Operação coloca no centro das apurações o deputado Mário Frias, a produtora Karina Gama e uma rede de empresas e organizações; em investigação paralela, delação de operador de Daniel Vorcaro aponta repasses milionários para fundo nos Estados Unidos ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro
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A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up para investigar suspeitas de desvio de recursos públicos relacionados à produção do filme “Dark Horse”, obra cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A operação cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal e alcança 29 investigados, entre eles o deputado federal Mário Frias (PL-SP), apontado como autor de emendas parlamentares sob investigação, e a produtora Karina Ferreira da Gama, ligada à Go Up Entertainment e ao Instituto Conhecer Brasil (ICB). A investigação é relatada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A apuração da PF aponta suspeitas de que recursos públicos destinados formalmente a determinadas finalidades teriam sido direcionados, por meio de organizações da sociedade civil e empresas subcontratadas, para atividades diferentes das previstas originalmente. Entre os crimes investigados estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e possíveis irregularidades em contratações. A PF também identificou movimentações financeiras de grande volume entre empresas relacionadas ao caso.
O nome de Mário Frias aparece nessa frente porque uma emenda parlamentar de R$ 1 milhão destinada ao Instituto Conhecer Brasil previa recursos para um projeto de empreendedorismo em Pirassununga, no interior paulista. Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, o projeto não teria sido executado. A PF também apura contratos envolvendo a mesma organização e a Prefeitura de São Paulo, incluindo um acordo de R$ 108 milhões relacionado à instalação de wi-fi em comunidades. Os investigadores analisam se parte desses recursos teve destinação diferente da prevista.
A produtora Karina Gama está no centro dessa estrutura porque aparece vinculada tanto à produção de “Dark Horse” quanto ao Instituto Conhecer Brasil. A coincidência societária e a circulação de recursos entre organizações e empresas são alguns dos pontos que a investigação procura esclarecer. Até o momento, a existência de vínculos financeiros ou administrativos não significa, por si só, que todos os envolvidos tenham cometido crimes. Caberá à investigação estabelecer a origem, o destino e a finalidade efetiva de cada pagamento.
DINHEIRO DO BANCO MASTER
Paralelamente à Operação Make Up, existe outra investigação no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça, que apura os recursos privados destinados ao filme e a relação entre o financiamento da produção e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A investigação ganhou novo elemento nesta quarta-feira (9), quando Mendonça homologou o acordo de colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Empresário ligado a Vorcaro, ele relatou ter realizado operações financeiras determinadas pelo então dono do Banco Master, incluindo remessas destinadas ao Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos utilizado no financiamento de “Dark Horse”.
Segundo informações divulgadas sobre a colaboração, Freixo Junior descreveu a Entre Investimentos como uma espécie de braço operacional de Vorcaro para determinadas movimentações financeiras. O empresário também relatou ter realizado operações consideradas “não ortodoxas”, inclusive obtenção de dinheiro em espécie que, segundo seu depoimento, era posteriormente entregue a Vorcaro. O colaborador afirmou, entretanto, não saber qual era a destinação final de todo o dinheiro em espécie.
No caso específico do filme, documentos entregues às autoridades apontam remessas para o Havengate. Reportagens recentes indicam que os valores chegaram a dezenas de milhões de reais e que o fluxo financeiro teria continuado depois de maio de 2025, contrariando a versão inicialmente apresentada sobre a interrupção dos pagamentos. A extensão exata dos repasses e sua finalidade ainda são objeto de investigação.
O fundo Havengate Development Fund é sediado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto, apontado em reportagens como ligado a Eduardo Bolsonaro (PL). A investigação procura esclarecer se os recursos enviados ao fundo foram efetivamente utilizados na produção cinematográfica ou se parte do dinheiro teve outra destinação.
A conexão com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também está sob apuração. O senador teria negociado com Vorcaro um financiamento de R$ 134 milhões para a produção. Segundo as informações divulgadas, pelo menos R$ 63 milhões teriam sido efetivamente repassados. Flávio sustenta que se tratava de financiamento privado para o filme e atribui à produtora a responsabilidade pelas informações sobre a execução financeira da obra.
O ponto central para os investigadores não é simplesmente saber se um empresário privado poderia financiar um filme. O financiamento privado, isoladamente, não constitui crime. A questão é determinar de onde veio o dinheiro, por que foi solicitado, para quem foi enviado, quem efetivamente controlava os recursos e se houve alguma contrapartida política, desvio de finalidade ou ocultação do beneficiário final.
A existência de duas investigações distintas torna o caso ainda mais complexo. Na frente conduzida por Flávio Dino, a PF examina o possível uso irregular de recursos públicos e emendas parlamentares. Na investigação relatada por André Mendonça, o foco está nos recursos privados associados a Vorcaro e nos caminhos percorridos pelo dinheiro até estruturas utilizadas para financiar o filme.
A produtora afirma que o filme teve custo de aproximadamente R$ 75 milhões e que os recursos foram integralmente financiados pelo Havengate. Uma auditoria privada teria apontado regularidade das contas, mas a ausência de divulgação pública de todos os documentos fiscais e comprovantes mantém sob investigação a composição das despesas.
O caso também ganhou dimensão eleitoral porque Flávio Bolsonaro é apontado como possível candidato à Presidência da República e aparece nas apurações relacionadas ao financiamento. A investigação, contudo, não significa que o senador seja alvo da Operação Make Up desta quinta-feira. Segundo as informações divulgadas, ele não está entre os alvos dos mandados cumpridos nesta fase.
A PF agora deverá cruzar documentos bancários, contratos, notas fiscais, registros de empresas, emendas parlamentares e comunicações entre os envolvidos. O objetivo é reconstruir o caminho do dinheiro e verificar se os recursos chegaram ao destino declarado ou se foram utilizados para outras finalidades.
Até que as diligências sejam concluídas e eventual denúncia seja analisada pela Justiça, as suspeitas permanecem no campo investigativo. O ponto que pode transformar o caso em uma crise política maior será a eventual comprovação de uma ligação direta entre recursos públicos, dinheiro de origem privada, interesses políticos e despesas que não tenham relação efetiva com a produção de “Dark Horse”.




