Candidato do PL que usa o sobrenome Bolsonaro na urna, teve empresa ligada à família alvo de busca; construtora assinou ao menos R$ 16,2 milhões em contratos investigados
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O empresário Renato Araújo, aliado da família Bolsonaro e candidato a deputado federal pelo PL com o nome eleitoral “Renato Araújo do Bolsonaro”, foi alvo nesta quinta-feira (13) de uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro que investiga possíveis irregularidades em contratos para reformas de escolas públicas estaduais. A investigação, batizada de Operação Sarasvati, cumpriu 20 mandados de busca e apreensão em cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma das empresas atingidas foi a Bravo Construções, fundada por Araújo e atualmente registrada em nome de sua mulher, Tainá Nóbrega de Souza. Segundo levantamento da Folha, a construtora firmou pelo menos R$ 16,2 milhões em contratos para reformas de 15 escolas na gestão do governador Cláudio Castro (PL).
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A Polícia Civil investiga um suposto sistema de direcionamento de contratos para determinadas empresas. De acordo com a corporação, as apurações conduzidas pela Delegacia Fazendária identificaram indícios de que um ex-diretor regional teria participado da indicação de empresas que posteriormente seriam favorecidas nos procedimentos de contratação. A investigação busca determinar se houve direcionamento, favorecimento e eventual desvio de recursos públicos.
OPERAÇÃO SARASVATI
Ao todo, foram cumpridos 20 mandados de busca e apreensão em endereços de Maricá, Campos dos Goytacazes, Cabo Frio, Angra dos Reis, Mangaratiba e São Gonçalo. Na capital fluminense, os policiais estiveram no Andaraí e no Centro. Também foram realizadas diligências em São Paulo.
Além da Bravo Construções, foram alvo da operação a Atec Comércio e Empreendimentos, a Beta X Fire Sistema Contra o Incêndio, a Hellon Arquitetura e a Template.
A investigação tem como pano de fundo contratos firmados para obras em escolas estaduais. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro já havia determinado a suspensão de pagamentos a empresas envolvidas nas contratações e questionado o modelo utilizado pela Secretaria Estadual de Educação para executar reformas de maior porte.
Segundo levantamento publicado pela Folha em maio, a Bravo Construções foi escolhida em 2025 para realizar reformas em 15 unidades escolares, em contratos que somavam R$ 16,2 milhões. Antes disso, a empresa havia firmado dois contratos com o governo estadual em 2023, que acabaram rescindidos antes da conclusão. Até 2023, não havia registro de contratos da empresa com o governo fluminense.
O modelo de contratação também está sob questionamento. Segundo o TCE-RJ, a Secretaria de Educação teria utilizado um mecanismo criado para agilizar pequenos reparos e intervenções emergenciais para realizar obras de maior porte. O tribunal apontou indícios de possível burla ao regime de licitações.
Em um dos casos analisados pelos auditores, uma escola de Nova Iguaçu relatou problemas de alagamento que exigiriam uma intervenção hidráulica. Entretanto, segundo o relatório do TCE citado pela Folha, a Secretaria de Educação direcionou a contratação para a substituição do telhado, com custo estimado em mais de R$ 2 milhões. A obra ficou sob responsabilidade da Bravo Construções.
O PAPEL DE RENATO ARAÚJO
Embora a Bravo Construções esteja atualmente registrada em nome de Tainá Nóbrega de Souza, mulher de Renato Araújo, documentos relacionados às contratações indicam a participação do empresário. Segundo a Folha, Araújo integrava o quadro societário da empresa pelo menos até 2024 e aparece como diretor-geral em documentos encaminhados à Secretaria Estadual de Educação em 2025.
A situação é um dos pontos que merecem esclarecimento na investigação: qual era exatamente a função exercida por Araújo no período dos contratos e qual participação ele teve na elaboração, apresentação ou execução das propostas.
