve dinheiro, serviço, estrutura, publicidade, consultoria ou outro benefício economicamente mensurável fornecido por entidade estrangeira em favor de uma candidatura.
Também seria necessário determinar se eventual apoio ocorreu diretamente ou por meio de pessoas físicas, empresas, organizações intermediárias ou estruturas sediadas fora do Brasil.
Acusação ocorre em momento de pressão sobre Flávio
A denúncia envolvendo a Rockbridge surge em um momento particularmente sensível para Flávio Bolsonaro, que também aparece no centro de outra investigação relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro (PL).
Nesse caso, a Polícia Federal investiga a origem e o destino de recursos atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, incluindo aproximadamente R$ 61 milhões transferidos para estruturas relacionadas à produção cinematográfica. A investigação conduzida no STF apura possíveis crimes financeiros e outras irregularidades.
As duas situações são distintas e não devem ser tratadas como se fossem parte de uma única investigação. Entretanto, politicamente, ambas colocam sob escrutínio as relações entre Flávio Bolsonaro, empresários, financiadores e estruturas privadas nacionais e estrangeiras.
No caso da Rockbridge, ainda falta responder à principal pergunta: houve efetivamente transferência de dinheiro ou de recursos economicamente mensuráveis para a campanha de Flávio Bolsonaro?
Essa resposta não pode ser obtida apenas pela existência de reuniões, viagens, contatos empresariais ou afinidades ideológicas. Seriam necessários documentos bancários, registros de transferências, contratos, notas fiscais, prestação de contas eleitorais ou outros elementos capazes de demonstrar eventual benefício financeiro.
Enquanto esses elementos não forem apresentados, a afirmação de que a Rockbridge financiou Flávio Bolsonaro permanece uma acusação feita por um adversário político. Os empresários citados negam a existência de repasses.
O episódio, entretanto, abre uma frente de apuração relevante para a eleição brasileira: a eventual circulação de dinheiro e estrutura política estrangeira em campanhas presidenciais de 2026. Se houver comprovação documental, o caso poderá deixar de ser apenas uma disputa retórica entre candidatos e chegar ao terreno da Justiça Eleitoral.




