PGR denuncia ministro do TCU, seu filho por tráfico de influência

Data:

Aroldo e Tiago Cedraz integram grupo acusado de intervir e influenciar em processos relativos à Angra 3, que tramitavam na Corte de Contas

A Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou, nesta quinta-feira (11), o ministro do Tribunal de Contas União (TCU), Aroldo Cedraz, seu filho, o advogado Tiago Cedraz, e outras duas pessoas pelo crime de tráfico de influência. Os quatro são acusados de negociar e receber dinheiro da empresa UTC Engenharia com o propósito de influenciar o julgamento de processos referentes à Angra 3 que estavam em andamento no TCU. O valor total do contrato era de quase R$ 3,2 bilhões, montante que seria pago ao consórcio vencedor do certame, que tinha entre os integrantes a construtora UTC. A denúncia foi encaminhada ao relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Edson Fachin.

A denúncia é resultado de inquérito instaurado em 2015 após declarações do empresário Ricardo Pessoa, que firmou acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal (MPF). Na peça, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, detalha o processo de apuração e as provas reunidas pelos investigadores, como elementos que comprovam a entrega de dinheiro em São Paulo, na sede da UTC e, em Brasília, no endereço onde funciona o escritório de Tiago Cedraz. Cruzamentos entre os registros de viagens, entrada dos envolvidos na sede da empresa, tabela de pagamentos apresentada pelo colaborador e documentos apreendidos no escritório do advogado também confirmam a relação entre Ricardo Pessoa e Tiago Cedraz. Segundo as investigações, o primeiro acerto foi firmado em 2012 e os pagamentos – feitos de forma parcelada e em espécie – ocorreram até 2014. No total, foram pagos R$ 2,2 milhões, ao longo do período de tramitação dos processos.

Ainda conforme descreve a denúncia, Tiago Cedraz era auxiliado por Luciano Araújo – que recebia os pagamentos mensais – e por Bruno Galiano – responsável por dar suporte técnico às tratativas ilícitas. Os dois também foram denunciados. A procuradora-geral da República pede, além da condenação dos acusados por tráfico de influência, o ressarcimento aos cofres públicos em, no mínimo, R$ 4,4 milhões. O valor é equivalente ao que teria sido obtido ilicitamente (R$ 2,2 milhões) e mais R$ 2,2 milhões por danos morais. Raquel Dodge também requereu a decretação da perda da função pública. 

O esquema – As investigações revelaram que Ricardo Pessoa era o líder das sete empresas que compunham os consórcios concorrentes na licitação. Nessa condição, contratou Tiago e Aroldo para interceder em benefício dos interesses do grupo que representava no processo 011.765/2012-7, que já tramitava à época dessa contratação e, posteriormente, no processo 009.439.2013-7, ambos da relatoria do ministro Raimundo Carreiro.

O objetivo final era evitar que o TCU impedisse a contratação ou fizesse exigências onerosas às empresas contratadas. O primeiro processo tratava da apuração de vícios no edital de pré-qualificação técnica das empresas que integravam os consórcios concorrentes e, o segundo, da fiscalização à execução das obras de construção e ao cumprimento de determinações do próprio TCU em relação ao edital de concorrência.

A atuação de Tiago Cedraz para demonstrar aos contratantes a sua influência junto ao relator ou à área técnica do TCU contou com o apoio de seu pai, o ministro Aroldo Cedraz. Os investigadores reuniram provas de que, com esse propósito, o ministro interveio em duas ocasiões: apresentou pedido de vista e solicitou o adiamento do julgamento do processo TC 011.765/2012-7, sob a justificativa de que estaria fora do País. Na denúncia, a procuradora-geral cita informações extraídas de sistema do Tribunal, segundo as quais, desde junho – cinco meses antes do pedido de vista – havia indicação de impedimento do ministro Aroldo Cedraz para julgar o caso. Para Raquel Dodge, não há dúvidas de que ele deveria ter se declarado impedido e não solicitado vista dos autos. “Tal situação, somada aos fatos narrados pelos colaboradores acerca da atuação de Tiago Cedraz, revela que Aroldo Cedraz agiu para controlar a data do julgamento. Seu ato de ofício infringiu dever funcional, pois pediu vista de um processo para o qual estava previamente impedido,” pontuou em trecho da denúncia.

Ainda em relação ao ministro, a denúncia detalha que, embora haja impedimento legal para que ele atue nos processos em que seu filho é advogado constituído, a relação entre Tiago Cedraz, o ministro e o corpo técnico de seu gabinete é intensa. Dados coletados durante o inquérito apontaram um total de 5.651 registros de contatos telefônicos entre os terminais vinculados a Tiago Cedraz e seu escritório e os terminais vinculados ao ministro Aroldo Cedraz e seu gabinete, entre os anos de 2013 e 2014. Esse número não inclui chamadas feitas pelos celulares e telefones residenciais de pai e filho.

Edital de concorrência – Segundo a denúncia, além das parcelas mensais de R$ 50 mil, Tiago Cedraz também solicitou um pagamento extra de R$ 1 milhão por ocasião do julgamento do segundo processo, sob a alegação de que o valor seria repassado ao relator. Neste caso, o dinheiro foi entregue a Tiago Cedraz por intermédio do doleiro Alberto Youssef.

Para a PGR, parte do valor recebido do grupo de empresários representado por Ricardo Pessoa teve como destinatário o ministro Aroldo Cedraz. A peça menciona o fato de, no período dos pagamentos, Tiago Cedraz ter comprado um imóvel no valor de R$ 2,275 milhões. A aquisição foi feita pela empresa Cedraz Administradora de Bens Próprios, que o advogado mantém em sociedade com sua mãe. Esse imóvel foi reformado com recursos de Aroldo Cedraz e destinado à moradia do próprio ministro.


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe esse Artigo:

spot_img

Últimas Notícias

Artigos Relacionados
Relacionados

Xi Jinping e Putin se reúnem em cúpula que amplia disputa por influência global

Encontro na Organização de Cooperação de Xangai reúne China,...

China prepara entrada no Pix e cria nova ponte financeira com o Brasil

Projeto da UnionPay permitirá que turistas chineses paguem em...

Terremoto de 7,4 deixa 169 mortos na Colômbia e mobiliza equipes de resgate

Segundo balanço divulgado nesta terça-feira, centenas de pessoas ficaram...

Trump deixou Turquia em voo secreto após ameaça iraniana, diz Washington Post

Operação de segurança teria usado um caminhão de transporte...
Eduardo Pacheco da Silva foi abordado durante a noite em uma área de mata após seguranças relatarem que ele teria ido ao local para buscar integrantes de um grupo...