A existência de contratos sob investigação, entretanto, não significa que a empresa ou o empresário tenham sido considerados culpados. A apuração ainda deverá estabelecer se houve irregularidade e, caso confirmada, quais pessoas participaram das eventuais condutas ilícitas.
A CONEXÃO COM A FAMÍLIA BOLSONARO
A operação ganhou dimensão política em razão da proximidade de Renato Araújo com Jair Bolsonaro (PL) e Flávio Bolsonaro (PL). O empresário foi candidato a prefeito de Angra dos Reis em 2024 com apoio da família Bolsonaro. Jair Bolsonaro e Flávio participaram de atos de sua campanha.
Araújo também foi responsável por supervisionar a reforma da casa de Jair Bolsonaro na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis. A relação pessoal ficou evidenciada ainda pelo empréstimo de um jet ski utilizado pela família Bolsonaro.
Reportagem da Folha registra que um dos jet skis utilizados por Bolsonaro e seus familiares durante uma pescaria em 29 de janeiro de 2024 havia sido emprestado por Renato Araújo. Naquele mesmo dia, a Polícia Federal realizava buscas na residência do ex-presidente relacionadas à investigação sobre uma suposta estrutura paralela de monitoramento da Agência Brasileira de Inteligência.
O episódio do jet ski ganhou repercussão porque Flávio Bolsonaro deixou o local utilizando a embarcação enquanto os agentes federais estavam na propriedade. A existência do empréstimo, por si só, não comprova qualquer participação de Araújo em eventual tentativa de ocultação de provas.
A relação política entre Araújo e os Bolsonaro avançou ainda mais. O empresário chegou a ser apontado como possível candidato a vice-governador na chapa de Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio. A composição acabou não prosperando após a prisão de Bacellar no fim de 2025.
Em 2026, Araújo passou a utilizar eleitoralmente o sobrenome Bolsonaro. A escolha do nome “Renato Araújo do Bolsonaro” tornou explícita sua associação política com a família.
MAIS DE R$ 1 BILHÃO NA MIRA
A investigação não se restringe à Bravo Construções. Segundo informações divulgadas pela Polícia Civil, o conjunto de empresas investigadas teria recebido valores superiores a R$ 1 bilhão em contratos relacionados às obras da Secretaria Estadual de Educação — R$ 630,2 milhões em 2024 e R$ 513,3 milhões em 2025.
A dimensão financeira do caso explica a atenção dada pelos órgãos de controle e investigação. O objetivo é verificar se os valores foram contratados e pagos de acordo com a legislação e se houve direcionamento de empresas ou outras formas de favorecimento.
A investigação também se relaciona a apurações anteriores envolvendo contratos de manutenção e reformas das escolas estaduais. O TCE-RJ determinou a suspensão de pagamentos e apontou problemas no uso das Associações de Apoio às Escolas (AAEs) para viabilizar obras de maior porte.
Em manifestação divulgada anteriormente, a Bravo Construções afirmou que as contratações ocorreram de forma regular e negou relação entre seus contratos e os vínculos políticos de Renato Araújo.
“A empresa atua no mercado da construção civil há mais de 15 anos, com CNPJ registrado desde 2011 e histórico comprovado de obras em diversas cidades e estados”, declarou a construtora.
A empresa afirmou ainda que as contratações realizadas por meio das Associações de Apoio às Escolas foram obtidas por procedimentos que considerava regulares e que apresentou suas propostas “em estrita conformidade com os elementos técnicos disponibilizados pelas entidades contratantes”. A Bravo também sustentou que as contratações representaram um “desdobramento natural de uma trajetória sólida e anterior a qualquer vinculação política”.
A empresa declarou que executou aproximadamente 90% dos contratos e que os trabalhos foram aprovados por diretores e coordenadores regionais. Também afirmou que a família Bolsonaro “jamais teve qualquer tipo de relação com a empresa”.
A Secretaria Estadual de Educação informou que vem realizando revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo da rede estadual, com o objetivo de ampliar a transparência e a eficiência na aplicação dos recursos públicos.



