
Em discurso na Assembleia Geral, secretário-geral da ONU critica enfraquecimento do direito internacional, pede reforma do Conselho de Segurança e afirma que o poder militar não garante sozinho a paz
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou nesta terça-feira (22), durante a abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral, em Nova York, que as “linhas de fratura” do mundo estão se alargando. Em seu discurso, o português alertou para o avanço dos conflitos, o enfraquecimento das instituições internacionais e a disputa pelo poder entre grandes potências.
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Sem citar nominalmente líderes ou países, Guterres criticou o que considera um enfraquecimento do respeito ao direito internacional e às instituições multilaterais. Segundo ele, o cenário atual não é formado por crises isoladas, mas por problemas relacionados à distribuição e ao exercício do poder.
“Não são crises isoladas. São capítulos da mesma história. A história do poder. Quem o detém? A quem ele é negado?”, uestionou. O secretário-geral também afirmou que o poder militar, econômico ou tecnológico, isoladamente, não é suficiente para garantir a paz.
“Devemos agir para garantir que o poder seja regido pela lei”, afirmou.
Direito internacional sob pressão
Guterres defendeu que as relações internacionais precisam continuar submetidas à Carta das Nações Unidas e ao direito internacional. Em sua avaliação, o aumento das divisões geopolíticas tem dificultado a capacidade das instituições internacionais de responder aos conflitos. Em entrevista coletiva realizada antes da Assembleia Geral, ele já havia afirmado que o mundo atravessa um período de profundas incertezas e que a mudança das estruturas internacionais não pode significar o abandono dos princípios que orientam a ONU.
O secretário-geral também afirmou que a paz no século 21 não pode ser entendida apenas como ausência de guerra. Para ele, é necessário criar mecanismos de contenção, diálogo, negociação e cooperação capazes de evitar que disputas entre países evoluam para novos conflitos.
Conselho de Segurança
Um dos principais pontos defendidos por Guterres foi a reforma do Conselho de Segurança da ONU. O órgão possui cinco membros permanentes com poder de veto: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Para o secretário-geral, sua composição ainda reflete a realidade geopolítica do período posterior à Segunda Guerra Mundial e não corresponde à distribuição de poder e população do mundo atual.
A ausência de um país africano entre os membros permanentes é apontada por Guterres como uma das principais distorções da estrutura atual. Em discurso recente, ele classificou como “indefensável” a ausência de representação permanente africana no Conselho e defendeu mudanças para adequar as instituições internacionais ao mundo de 2026.
A defesa da reforma também apareceu na preparação da atual Assembleia Geral. Guterres afirmou que as divisões geopolíticas e a presença, no próprio Conselho, de potências acusadas de violar o direito internacional contribuem para o bloqueio de decisões.
Último ano à frente da ONU
Guterres está em seu último ano como secretário-geral das Nações Unidas, cargo que ocupa desde 2017. A Assembleia Geral de 2026 representa, portanto, uma das últimas grandes participações do português no comando da organização.
Em janeiro, ao apresentar suas prioridades para o último ano do mandato, Guterres afirmou que o mundo enfrentava conflitos, desigualdade, impunidade e imprevisibilidade, além de alertar para o enfraquecimento da cooperação internacional justamente quando ela seria mais necessária.
Na abertura da atual semana de alto nível, o secretário-geral voltou a defender a preservação do sistema multilateral e a necessidade de adaptar suas instituições às transformações do cenário internacional.
Crise financeira
A situação financeira da ONU também aparece entre os problemas enfrentados pela organização. Os Estados Unidos continuam sendo o maior contribuinte da ONU, mas acumulam bilhões de dólares em valores devidos. Em setembro, o governo Donald Trump efetuou US$ 725 milhões em pagamentos referentes ao orçamento regular e outros US$ 102 milhões destinados às operações de manutenção da paz. Com isso, a dívida americana relativa ao orçamento regular caiu para US$ 1,312 bilhão, segundo dados divulgados pela Reuters.
A ONU vem implementando medidas de contenção de despesas e reformas administrativas diante das dificuldades financeiras. A organização lançou a iniciativa “UN80”, voltada à modernização e à redução de custos.
O cenário financeiro se soma aos conflitos e às disputas entre grandes potências que, segundo Guterres, pressionam a capacidade das Nações Unidas de atuar na prevenção e na resolução de crises.
Um mundo em transformação
A mensagem apresentada por Guterres ocorre em uma Assembleia Geral marcada por conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, além de disputas econômicas e tecnológicas entre grandes potências.
Antes do início da semana de alto nível, o secretário-geral já havia afirmado que o mundo está passando por uma mudança na distribuição do poder e que as instituições internacionais precisam acompanhar essa transformação sem abandonar os princípios da Carta da ONU.
Para Guterres, a alternativa passa por reforçar o diálogo, a cooperação e o respeito às regras internacionais em vez de permitir que a força determine quais países e populações terão seus interesses considerados.
A 81ª Assembleia Geral segue até 29 de setembro, com o debate geral entre 22 e 26 de setembro e no dia 28.


