Lanterna da Série B, clube enfrenta sequência histórica de derrotas, queda de público e relatos de trabalhadores que estão há meses sem receber
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A crise financeira e esportiva da Ponte Preta chegou a um dos momentos mais delicados de sua história recente. Após a derrota por 2 a 0 para o São Bernardo, domingo (6), no Moisés Lucarelli, jogadores da equipe fizeram um apelo público por uma solução para os problemas do clube e relataram a situação de funcionários que continuam trabalhando mesmo diante de meses de salários atrasados.
O lateral-esquerdo Danilo Barcelos, que foi capitão da equipe na partida, afirmou que a situação chegou a um ponto crítico. “A situação é crítica, precisamos de socorro o mais rápido possível”, declarou após o jogo.
O volante André Lima também cobrou uma solução para a crise e afirmou que as disputas políticas e as indefinições administrativas não podem se sobrepor à sobrevivência da instituição.
“Quero que resolvam o problema da Ponte, quero que a Ponte saia do buraco. Só quero que o clube não venha à falência”, afirmou.
Funcionários relatam meses sem salário
Relatos de trabalhadores ouvidos pela reportagem apontam que os atrasos atingem diferentes setores da Ponte Preta e apresentam períodos distintos.
Uma funcionária afirmou estar há quatro meses sem receber e disse depender da ajuda dos filhos para manter as despesas básicas. Outro trabalhador, ligado ao futebol profissional, relatou que o último pagamento feito diretamente pelo clube ocorreu em junho de 2025. Desde então, segundo ele, foi obrigado a procurar outras duas atividades remuneradas para complementar a renda. O trabalhador afirmou que deixou de comparecer diariamente ao Moisés Lucarelli e passou a realizar parte das atividades de casa, indo ao estádio principalmente nos dias de jogos. Um terceiro funcionário disse estar sem receber desde janeiro e afirmou que precisou encontrar outro emprego para evitar que a falta de pagamento comprometesse até mesmo sua alimentação. “Se eu não arrumasse outro emprego na minha área profissional e tivesse que esperar só o clube honrar com seus compromissos, eu estaria passando fome”, relatou.
Os trabalhadores ouvidos pediram que seus nomes não fossem divulgados.
Jogadores já haviam paralisado atividades
A manifestação dos atletas aconteceu depois de uma paralisação iniciada em 26 de agosto. Na ocasião, o elenco informou que alguns jogadores acumulavam até seis meses de salários atrasados. A mobilização terminou sem que todos os débitos fossem regularizados.
Segundo André Lima, a decisão de voltar aos treinamentos levou em consideração não apenas a situação dos próprios jogadores, mas também os funcionários do clube e os atletas das categorias de base.
O volante afirmou que uma paralisação prolongada poderia prejudicar os jovens jogadores que seriam obrigados a assumir responsabilidades no time profissional.
“Nós não voltamos por pressão de Eberlin, de ninguém”, disse o jogador, ao explicar que a decisão foi tomada diante da necessidade de preservar o clube e os atletas mais jovens.
André Lima também afirmou que não considera o principal problema quem estará no comando da Ponte Preta.
“Não quero saber quem vai entrar, se Eberlin vai continuar, se a oposição vai assumir ou se vai virar SAF. Quero que resolvam o problema da Ponte”, declarou.
SAF é apresentada como alternativa
A direção da Ponte Preta trabalha com a possibilidade de criação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) como uma das alternativas para enfrentar a crise financeira. A proposta deverá ser apresentada aos associados em Assembleia marcada para o dia 19 de setembro.
A eventual transformação do futebol do clube em SAF, porém, ainda depende da aprovação dos procedimentos internos previstos e não representa uma solução imediata para os salários atualmente atrasados.
A situação financeira também ocorre em meio a disputas políticas internas e questionamentos sobre a condução administrativa da Ponte.
Ponte vive pior momento esportivo
Dentro de campo, o cenário também é crítico. Com a derrota para o São Bernardo, a Ponte Preta chegou a 20 partidas consecutivas sem vencer na Série B do Campeonato Brasileiro, segundo os dados apresentados no levantamento sobre a temporada. A equipe somava apenas 10 pontos em 26 rodadas e ocupava a última colocação da competição. Em 36 partidas disputadas na temporada, o time havia acumulado 28 derrotas e apenas três vitórias.
A sequência negativa provocou forte reação da torcida.
Moisés Lucarelli registra público muito baixo
A crise também aparece nas arquibancadas. A partida contra o São Bernardo teve público de apenas 934 torcedores no Moisés Lucarelli, um dos menores registros recentes do estádio. Antes do início da partida, torcedores realizaram protestos contra o presidente Luiz Antônio Alves Torrano e contra Marco Antônio Eberlin, vice-presidente e diretor de futebol. As manifestações ocorreram também nas áreas externas do estádio e tiveram como alvo a condução administrativa e financeira do clube.
O esvaziamento das arquibancadas acrescenta outro problema à situação da Ponte: além da dificuldade esportiva e financeira, o clube enfrenta a perda de confiança de parte de sua torcida.
“Somos todos pais de família”
Para os jogadores, a crise deixou de ser apenas uma questão relacionada ao futebol.
André Lima afirmou que está feliz em Campinas e considera jogar pela Ponte Preta uma realização profissional, mas ressaltou que os atrasos salariais atingem diretamente a vida dos atletas. “Sou pai de família, tenho que dar sustento para a minha casa e dessa forma não consigo”, afirmou.
Danilo Barcelos também relatou preocupação com os funcionários. “Só Deus sabe como a gente está levando um dia após o outro aqui dentro. Não sei até onde a gente vai. É a primeira vez que acontece algo do tipo. Tem funcionário que não aguenta passar mais um ou dois dias”, declarou.
O jogador cobrou uma solução rápida para a situação.
Funcionários continuam trabalhando
Entre os relatos apresentados está o de uma funcionária que afirmou continuar comparecendo diariamente ao clube mesmo sem receber. Segundo ela, a permanência estaria relacionada ao vínculo com a Ponte Preta e à preocupação com os jovens das categorias de base.
A trabalhadora afirmou temer que a situação enfrentada pelos funcionários e as condições da estrutura possam prejudicar o atendimento aos atletas mais jovens. Outro funcionário disse que o atraso prolongado provocou revolta entre os trabalhadores e considerou significativo o fato de os próprios jogadores terem levado a situação dos funcionários ao conhecimento público.
A Ponte Preta, portanto, enfrenta uma crise que ultrapassa os resultados dentro de campo. O clube precisa administrar salários atrasados, insatisfação de funcionários, mobilização dos jogadores, protestos da torcida, baixo público e uma situação esportiva que colocou a equipe na zona mais crítica da Série B.
A Assembleia prevista para o dia 19, que deverá discutir a proposta de SAF, passa a ser um dos próximos momentos decisivos para o futuro administrativo e financeiro da Ponte Preta.




